A barba do Aderbal

Meu pescoço estava mal apoiado na almofada, minhas costas um tanto quanto tortas e, sobre minhas pernas cruzadas, o caderno em que eu tentava rascunhar um texto que me viera à cabeça. No meio de um escreve e apaga, escreve e apaga infindável, comecei a ouvir um ruído distante... Algo entre um zumbido e um chiado, que me lembrava um som abafado de motor. Mais cedo eu já havia ouvido aquele ruído, e o julgara como pertencente a um avião. Agora, com a audição mais apurada, eu percebia que havia me enganado. Que avião, o quê! Aquele era o som de um aparelho elétrico. Talvez um barbeador. O barbeador elétrico que meu vizinho havia comprado...

Meu vizinho é um cara estranho. Cerca de um e oitenta de altura, olhos meio estalados, cabelo louro e comprido e camiseta do Lynyrd Skynyrd. SEMPRE Lynyrd Skynyrd. Sério, acho que ele deve ter umas vinte camisetas no armário — mas todas do Lynyrd Skynyrd. Ele é relativamente novo no bairro e não é muito de sair de casa. Sem falar que, nas poucas vezes em que o vi na rua, percebi que faz o tipo caladão. O tipo que responde seu cumprimento com um aceno de cabeça quase que imperceptível, sem interromper os passos rápidos.

Não faço a mínima ideia de qual é o nome dele, mas gosto de fingir que é Aderbal. Isso porque ele definitivamente não tem cara de Aderbal, daí que é legal chamá-lo assim. Quando minha amiga veio aqui em casa na semana passada (para devolver meu exemplar do Brás Cubas), quis saber mais sobre ele. Acho que é porque eu comentei com ela que “O Aderbal bem que podia diminuir o volume um pouquinho, porque o gosto musical dele até que é da hora, mas eu tô tentando estudar Física!”. Então lhe contei que Aderbal era um cara que veio de não sei onde e se instalou no bairro não sei por quê, no que ela disse que ele era tipo o amor. Eu fiquei com cara de “Ãh?”, e ela explicou: “O amor, Dora! Que nasce não sei onde, vem não sei como, e dói não sei por quê!”. Quando ela falou isso, fiquei bem vermelha, o que, além de sem sentido, foi totalmente estúpido. Porque agora ela fica me olhando com aquela cara. Aquela cara que os amigos nos fazem quando acham que estamos apaixonados.

Eu não estou apaixonada pelo Aderbal. Já disse: ele é um cara estranho. As laterais do seu rosto vivem cobertas pelo cabelo, e a parte debaixo do nariz é tomada por uma barba que não é nem rala nem cheia, mas que faz com que eu nunca possa ter um bom relance do seu rosto além dos olhos meio estalados (e que têm um tom bonito de verde, por sinal). Daí eu acho que queria ver ele sem barba, para tirar uma boa conclusão quanto à sua aparência. Vê-lo sem barba num dia em que ele estivesse disposto a me dar mais do que um aceno quase que imperceptível de cabeça. Então nós poderíamos conversar. Eu descobriria alguma coisa sobre ele e ele descobriria que Simple Man é uma das minhas canções favoritas.

O ruído do barbeador elétrico parou. Foi só então que saí das minhas divagações e dei por mim que, como sempre, eu estava tentando escrever de madrugada. O Aderbal não estava fazendo a barba e aquele não era o som de um barbeador elétrico.

Tive um pressentimento meio besta e olhei para o lado. Bingo: caminhando pelo meu mural, entre envelopes e recortes de revista, estava um mini besouro verde. Aproximei-me. O bicho até que era bonitinho... Totalmente inofensivo e parecia de plástico.

Ri sozinha. De mim. Não por ter confundido o ruído das asas daquela espécie de besouro primeiro com o motor de um avião e, depois, com um barbeador elétrico; ri porque, com tão pouco, eu havia deixado que meus pensamentos voassem até a casa ao lado.

Cacilds. Vai ver eu estou mesmo apaixonada pelo "Aderbal".