Chapéu de palha (Fazenda Geada Branda, abril de 1949)

Veio de supetão. Abriu a porta com um baque, tropeçou no tapete da entrada ― sem se deixar abalar ―, subiu a escada correndo e chegou à entrada do quarto; a porta deste estava aberta e ali dentro via-se uma mulher arrumando as camas. Ao mesmo tempo em que recuperava o fôlego sofregamente, a recém-chegada foi falando: 

― Eu... vi... de novo... eu vi... eu... vi... o E.T.!

A mãe não tomou susto. Passou calmamente os dedos sobre uma dobra da colcha, desfazendo-a, antes de olhar para a menina. (A pobrezinha suava.)

― Anabela, querida, já tomou seu café da manhã?

― Você... você não está entendendo, mamãe! ― tentou Anabela outra vez, arregalando os olhos como que para confirmar o que dizia ― Eu vi de novo! Eu vi o E.T.!

Sorrindo, a mãe se aproximou. Levou carinhosamente a mão ao cabelo louro e desgrenhado da garotinha, acariciando-o, e falou de modo tão suave quanto seus gestos:

― Já conversamos sobre isso, Anabela. Eu já lhe disse que não existe E.T. nenhum! O que quer que você tenha visto, ou que pensa que tenha visto, não passa de uma peça que essa sua imaginação fértil está pregando em você.

As lágrimas começavam a escorrer e a voz da menina tremia:

― Eu estou dizendo a verdade, mamãe! Juro! Não foi minha imaginação... Eu vi, vi sim! Eu estava lá embaixo brincando com a Dolinha, daí ela começou a latir, eu olhei para o lado e ele estava lá, perto da porteira! Ele ficou olhando para mim, aí eu fiquei com muito, muito medo e saí correndo!

― Hmmm, entendi... ― disse a mãe, fingindo acreditar no que viram os olhos da criança ― Escute, Anabela, como era esse E.T. que você viu, heim?

― Eu não vi direito, mas ele era alto assim ― ela ergueu a mão o mais alto que podia, dando uma ideia da altura da criatura ―, um pouquinho só maior do que você, tinha uma pele que lembrava azeitona (meio molhada, meio verde) e... e... e usava chapéu de palha!

Nessa parte a mãe não pôde conter o riso. Não pôde mesmo.

― Ah... Então temos um alienígena caipirão andando pelas redondezas?

― Não tem graça, mamãe! Não ria! ― a voz melosa e o beicinho denunciando nova rodada de lágrimas.

― Talvez ele não seja um caipira... Talvez ele só tenha pensado que usar um chapéu de palha o deixaria mais bonitão para as roceiras daqui. É, vai ver foi só isso! Vai ver ele só queria fazer amizade com você, mas você se assustou e saiu correndo sem nem dar chance para o coitado se aproximar...

O beicinho que a menina fazia deu lugar a um franzir de lábios irritado, e no mesmo instante em que ela cruzava os braços para reforçar a noção do quanto se ofendera com as brincadeiras da mãe, a campainha tocou.

― Vá ler um pouco para se distrair, querida.

A mãe passou a mão pelo cabelo da menina uma última vez antes de descer a escada e atender à porta.

Anabela, devagarinho, seguiu-a. Desceu cinco degraus sem deixar-se ser vista e dali, da escada, observou o visitante que a porta acabara de revelar: um senhor esbelto e vigoroso de meia-idade. Olhar caloroso, sorriso agradável... Cabelo castanho-acinzentado. Chapéu de palha.

Ela correu a tapar a boca para conter o grito de surpresa, e esforçou-se para manter-se no lugar e ouvir o que o visitante tencionava.

― Dona Alma, como vai? Bem, eu espero...

― Muito bem, Seu Hermínio. E o senhor?

― Ótimo, graças a Deus. Eu trouxe leite para a senhora e para a menina. Acabei de tirar ― ele dizia numa espécie de orgulho enquanto erguia um latãozinho cor de bronze.

― Quanto gentileza! Anabela vai amar... Desconfio que ela ainda não tomou café da manhã, e ela adora leite com bolacha. Escute, Seu Hermínio: ― disse a mulher enquanto tomava para si o latão de leite ― por que não entra um pouco e toma café conosco?

― Outra hora, Dona Alma. A menina se assustou comigo agora há pouco, por isso tenho a sensação de que ela não iria gostar nada de me ver junto à mesa... E ela tem razão: um velho assim como eu...! ― lamentou-se, de brincadeira.

― São bobagens de criança. Ademais... que velho o quê! O senhor está é moço ainda!

― São 58 anos...

― Parecem 30!

― Gentilezas de sua parte... A senhora, de tão bons modos... e tão bonita! Seu marido era um homem de sorte.

― Ele foi um homem bom.

― Que mal lhe pergunte, Dona Alma: faz quanto tempo?

― 6 anos. Anabela era um bebezinho. Foi... foi uma morte misteriosa. Foi assim que nos mudamos para cá.

― O que não falta neste mundo são mistérios, tragédias e tristezas. Creio já ter disto isso na época, mas é sempre bom reafirmar nossos sentimentos: eu sinto muito, muitíssimo ― segurando na mão da mulher: ― Você e sua filha são boas pessoas, vizinhas estimadas. Qualquer coisa de que precisarem, podem contar comigo.

Últimos agradecimentos, despedidas, o homem se virou para ir embora, a mãe disse algo mais e fechou a porta. Anabela, então, voltou correndo para o quarto e dirigiu-se para a janela; dali observou o homem que se retirava. Ele, por sua vez, como que pressentindo a presença da menina, virou-se rapidamente para trás, ergueu a cabeça rumo à janela, lançou-lhe um olhar quase de cumplicidade e um sorriso enigmático; ergueu o chapéu, tornou a colocá-lo na cabeça, tornou a seguir seu caminho.

Lá adiante, perto da porteira, foi coçando os braços, arrancando a camisa, arrancando os sapatos e até as calças. O pudor da menina mandava-lhe parar de olhar a cena imprópria, mas ela não podia deixar de notar: aquele corpo, alongado, disforme, de um tom e textura estranhos não era humano.

A criatura enfim depositou o chapéu de palha sobre um dos mourões da cerca e continuou seu caminho, até sumir de vista.