Ela deve ter algo a lhe contar

É noite. O Vento adentra a janela assoviando baixo, como se segredasse ao único corredor do casebre porque se deu o trabalho de ir até ali. O Velho ouve atrás da porta. Não entende a linguagem dos ares viajantes, mas pressente o motivo da visita: era um aviso. A Morte vinha chegando.

— Pois entre que eu estava lhe esperando — diz o Velho com voz rouca e sem emoção.

Nenhuma resposta. O Vento já havia silenciado.

— Entre, encontre-me, leve-me. Estou dizendo, leve-me. Eu sei que você está aqui — tenta outra vez o Velho no mesmo tom indiferente, e outra vez não recebe o retorno de suas palavras nem algum sinal de que estivesse acompanhado.

Então ri. Uma risada pausada, fria. Uma risada que ecoa pela sala — um cômodo pequeno que é o maior dos três cômodos da casa.

— Como quiser, Madame — provoca ele, agora com um gesto pomposo e certo sarcasmo, e ainda se dirigindo à suposta presença da Morte. — Acho que eu seria capaz de lhe pedir em casamento se hoje eu estivesse certo quanto ao prazer da sua visita. Mas deve ser a décima sétima vez que você vem... e não vem, não é mesmo? Tudo isso é vergonha? Ora, não seja tímida, querida. Mostre-me sua bela face! Sua bela face enrugada, cinzenta e pútrida! Exale o cheiro do tempo, emane sua essência que nada mais é que a mistura de almas roubadas!

Aguarda um movimento, mesmo que quase imperceptível, espera um som abafado qualquer. Em vão. O mesmo silêncio desesperador de sempre. 

Ele pousa um copo com um resto de líquido na mesinha de centro e levanta-se da poltrona esfarrapada. O teto é baixo. Com a mão, o Velho alcança o lampião suspenso por um fio de arame que balançava fantasmagoricamente no ar, para lá e para cá, desde que o Vento viera contar uma mentira. Imobiliza-o, e percebe que sua chama já está fraca. É hora de ir dormir.

Não, não, não! Era hora da Morte vir buscá-lo!

— O azar é seu — diz o Velho, olhando fixamente para o nada. — Eu ia lhe tirar para dançar. Qual foi a última vez, Dona Morte, que lhe tiraram para uns passos de valsa? Era justamente o que eu ia fazer, depois de afastar para o lado esta velha poltrona e ir até o quarto alimentar a vitrola com um pouco de música. Não, a última parte é papo furado. Eu afastaria a poltrona para o lado, sim, mas para que música? Dançaríamos em silêncio, ouvindo os sons da noite. Depois você me levaria para a cama, a sete palmos do chão.

O Velho desvia o olhar do ponto fixo que escolhera para dirigir seus comentários, e torna a se sentar.

— Eu sabia ser romântico, Dona Morte, quando era moço. Mas veja só a ironia: eu nem sou tão velho assim! Foi o peso dos meus erros que me arcou a coluna, foi o medo das manhãs que branqueou o meu cabelo, foi agonia do presente que sensibilizou minha pele. E sob esta pele não há mais esperanças. Só sei esperar por você.

O Velho diz a verdade. Mal tinha cinquenta anos. Foram os desgostos da própria existência, somados às circunstâncias nas quais ele nunca via um lado bom, que o tornaram assim. 

— Nem meus desejos mais estúpidos podem ser realizados. Grande novidade!

Vai deitar. A luz fraca projetada pelo lampião na sala não chega ao seu quarto, e, como ele mora sozinho, no meio do nada, nenhum outro possível inconveniente atrapalha a chegada do seu sono.

Não, o sono não chega. Assim como a Morte não chegou. Mas, naqueles minutos delirantes, onde não se sabe se o que está na cabeça é sonho ou pensamento avulso, ele ouve o Vento adentrar os corredores outra vez. Na sala apaga a luz, no quarto contorna a cama e aproxima-se do Velho. Toca-lhe a pele, num sopro revigorante, e sussurra-lhe no ouvido:

“A Morte manda avisar que não veio buscá-lo hoje porque a entrada estava bloqueada para ela. A Vida, forte e plena, lá de fora a impedia. Se quiser satisfações, vá de encontro com esta segunda senhora. Ela deve ter algo a lhe contar.”