Por uma vida em que é doce viver

As sombras espessas
Cruzam às pressas
A brecha da porta da casa sem dono
Mais negras que o escuro
Cobrindo o futuro
Manchando de medo o resto de sono

O menino mendigo
Encolhe-se ao abrigo
Que lhe apareceu em meio à tempestade
A falta de sorte
Afeita à morte
Dando-lhe exemplo de rara bondade

Mas o teto geme
E o menino teme
Que as telhas desabem num instante fugaz
Tirando do fundo
De seu corpo imundo
A alma carente de um pouco de paz

Mas a casa resiste
E o menino insiste
Em esconder da fome a vontade do pão
Ele apela à droga
Que logo o afoga
Num entorpecimento de mera ilusão

A chuva cessa
Com as sombras, sem pressa
Cedendo espaço ao amanhecer
O menino desperta
Na rotina incerta
Querendo uma vida em que é doce viver