Eterna eternidade eterna

(Amavam-se já fazia muito tempo... Uma eternidade!) 

A noção das horas se perdera. Já haviam almoçado? Ah, de que importava? Não tinham fome. 

Deviam ser duas e pouco. Mas já não eram duas e pouco quando começaram a se namorar com os olhos e, por meio da ponte que era o olhar recíproco, adentraram o universo alternativo ­­­dos apaixonados? Sabe-se lá. Importava? O que é que importava?

A realidade, tão surreal... Onde é que estavam? Onde é que estavam meio segundo antes e onde estavam agora, meio segundo depois? Caminhavam, sorriam, olhavam-se, sorriam, caminhavam. Aqueles atos marcavam o ritmo que, por algum motivo, deviam seguir. Mas qual seria mesmo o motivo? Importava? Não importava; amavam-se. Sob seus pés, deviam ser paralelepípedos, e talvez ao redor houvessem muitas casinhas juntas, quase amontoadas, coloridas... Talvez, naquele silêncio mórbido, o que soara alto fosse uma chave girando na fechadura...

Uma porta se abriu, revelando uma velha conhecida. Conhecida? Como a conheceram? Importava? A senhora, baixa, magra e austera, fez o nome do pai. Benzeu-se enquanto os encarava, mas os encarava com uma calma que beirava a pena, como se os benzesse também. E disse:

— Passam anos, passam décadas, e vocês continuam insistindo em passar por aqui, sempre no mesmo horário, toda santa terça-feira. Recordação eterna... Pobres coitados... Maldita sina!

Eles não entenderam. Entreolharam-se, construindo mútua e simultaneamente o olhar-ponte que não só os refugiava, como também vasculhava a mente de um e de outro procurando por respostas. Queriam compreender... Queriam muito compreender; mas importava?

Importava: estavam mortos. Estavam mortos já fazia muito tempo... Uma eternidade!

Morreram outra vez quando, naquele instante, três tiros soaram de algum lugar no fim da rua... Três tiros que os acertaram pela milionésima vez.

Dois furos no peito dele e um no coração dela. Importava: estavam mortos.

Não importava: amavam-se.