Esta estrada não lhe inspira?

— Esta estrada não lhe inspira?
Sentada com as costas apoiadas na porteira, levantei os olhos do caderno e observei, em silêncio, o caminho que se abria à minha frente. Era possível distingui-lo apenas até onde dobrava a primeira curva, mas a limitação do meu campo de visão não fazia com que a paisagem vislumbrada fosse menos digna de uma tela de pintura.
— Não, não me inspira. — respondi, com a voz seca de quem está mal-humorado e quer contrariar os outros por pura e simples maldade.
— Por que diz isso?
— Porque sim – bufei, já perdendo a paciência.
— Você é difícil de se interpretar... Mentiu quando disse que a estrada não lhe inspirava, porque você perdeu um bom tempo a contemplá-la. Mas depois provou estar mesmo sem criatividade, pois “Porque sim”, depois de “Eu não sei”, é a resposta mais desgastada que existe.
Como permaneci em silêncio, tornou a falar:
— Sabe... O que há de comum a todas as respostas desgastadas é que elas não satisfazem os ouvintes ansiosos por complementos e explicações.
— O que você quer que eu diga? — questionei — Se não estou animada o suficiente para preencher as folhas deste caderno com os pensamentos que me passam pela cabeça, é natural que eu não queira verbalizá-los também.
— Tente. Só quero que me diga por que esta estrada não lhe inspira.
— Poxa, haja insistência...! Está bem, você venceu. Esta estrada não me inspira porque suas pedras estão me machucando. Sem falar das formigas que não me dão sossego, e os mosquitos... Argh, os mosquitos! Que ódio deles!
— Hmmm. Sua resposta evoluiu de desgastada para incoerente.
— O que...
— Preste atenção ao que você disse. Não faz sentido atribuir às pedras, às formigas e aos mosquitos a culpa por você não ter encontrado sua inspiração na estrada.
— É claro que faz sentido! Como posso apreciar uma coisa quando tantas outras coisas insistem em tirar minha atenção? A atenção e a paciência, porque estou quase chegando à conclusão de que pedras, formigas e mosquitos conseguem ser ainda mais irritantes que suas perguntas.
— Ah, minha cara... Acho que você vai precisar de uma ajudinha. Vamos trocar os termos e os meios. O que a estrada representa para você? Pense bem.
— Não é preciso pensar muito — disse eu, com um ar de vitória. — Representa o caminho de volta para casa.
Não, não e não! Colabore, por favor! Tente ser um pouco menos específica e um pouco mais poética. Outra vez: o que a estrada representa para você?
— Um caminho — respondi, depois de cansar de procurar por uma definição inédita e que pudesse agradar.
— Está certo, que seja... E o que representa o caminho?
— Uma... jornada?
— Sim, uma jornada. E qual é a sua principal jornada?
Refleti por alguns instantes.
— Espere aí, você não quer que eu responda que é a minha vida, não é? — indaguei, desconfiada — Quer dizer, esse lance de comparar uma estrada com a vida, ou vice versa... Se você está me motivando a escrever um texto com um tema tão batido quanto esse, vou lhe dizer que prefiro lotar páginas com vários “Eu não sei” e “Porque sim”.
— Menina, se sempre comparam a vida com uma estrada, é porque sabem que a comparação surte efeito. Responda-me, então: se esta estrada fosse sua vida, o que você veria nela?
— Eu veria... Eu veria que uma hora ela some de vista. Uma hora ela parece chegar ao fim.
— Então é a certeza de que a estrada sempre chega ao fim que faz com que você não possa apreciá-la?
— Nossa, mas que saco! Eu já disse que a culpa é das pedras, das formigas e dos mosquitos.
— Se você insiste em dizer que pedras, formigas e mosquitos são problemas, devo lhe lembrar que a vida está cheia deles. Digo, os problemas. Acontece que isso não a torna menos bela. Nem mais bela. Tudo depende da forma como você a enxerga, e você sabe que pode enxergá-la de dentro, de fora, do avesso, ao seu redor, através da alma dos outros e até mesmo além das curvas que ela faz. São inúmeras possibilidades que provam que basta enxergá-la. Enxergue-a, então. Com olhos, com boca, com corpo, mente ou coração.
— Legal! Agora sim você tocou num ponto que poderia ser desenvolvido na minha escrita! Bem que esta inspiração momentânea poderia estar do meu lado desde o início...
— Ela não era momentânea. De fato estava do seu lado desde o início.
— Não entendi o que você quis dizer... Aliás... quem é você? É quem estou pensando?
— Sim. Sou sua inspiração.