Junto às vozes do cotidiano

Havia uns vinte minutos que eu estava sentada no ponto de ônibus. O Sol à pino, escaldante, indicava o meio-dia. O meio-dia, extasiante, marcava o fim do expediente de quem trabalhara ou estudara a manhã inteira e já estava com o estômago desesperado por almoço. 

Como é natural de se esperar em tais circunstâncias, o trânsito era intenso. De Fuscas com a ferrugem tomando conta do capô à BMWs cujos donos tinham expressões estressadas no rosto e relógios de ouro nos pulsos, os carros iam e vinham...

Buzinas. Mais buzinas. E o semáforo dançando ritmado em cores previsíveis.

Eu reproduzia detalhadamente a cena em minha cabeça numa tentativa frustrada de encontrar poesia naquele pedaço de cotidiano... Talvez também numa tentativa de fugir do tédio, já que eu esquecera os fones de ouvido em casa e não podia me distrair ao som dos meus refrões preferidos. 

No meio de todo o contexto, entretanto, havia uma sensação de vazio crescendo dentro de mim. Além da fome, claro. Era uma sensação que não tinha nome específico... Uma sensação que me fazia acreditar que eu era apenas mais um corpo ocupando espaço no mundo, e que este mesmo mundo andava conspirando contra mim para que nenhuma surpresa ou coincidência agradável cruzasse meu caminho e lançasse-me um sorriso consolador.

A pergunta não queria calar: quando é que alguma coisa ia acontecer?

Eu estava refletindo sobre isso quando um homem de idade avançada se sentou ao meu lado, levantando-me o chapéu em cumprimento assim como faziam os moços galanteadores nas novelas de época. Meneei a cabeça em resposta, enquanto me intrigava ao perceber que ele mantinha um radinho de aspecto muito antigo parado junto ao ouvido. Entre o que parecia uma platéia gritando e um narrador que falava puxando os erres, soando do alto falante do aparelho, o senhor comentou comigo:

— Palmeiras e Flamengo. Final do segundo tempo. Ainda no zero a zero.

Sorri com o comentário e aproveitei para absorver um pouco mais de sua figura: além de todos os hábitos antiquados, usava um terno de linho marrom, sapatos sociais, um bigode desenhado à navalha com perfeccionismo e cabelos pretos que pareciam penteados com graxa, de tão brilhantes. Quando o narrador do jogo anunciou “O goleirrrro faz uma defesa espetacularrr e o juiz demarrrrca o fim da parrtida!”, ele deixou o radinho sobre o banco e curvou-se para amarrar os sapatos.

Nesse instante, uma sombra cobriu a calçada em que estávamos e indicou que um ônibus havia estacionado à nossa frente.

Avaliei o design simplório do veículo e notei que o nome da companhia rodoviária gravado em sua lateral não me era nem um pouco familiar. O motorista, pomposo em seu uniforme bem passado, girou algo perto do volante e a porta se abriu. O senhor ao meu lado, por sua vez, largou os cadarços que amarrava, ajeitou o chapéu sobre a cabeça, murmurou um “Adeus!” apressado e subiu os degraus que se materializaram junto ao meio-fio.

Ao arrancar do motor minha visão da rua foi devolvida, e então a coisa mais estranha de todas ocorreu: o contexto no qual eu me encontrava meio minuto antes havia mudado completamente. O trânsito tinha se esvaído, todos os estabelecimentos comerciais que seguiam até o dobrar da curva estavam fechados, as buzinas deixaram de ser audíveis mesmo nas ruas paralelas que as fileiras de casas cobriam e nenhuma alma penada sequer vagava na rua.

Conferi depressa o calendário do meu celular, imaginando se por um acaso eu havia sonhado com a agitação anterior e se, na verdade, eu estava num domingo à tarde. Acabei por me assegurar de que ainda era sexta-feira, 4 de abril de 2014. E o Sol de meio-dia ainda fazia minhas bochechas arderem. 

