Quando os mortos resolvem dar umas escapadas

Dona Norah já tinha sessenta e poucos, mas ainda conservava bem o corado das faces e um certo brilho no olhar. Só o sorriso não era o mesmo, desde que ficara viúva. José Miguel, que tinha sido seu único amor por quase uma vida e com quem chegara a completar as bodas de ouro, partira após cair de cama com pneumonia. A princípio todos diziam “Ela supera, ela supera”, mas, depois de cinco anos, nem se preocupavam em ressaltar a frase mais. Porque achavam que ela tinha superado mesmo. Ela ia ao cemitério todo santo mês visitar o túmulo do falecido e colocar um vaso de orquídeas sobre ele, mas não havia absolutamente nada de anormal nisso... 

Até que chegou dia dois de novembro. Dia de Finados. Dona Norah providenciou o vaso de orquídeas habitual e outro com gerânios para compensar a homenagem, e foi ao cemitério acompanhada pelos filhos, já adultos e casados, que José Miguel lhe deixara. Foi, lembrou, chorou, rezou, chorou, lembrou. Até aí tudo bem. Ela era viúva e sentia falta do marido, então continuava não havendo absolutamente nada de anormal nisso.

Acontece que, no dia seguinte, ela foi ao cemitério de novo. À noite. Levava só uma orquídea, mas não era no vaso, era presa no cabelo. Estava também usando batom.

Quando voltou ainda não eram onze horas, porém voltou tão rejuvenescida por um largo sorriso no rosto que não puderam deixar de perguntar o motivo da alegria.

— Não é nada, gente! — respondeu ela — eu só fui visitar o Zé.

Acharam estranho. 

Na noite seguinte lá vai a Dona Norah para o cemitério mais uma vez. O batom mais escuro, o perfume exalando à distância, um vestido longo que todos juravam que ela reservava apenas para as festas. Não levara orquídea nenhuma, nem no vaso e nem no cabelo, mas voltou com uma rosa nas mãos. Perguntaram onde ela arranjara a flor, e ela respondeu:

— A rosa? Ah, foi o Zé que me deu.

Acharam mais estranho ainda. 

Passada uma semana dessa maneira, reuniram-se os filhos para conversarem seriamente sobre Dona Norah...

— Ela foi de segunda a sexta encontrar o papai, e voltou cada dia mais feliz. — comentou o mais novo.

— Deixa de baboseira! Papai faleceu, lembra? — disse o mais velho.

— Eu sei! Mas cê também ouviu ela dizer “Eu ganhei a flor do Zé”, “Eu só fui ver o Zé”, “Eu tô me arrumando para o Zé” e não sei mais o que com o Zé durante toda a semana. Que Deus esteja com nosso querido pai Zé Miguel, mas pelo visto ele tem dado umas escapadas do céu pra vir se encontrar com a mamãe.

— Ainda mais baboseira...! Não piora as coisas, eu já tô preocupado demais com a possibilidade da mamãe tá ficando esclerosada.

— Esclerosada? Cê acha mesmo?

— A menos que ela tenha aprendido a se relacionar com os mortos, é, acho sim.

— O que a gente faz?

— Vamo esperar mais uma semana. Se ela continuar com esses encontros, a gente tenta convencer ela a procurar ajuda médica. 

Esperaram mais uma semana e a situação só foi piorando. Na sexta-feira, Dona Norah saiu de casa levando uma garrafa de vinho. No sábado, levou o vinho mais um frango assado com farofa e algumas velas.

Os irmãos, então, organizaram nova conferência.

— Aí, cê viu só? Mamãe tá mexendo com coisa pesada... — observou o mais novo.

— Do que cê tá falando? — indagou o mais velho.

— Magia negra, mano, macumba... É disso que eu tô falando! Cê não viu ontem? Ela saiu de casa com tudo que é necessário pra fazer uma oferenda! Agora já sei como ela tá trazendo o papai de volta pra esses encontros nada casuais...

— Para de ser besta! Mamãe, “macumbeira”?

— Não é impossível...

— Impossível é acreditar que cê conseguiu passar na faculdade... A gente faz o seguinte: pega o carro e segue ela até o cemitério; dependendo do que a gente ver por lá, conversamos com ela amanhã.

Assim fizeram. Quando Dona Norah saiu naquela noite, foram, às escondidas, logo atrás. Estacionaram o carro num lugar discreto, de onde pudessem observar sem serem descobertos, e esperaram. 

