O negociante de pesadelos

Luísa despertou com a campainha soando alto. Contrariada pela brusca interrupção de seu sono, fez certo esforço para abrir os olhos — que involuntariamente tornavam a se fechar a cada tentativa — e conferiu as horas no celular deixado junto ao travesseiro: mal eram seis da manhã... “Que tipo de pessoa faz uma visita a outra às seis da manhã?”, questionou-se. Concluiu que, com certeza, nenhum de seus familiares, amigos e conhecidos faria, e com a conclusão resmungou alguma coisa, virou-se para o outro lado e se empenhou em dormir novamente.

A campainha não voltou a soar e Luísa não voltou a dormir. Estava com uma sensação estranha de que havia mais alguém na casa além dela... Além dela que, já havia dois anos, morava sozinha. Reunindo coragem, tanto para enfrentar o medo que aquela sensação lhe causava quanto para sair debaixo dos cobertores e encarar o friozinho matinal, levantou-se. Calçou as pantufas e foi dar uma andada pela casa, aproveitando para abrir as janelas e aceitar que o dia já havia começado.

Ao abrir as venezianas da sala, entretanto, notou que havia alguém parado junto ao portão. Seria a mesma pessoa que havia tocado a campainha mais cedo? Não, não podia ser... O relógio na parede às suas costas confirmava que já havia se passado quarenta minutos desde o ocorrido. “Que tipo de pessoa insiste em esperar a outra na porta por tanto tempo, mesmo quando toca a campanha e é ignorado?”, pensou. E concluiu: “Ah, claro... O mesmo tipo de pessoa que faz uma visita a outra às seis da manhã.

Escondendo-se atrás da cortina, Luísa observou o visitante com cautela. Era um homem alto, esbelto, um pouco grisalho, que apoiava uma mão na aba da pasta que trazia pendurada ao ombro e, com a outra, brincava distraidamente com uma moeda. Não parecia um religioso querendo empurrá-la para alguma religião... Estava mais para um vendedor.

Como não estava a fim de comprar nada, Luísa foi saindo da sala de fininho. Mas, antes que desse três passos, a campainha soou novamente. “Droga”, pensou, “o homem provavelmente percebeu que tem alguém aqui dentro”. Sem muita opção, foi até à porta. Respirou fundo e a abriu.

— Senhorita Luísa Boaventura? — o homem perguntou.

— É... — confirmou Luísa, um pouco desconfiada — sou eu.

— Meu nome é Edgar Hermeto e eu sou negociante de pesadelos, da agência Pesadelos Meio-Dia.

— Agência Pesadelos... Meio-Dia?

— Sim. Penso que os fundadores, quando batizaram a empresa, acreditaram que “Meia-Noite” soaria comum demais.

— Não, não é isso... Não me importo com o nome da agência de pesadelos. Me importo com que diabos é uma agência de pesadelos.

— Desculpe-me, senhorita, mas você devia saber. Assinou um contrato conosco há 15 anos.

— Oi?

Como um profissional treinado, o homem não se impacientou com a aparente confusão mental de Luísa. Pelo contrário: sorriu-lhe com certo afeto planejado, fez um sinal com o indicador, como quem pede um minuto, e colocou-se a remexer na pasta que carregava à procura de algo.

Passados poucos segundos, apresentou a Luísa um documento. Esta o leu com um olhar cada vez mais arregalado e, chegando ao rodapé do papel, exclamou:

— Você tá de palhaçada comigo, né? Não fui eu quem assinou isso aqui. Eu não escrevo o “s” do meu nome ao contrário.

— Mas escrevia, senhorita, quando tinha seis anos — rebateu o negociante.

— Tá, que seja! Mesmo assim, isso só pode ser uma brincadeira. Eu não me lembro de ter assinado esse papel e... A propósito, que valor tem a assinatura de uma criança?

— As leis que regem seu mundo são diferentes das leis que regem o meu, senhorita.

— O que quer dizer...