Quebrando o silêncio mortal da rua, um chiado baixo começou a entrar pelos meus ouvidos. Aumentou gradativamente até que eu percebesse que ele vinha da minha esquerda: do radinho que antes ressoava a narração de uma partida de futebol. O senhor havia o esquecido ali ao embarcar no ônibus.

Fiquei extremamente confusa quanto ao que fazer... Mais confusa do que eu já ficara durante minha vida toda. Não dava para tentar entender o que ocorrera com a rua quando o radinho chiava com tamanha persistência em meus ouvidos, mas também não dava para baixar os olhos para o radinho com a rua me hipnotizando tão firmemente em sua estagnação repentina e inexplicável. 

É difícil dizer por quanto tempo permaneci naquela situação, mas foi o tempo suficiente para que eu chegasse à conclusão que, se eu não fizesse algo, acabaria enlouquecendo.

Meti, então, o dedo indicador no primeiro botão que situei no aparelho irritante. Funcionou! O chiado parou. Mas, em seguida, percebi que parou porque sintonizei a frequência do rádio em outra estação. Não havia música, nem anúncio narrado pelo locutor, nem algum programa idiota sendo transmitido aos ouvintes. Mas havia um ruído familiar... 

Levei o radinho junto ao ouvido, assim como o senhor fizera para ouvir a partida de futebol havia pouco tempo. O que ouvi? Buzinas. Mais buzinas. Sons de Fuscas e BMWs. E até um xingamento que um motorista lançava ao outro quando este o fechara de repente.

Impulsivamente, tornei a olhar para a rua. Ela continuava deserta. O único som provinha do objeto em minhas mãos, e era o mesmo som que eu ouvia antes que o ônibus no qual o senhor entrara sumisse de vista levando embora, também, a minha perspectiva do cotidiano.

Foi então que a voz de um locutor se sobressaiu aos outros sons no alto-falante. Custei a perceber que se tratava de uma história narrada — afinal já fazia décadas que as radionovelas saíram de moda —, mas assim que percebi redobrei minha atenção na voz do narrador. Ele dizia:

Está aflita, a pobre moça. Sente o coração apertado... Os pensamentos confusos... Perde-se na contradição de sua própria existência: se a vida externa é agitada seu espírito dorme, mas se a vida externa se esvai, o espírito desperta agitado. Ela precisa se situar no mundo ao qual pertence. Precisa entender que o que via do cotidiano era a confirmação de que algo sempre acontece. Algo sempre está acontecendo. 

Ela reflete, absorta. E percebe que o que faltava na poesia do lado de fora eram as vozes do lado de dentro. As vozes que dizem a ela que a vida não existe sozinha. A vida não acontece por acaso. Não basta esperar. É preciso agir. É preciso adentrar no que está acontecendo para fazer acontecer.

As palavras que eu acabara de ouvir giravam em minha cabeça. Eram matérias-primas para a chave que revelava todo o mistério que eu vivera até então. Sorri, e soube exatamente o que fazer. 

Levantando do banco do ponto de ônibus, dei uma última olhada para o radinho (que voltara a perder sua sintonia, chiando incomodamente) e joguei-o com toda a força na rua logo à frente. Ele se espatifou em uma porção de molas, pilhas, fios e plástico quebrado. Cada fragmento trazia consigo uma certeza: as vozes interiores haviam sido libertadas, e estavam prontas para surtir efeito junto às vozes do cotidiano. A poesia da minha vida poderia começar a ser escrita, numa relação de mutualismo com a poesia da vida dos outros.

Às vezes acreditamos que os grandes momentos não acontecem conosco pelo simples fato de não nos integrarmos na realidade iminente. Tudo acontece com todos, todos fazem parte de tudo.

Nunca tive certeza sobre os momentos surreais que presenciei, e nunca soube exatamente o que houve depois que quebrei aquele rádio barulhento. Mas sei que, quebrando a barreira da minha própria resistência, eu libertei a inspiração da minha existência em sua plenitude.

Eu me sintonizei.