Até se perder em pensamentos

Prosseguimos caminhando, mochila nas costas, cara de quem acabou de assistir a seis aulas sem intervalo (apesar de que havíamos assistido a apenas cinco, com a pausa habitual entre as três primeiras e as duas últimas). Vez ou outra Ícaro chutava alguma pedrinha que se desprendeu do asfalto: atitude de quem está absorto em pensamentos e quer dar o que fazer aos membros do corpo — no caso, além de caminhar. Eu o observava pelo canto do olho com um sorriso de canto de boca. Sempre o achei meio cômico... Não que ele fosse um piadista nato ou um cara com sacadas irônicas que divertiam, na verdade longe disso: Ícaro era um garoto sério. Um garoto sério que gostava de pessoas sérias, e só me aturava porque entendia que precisava de algum amigo na vida.

— Certo, Ícaro, agora já deu. Você já articulou argumentos suficientes pra me contra-atacar. Vamos, desembucha.

Ele olhou para mim, mas como meus olhos tinham expectativas demais e minha expressão geral, um ar desafiador, achou melhor abaixar o rosto para o visor do celular e fingir que conferia suas mensagens, enquanto respondia:

— É só que... Marília, você é uma menina inteligente e o George... caramba! O George...

— O George...?

Ele ficou mudo, ainda mexendo no celular (provavelmente, apenas bloqueando-o e desbloqueando-o).

― Larga isso ― pedi. 

Com um suspiro cansado ele guardou, vagarosamente, o aparelho no bolso lateral da mochila. Lançou o olhar para a frente para não ter que me encarar outra vez, e prosseguiu:

― O George não quer nada com a vida.

― Como assim?

― Ah, Marília, cê sabe... Ele só fica pra baixo e pra cima naquele carro velho que conseguiu com o pai... Vai pra a escola só pra marcar presença, não tem emprego fixo, não quer saber de faculdade. Ele pensa que os bicos que faz aqui e ali como ajudante de pedreiro vão sustentar ele pro resto da vida.

― Talvez sustentem.

Ícaro não pôde resistir e tornou a olhar para mim, as sobrancelhas arqueadas numa expressão de incredulidade. Expliquei-me:

― Ele tá bem agora, não tá? Pode continuar bem. É o jeito como ele leva a vida.

― Tô ligado. O jeito “Foda-se o amanhã”.

― Exato. O jeito “Aproveite cada segundo do agora porque o amanhã não existe”. Qual é, cara: nem todas as pessoas querem prestar vestibular pra passar na melhor universidade do país e, depois, estudar, estudar, estudar e sair da universidade empregado num emprego que dê muito dinheiro. Há quem não dê a mínima pra tudo isso.

― É claro que eu sei disso. O mundo tá cheio de gente babaca.

― Não fala assim...

― Mas é. Não sei você, mas eu acho babaca ter oportunidade pra construir um futuro e jogar isso fora por pura vadiagem.

― Então é isso? Você acha que o George não é bom pra mim porque ele não tá preocupado em “construir um futuro”?

― Precisa de mais? 

― O George e eu estamos ficando. Não estamos planejando casar e ter sete filhos.

― Você gosta dele?

― Você ouviu o que eu disse? Nós só estamos ficando. A gente só tá sendo adolescente, fazendo coisas que adolescentes fazem. Sem necessidade de motivos, sem necessidade de justificativas. Cê precisa de um pouco disso, sabe? Quer dizer, você precisa parar de se preocupar tanto. Você está, aliás, se preocupando com uma coisa que nem te diz respeito.

Ignorando minha cortada, Ícaro perguntou outra vez:

― Você gosta dele?

Pensei um pouco. Pensei em dizer que sim, só para ver sua reação... Pensei em dizer que não para fazê-lo se sentir melhor com fosse lá o que estivesse o incomodando. Achei melhor, por fim, responder-lhe com outra pergunta:

― Você gosta de mim?

Ele ficou vermelho, bem vermelho, mas não respondeu nada. Não a princípio. Percebendo que fugir da minha pergunta seria uma atitude suspeita, disse:

― Não. Claro que não. Você é minha amiga.

― Sim, sou sim. A única. ― dei um passo à frente e virei-me de todo para ele ― A que está diante de você nesse exato momento.

Ele ficou quieto, com uns poucos resquícios da vermelhidão que tomara seu rosto havia pouco.

― Tem algo pra me dizer? ― tentei outra vez.

― Não. Já disse tudo. Olha, faça o que quiser com a sua vida, tá bom?

― Claro. Tô fazendo.

― Ótimo. E eu tô indo. 

― Ué, não vai continuar me acompanhando? Não vai pra sua casa? Moramos no mesmo bairro, lembra?

― Não... Hoje não vou pra casa. Até mais.

Ele deu as costas e virou pela primeira esquina que encontrou. Andaria a esmo, com certeza. Andaria a esmo por muito tempo, pensando sobre o que acabáramos de conversar. Andaria a esmo até se perder em pensamentos, até perder a si próprio... 

Perdeu-se. Desapareceu. Depois que deu as costas para mim, não o vi nunca mais.

Eu, a família de Ícaro, o pessoal do bairro, da cidade... Ninguém nunca soube o que aconteceu. Passaram-se anos... Dez, para ser exata. Ainda me dói. A incerteza me desespera. Mas, apesar das lágrimas, da saudade, apesar das mil teorias que já criei para entender o que pode ter havido e das esperanças que eu frustro cada vez que mais um dia vai embora e ele não volta, o que mais me aflige é a ironia de um detalhe: para mim, Ícaro se eternizou no presente daquele dia; o presente que eu tanto valorizava e que agora é um passado obscuro. E eu, por minha vez, estou vivendo o futuro que ele tanto arquitetou para si.

Há outras ironias, sobre as quais me pego frequentemente pensando... Por exemplo: era ele quem planejava, quem se preocupava... Ele, que sempre queria uma explicação para tudo, me deixou sem nenhuma. Deixou-me preocupada. Eu ainda me preocupo...

E não me esqueço. Não me esqueço dele. Não me esqueço da nossa última conversa. 

Onde você está, Ícaro?

Ícaro... você ainda gosta de mim?


Publicação original: 22/02/2015 | Reedição: 23/07/2017