— O que quer dizer que, na agência para a qual eu trabalho, sua assinatura foi válida e por enquanto ainda é.

Luísa encarou o homem por um tempo. Edgar sustentou seu olhar, impassível. Puxando o roupão para junto de si ao cruzar os braços, na defensiva, ela questionou:

— Supondo que essa assinatura seja realmente minha, eu pergunto: qual foi o motivo que me levou a assinar esse documento?

— A senhorita não queria mais ter pesadelos. Estava farta deles. Então entrou em contato conosco e aceitou nosso plano de pesadelos zero por quinze anos.

— E qual foi o preço que paguei por esse troço aí que cê tá falando?

— Bem... você concordou em não ter sonhos bons por quinze anos, também.

Fazia algum sentido. Luísa sempre se sentira um pouco frustrada por “não sonhar”, mas, sabendo que todos os seres humanos sonham, acreditava que simplesmente não se lembrava das cenas que habitavam seus pensamentos enquanto dormia. Contudo, se o que aquele homem dizia fosse verdade, ela realmente não sonhara durante a maior parte de sua vida.

Luísa tinha milhares de perguntas para fazer. Mas temia que, mesmo que as fizesse e recebesse respostas diretas do negociante, não se daria por satisfeita. Optou, então, por tentar entender o que Edgar fazia ali, naquele momento:

— O que você quer, afinal?

— Oferecer-lhe a renovação do contrato, claro. Ou apresentar-lhe outros planos de ausência de pesadelos, caso a senhorita se interesse.

— E por que eu iria querer renovar um contrato que assinei quando tinha seis anos?

— Diga-me você. A senhorita parecia muito aflita quando chamou por nós naquela época. Talvez quisesse privar a si mesma de algo com que não pudesse lidar. Um pesadelo específico, quem sabe.

— Não tenho “pesadelos específicos”.

— Claro que não tem. Você não tem pesadelo nenhum. E continuará assim, se optar por renovar o contrato.

Luísa ficou em silêncio, ponderando. Não se lembrava mesmo de ter assinado seu nome em qualquer lugar que não fosse os trabalhinhos de escola ou as paredes do quarto quando tinha seis anos, mas o homem à sua frente não tinha ares de quem estava mentindo. Com isso em mente, puxou pela memória o que poderia tê-la amedrontado tanto em pesadelos. “Quando criança... O que é que eu poderia temer, quando criança? Monstros no armário? O homem do saco?”, ia refletindo. E não pôde conter um riso sarcástico quando disse:

— Nada feito. Seja lá o que me assustou tanto tempo atrás, não tem mais o mesmo efeito sobre mim. Como o senhor pode perceber, sou uma mulher adulta. Adulta e cheia de compromissos, então, se o senhor me der licença, tenho que me arrumar pro trabalho.

— Pense bem, senhorita... Seu contrato vence assim que eu der as costas e sair. E nós, negociantes de pesadelos, somos homens atarefados que percorrem diversos lugares do mundo, sem parar. Se você chamar por nós outra hora, uma hora de urgência, poderá ter que enfrentar uma boa fila de espera até que possamos vir atendê-la novamente.

— Tô certa do que tô dizendo. Passe bem.

Luísa forçou um sorriso educado e fechou a porta. Quando se virou para tomar o corredor da cozinha, entretanto, notou que havia alguém sentado no sofá. Sobressaltou-se, levando a mão ao coração. Observou a figura um tanto quanto informe, e esta, lentamente, ergueu a cabeça para ela. Por trás da máscara de gesso envelhecido, Luísa reconheceu aqueles olhos verdes e fundos. Os olhos que não encarava havia tanto tempo.

Luísa gritou, a plenos pulmões, e com o grito acordou. Estática na cama, coração disparado. Suava frio. Quando recuperou o movimento dos membros do corpo, conferiu as horas no celular deixado junto ao travesseiro.

Sete da manhã.


Publicação original: 06/11/2014 | Reedição: 26/07/2017