O olhar que nunca encontrava o meu

Eu já vinha observando-o havia algum tempo... Moço esguio, pele negra, ar muito sério. Sempre nos cantos mais afastados do colégio, parecia não fazer questão de companhia. Apenas olhava o redor com indiferença, quase desdém. Seu olhar nunca encontrava o meu.

Eu não sabia qual era o nome dele, mas é conveniente que aqui eu diga o meu: Maria Fabiana (Matias Furtado, se o sobrenome for necessário). Hoje tenho 47 anos, mas, naquela época, contava com 21. Eu frequentava o Colégio Aparecido Barbosa de Sá e Filho, que oferecia cursos profissionalizantes noturnos, a fim de conseguir um diploma em enfermagem. Confesso, entretanto, que o que mais me animava a sair de casa às seis e meia da noite, depois de um dia exaustivo de trabalho numa loja de calçados, e pegar um ônibus lotado rumo ao Santa Misericórdia (bairro onde ficava o colégio) era a esperança de vislumbrá-lo nos intervalos; ele, o moço misterioso.

Sem coragem o suficiente para ir conversar com ele ― sobre o que conversaríamos? ―, tudo o que fiz, numa quarta-feira abafada, foi perguntar a uma de minhas amigas se ela o conhecia. 

― De quem você tá falando? ― ela questionou. 

Apontei a árvore sob a qual ele se encontrava poucos segundos antes, mas não havia mais ninguém ali. Refiz a pergunta outro dia, apontando com um movimento de cabeça o espaço diante do portão dos fundos e sussurrando euforicamente:

― Aquele lá! Aquele lá! Tá vendo?

Mas minha amiga, novamente, parecia incapaz de visualizar quem eu gostaria que ela visualizasse.

― Você tá dizendo... Tá se referindo ao zelador? ― questionou, confusa.

― Não, claro que não! ― meu sussurro ainda mais eufórico quando eu tirara os olhos do moço e me virara para encará-la ― Eu tô te mostrando o...

Quando tornei a olhar rumo ao portão, percebi que, realmente, apenas o zelador se encontrava ali.

Os meses seguintes transcorreram incomodamente para mim... A cada dia eu ficava mais obcecada por aquele rapaz. Não tornei a apontá-lo para minhas amigas porque não queria que desconfiassem dos meus sentimentos: de alguma forma, achava que devia mantê-los seguros. O fato de que apenas eu parecia reparar naquela pessoa ressaltava a sensação de que eu devia, dali em diante, manter segredo sobre tudo que a envolvia.

O final do semestre trouxe consigo o final do curso, e este, por sua vez, melancolia. Eu não retornaria ao colégio, o que queria dizer que não mais varreria o pátio com os olhos à procura daquele que tanto me intrigava na esperança de colher uma nova impressão para os meus sonhos. Àquela altura, dada a aura de obscuridade que envolvia o rapaz, eu já considerava a hipótese de que ele fosse um fantasma. De que ele fosse uma miragem. De que ele fosse mero fruto da minha imaginação. O pior: eu considerava essas hipóteses e elas não me afetavam. Meu amor seria platônico de qualquer forma, tivesse seu alvo carne e osso ou não. Eu poderia, sim, ter enfrentado todos os meus receios para ao menos tentar falar com ele, mas queria que, antes que isso acontecesse, trocássemos olhares apenas uma vez. Eu precisava que ele notasse minha existência; já disse que pouco me importava se ele fosse real ou não, mas desejava, com todas as minhas forças, que ele me desse uma prova de que havia me percebido.

Não tive essa prova. Não naquela época. O curso acabou, passei a trabalhar num hospital, depois em outro... Casei-me. Sim, casei-me! Não por amor, nem por dinheiro: foi por conveniência. Era um homem bem-apessoado e de cabelo grisalho o que pedira minha mão, e eu, não sem refletir bastante antes, aceitei. Eu tinha esperança de que, “acomodando-me na vida” ― como dizia minha avó ―, esquecesse da imagem do moço esguio, de pele negra e ar muito sério pelo qual eu ainda alimentava um certo amor.

Passaram-se vinte e seis anos. Tenho hoje duas filhas, Roseane e Patrícia, além do meu casamento estável. Isto aqui poderia ser apenas mais um relato banal, uma dessas histórias saudosistas e de qualidade questionável que muitas vezes se encontram ao final de revistas, mas a complexidade do meu caso vai um pouco além... A verdade é que estou escrevendo um desabafo. Eu estou desesperada! No meu tempo de juventude eu desejei tanto, tanto que aquele moço misterioso olhasse para mim...!

Agora ele olha.

Eu tenho deparado com seu olhar em todos os lugares. Não que eu continue procurando-o; juro até que o passar dos anos tinha feito com que eu o esquecesse. Mas agora eu posso estar atravessando a rua, na fila do supermercado, lavando a louça, saindo do trabalho... não importa o lugar, sempre posso ser surpreendida com sua visão. Já cheguei mesmo a me deparar com ele no sofá de casa! É algo que dura uma fração de segundo no relógio e, em meu cérebro, tempo o bastante para que eu perceba dois detalhes: o primeiro é que ele demonstra não ter envelhecido nada, estando ainda com uma aparência de vinte e poucos anos; o segundo é que seu olhar fixo em mim sempre parece me cobrar algo...

Talvez ele queira minha sanidade... O que resta dela. Até agora tenho conseguido fingir para minha família que está tudo bem, mas não sei até quando vou aguentar. Eu vivo tensa, esperando pelo susto, com medo da presença que um dia fora para mim o tema dos meus melhores pensamentos. Eu me amaldiçoo por um dia ter desejado que ele olhasse para mim, porque, até quando não o vejo, sinto que ele está me observando.

Sinto que estou sendo observada neste exato momento.