Passada cerca de meia hora, distinguiram uma senhorinha adentrando os portões do cemitério. Não deu outra: era Dona Norah. Viram-na caminhar confiante entre os túmulos, parecendo saber bem aonde ir... E desapareceu atrás de alguns arbustos que cobriam uma das curvas do corredor, que logo ficaram mais iluminados, talvez pela claridade das velas que ela novamente levara.

— Então? O que a gente faz? Vai atrás dela e arrasta ela pra a casa? — perguntou o mais novo.

— Não. Voltamos pra a casa e lá conversamos com ela. — respondeu o mais velho.

Voltaram para a casa.

E esperaram.

Enquanto Dona Norah não chegava, começaram a ensaiar o que falar. Palavras de pouco impacto, suaves, que não deixassem tão claro que eles achavam que a mãe estava ficando louca. Ensaiaram tanto o tal do eufemismo que perderam a noção das horas: o sol já estava querendo dar sinal de vida e ela ainda não chegara.

Já iam atrás dela quando ouviram umas risadas vindas do lado de fora. Os irmãos se entreolharam, confusos. Por fim tiveram a atitude esperta de ir conferir o que estava acontecendo. Ultrapassando a porta, depararam-se com a mãe no quintal, de frente a um homem que estava de costas para eles. Ela ria enquanto dizia um ou outro meloso “Ah, Zé...” e enrolava o cabelo com os dedos, jogando charme. O irmão caçula já foi logo fazendo o Nome do Pai umas três vezes seguidas. Até o mais velho, que costumava ser o mais sensato, ao perceber que o homem tinha uma silhueta parecidíssima com a do falecido pai soltou um “Valha-me Deus!” que saiu mais alto do que ele esperava. 

A mãe escutou. E virou-se para os filhos, surpresa:

— Oh, meninos? Meninos, são vocês? Sim, são vocês, e que bom que tão aí! Preciso mesmo que um dos dois me faça o favor de levar essa garrafa e as sobras de frango do jantar de ontem pra dentro. Um jantar à luz de velas, acreditam? Eu não fazia algo assim desde que seu pai tava vivo! Ah, claro, eu já ia me esquecendo de apresentar a vocês: esse aqui é o José Fabrício, o Zé. Ele é o coveiro lá do cemitério.

E o simpático coveiro virou-se para ser apresentado.


Publicação original: 31/10/13 | Reedição: 25/07/17

7 comentários:

  1. Gostei muito desse texto! No começo eu achava que era mesmo macumba shuehaheea E no final eu comecei a rir quando vi que era só um coveiro amigo dela =D O texto combinou Halloween com Dia de Finados, curti demais, principalmente o título

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  2. Adorei o texto haha Que velhinha doida hein? hahaha
    beijos

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  3. Hahaha, só você mesmo Lari para escrever tão bem. Eu fiquei meio :O com o título, tive que ler... curiosidade quase me matando kkk Adoreeei!
    Beijooos! ♥ http://dallyse.blogspot.com.br

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  4. Ah, simplesmente perfeito. Muito bem elaborado, e o fim... me surpreendeu bastante. No começo fiquei com um pouco de medo, mas passou. Adorei.
    cronicasdeumlunatico.blogspot.com.br

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  5. hahaha Enganando todo mundo porque sim! E eu qui achando que era o Zé de antes! u_u'
    Bem divertida a história. Melhor post de halloween que vi! ^^
    Bjo, Sel ;*

    Jovens Gordinhas

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  6. Oh My God! Ri demais com esse texto ahuahsuhs
    No começo achei que fosse mais uma história de amor, de uma velhinha que perde o marido e depois acaba morrendo de desgosto, mas o rumo da história muda completamente. Coitado dos filhos, a dona Norah que é espertinha! rsrs
    Adorei o texto, não sei como tu consegue encaixar cada palavra, simplesmente perfeito!

    Ah, obrigada pelo comentário no blog. Mesmo quando eu estava ausente, não deixei de conferir seu blog, adoro muito <3

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  7. Quem poderia imaginar, heim? O coveiro! Eu jurava que você iria inventar algo sinistro, porque, enfim ~dia das bruxas passou faz pouco tempo~. Adorei a surpresa do final.
    :: @hisakurasan :: {Emilie Escreve} ::

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