Ela, ele e eu

Eu estava sozinha, sentada junto à mesa do refeitório. Eram sete da manhã e ainda havia poucos alunos na escola, espalhados aqui e ali com seus uniformes azuis e brancos. Borrões azuis e brancos. Borrões azuis e brancos vagando por minha visão periférica, enquanto meus olhos se mantinham fixos na parede adiante e meu pensamento voava longe...

Até que:

― E aê?! Beleza­?

Ele. A voz dele, que estivera ecoando em meus pensamentos.

Ooi! Tudo bem?

Agora era a minha voz, que, num de seus primeiros usos matinais, soara um tanto quanto fina. Na verdade, quase estridente. E melosa. Argh! Era a voz de uma pessoa apaixonada.

Ele jogou a mochila num banco e sentou-se no outro, à minha frente. Cômico: a fonte dos meus devaneios sentada entre mim e o ponto na parede que eu escolhera, anteriormente, para fixar o olhar e devanear em paz.

― O que conta? ­― perguntou.

Perguntou, mas não olhou para mim. Mantinha o olhar preso à tela do smartphone, por onde ficava escorregando o polegar, provavelmente conferindo as atualizações da galera numa rede social qualquer. E uma parte do meu cérebro gritava: “Olha pra mim! Olha pra mim! Olha pra miiiiim!”, enquanto a outra agradecia o fato de ele estar distraído o suficiente para não perceber a forma meio doentia com que eu admirava seus traços.

Enfim, respondi:

― Nada. E você?

Ele não prestou atenção na minha reposta. Nem na minha pergunta. Deixei para lá... Deixei que ficássemos naquele constrangimento por uns cinco minutos. Um constrangimento unilateral, admito, afinal, enquanto eu me remexia incomodada no banco, e mexia na franja, e fingia prestar atenção ao movimento dos borrões azuis e brancos, e procurava por um assunto legal para conversar com o cidadão diante de mim, o cidadão diante de mim simplesmente continuava com a atenção fixa no smartphone. Eu basicamente estava segurando vela ali, só que para um ser humano e um aparelho celular.

Então ela chegou. Ela, beldade de seios grandes e cabelo preto longo e brilhante alisado na progressiva; ela que, se quisesse fazer para ele uma resenha detalhada do último programa do Sílvio Santos, conseguiria prender sua atenção.

Ela chegou, passou o braço ao redor do pescoço dele, estalou-lhe um beijo molhado na bochecha e exclamou um “Oiêêêêêêê!” que saiu dez vezes mais fino, estridente e meloso que o meu. Ele ― claro ― largou o celular na hora e abriu um sorriso que... caramba! Que sorriso...! E, depois que lhe lançou aquele sorriso, lançou-me um “A gente se vê” indiferente, colocou uma das alças da mochila em um dos ombros e saiu andando com a criatura ainda agarrada em seu pescoço, como se ela fosse uma segunda mochila sustentada ali.

Naquele momento, vendo-os se afastarem, eu não sabia qual dos dois eu odiava mais. 

Putos.

Então veio a parte mais hilária. Eu pisquei e me deparei, novamente, com a parede. Fato número 1: a cena anterior não havia acontecido; fato número 2: eu tinha tão pouca esperança em relação a ele que até meus devaneios que o envolviam eram pessimistas.

E eu meio que continuava odiando-os. "Ele e ela". Simplesmente porque eram "ele e ela", não "ele e eu".