No controle

- Eu tenho medo. Eu tenho muito medo do que me toma o corpo quando eu me distraio.

- Oi?

- Quando eu fico distraído. Ficar distraído é tipo tombar o espírito prum lado só do corpo. Cê fica concentrado de um lado e o outro lado fica vazio e eu tenho medo dessa coisa que chega me empurrando ainda mais e tomando o controle.

- Do que é que cê tá falando, cara? Que coisa? Que controle?

- Não sei que coisa! O controle é tipo o controle de mim, da situação. Porque tipo, quando eu tô distraído e conversando com alguém ao mesmo tempo, e começo a falar “Aham”, “Aham”, “Aham” pra pessoa sem nem saber o que a pessoa tá falando... Sabe? De repente eu não sei mesmo. Quando eu volto a mim sinto tipo um sorriso idiota na cara e fico tipo do que é que eu tava achando graça, Meu Deus. Aí começo a prestar atenção no que a outra pessoa tá falando e ela parece que tá rindo de alguma coisa que eu falei e eu não faço a menor ideia do que falei!

- Acho que entendi mais ou menos o que cê tá querendo dizer. Só não tô entendendo essa angústia tua, cara. Porque, assim: todo mundo entra no automático. Normal. A gente se distrai mesmo.

- Eu tô ligado que todo mundo se distrai, mas o lance é que eu devo ser mais vulnerável que o resto. Sei lá, não sei explicar... Eu sinto contra mim a pressão da outra... entidade? Não, não é bem entidade... Do outro ser... Do outro de mim que eu não conheço e que empurra o que eu conheço contra a parede do corpo.

-Parede do corpo? Nó, que viagem! Há-há! Foi mal, Jhony, mas agora eu tive que rir...

- Sabia que cê ia agir assim. Deixa pra lá.

- Não foi por maldade, é só que cê fala umas coisas... Mas não nego a tua criatividade. Essas paranoia tua, mó daora. Eu tenho umas neura também, mas, nuh, não vou longe que nem ocê não... Bem que eu queria. Deve ser daora ser você.

- Ãh?

- Ser ocê. Deve ser daora. Tu não deve ficar entediado.

- Uhm.

- Já pensou em escrever um livro?

- Uhm...

- Aô, Jhony! Tô falando contigo, rapaz! Cê tá com esses óio vidrado... Tá viajando de novo? Aliás... Tá empurrado prum canto do teu corpo com a versão sinistra de você tomando conta? TA PORRA! COMO É QUE CÊ FEZ ISSO COM TEU OLHO? Nuh, fih, susto da porra... Até arrepiei... Nuh... Tem graça não, veado! Vai assustar a vó!

- Fiz o que com o olho? Do que é que cê tá falando?

- Ah, vai se fuder! Esquece o lance do livro, cê devia é ser ator. Vai fingir bem assim lá no inferno! Me assustou pra valer! Olha aqui, tô arrepiadaço...

- Eu ainda não tô entendendo, mano. Tô falando sério. Que é que aconteceu? Do que é que cê tá falando?

- Para de ser cínico, meu. Tá paia já.

- Oi?

- Cê num... Cê...?

- ...?

- Credo! Credo... Esquece. Deixa pra lá...