Viagem noturna

Duas, três pancadas vindas do porta-malas. Tentando ignorá-las, ele continuou dirigindo. Adoraria chegar a Teixeira Prado, ao norte do estado, antes que amanhecesse. Olhou o visor do celular jogado no banco do passageiro: três e meia da madrugada. Pensou em Noêmi, no sorriso de Noêmi. “Noêmi, Noêmi... Por que tem que ser assim?

A noite não tinha estrelas e a rodovia estava vazia; muito raramente passava uma carreta ou outra, os faróis fortes retirando-o de seus devaneios. Ligou o rádio, sintonizando-o em uma estação que tocava alguns clássicos dos anos 80 e 90. No momento era Bon Jovi — “Romântico... Romântico demais.” Desligou e pensou em Noêmi, no sorriso de Noêmi, no olhar ao mesmo tempo doce e ardente de Noêmi...

Nova pancada veio do porta-malas. “É só algum objeto solto lá atrás”, ele tentava enganar a si mesmo. Porém havia um choro, um choro muito baixo, que o deixava profundamente perturbado. Um misto de medo, e raiva, e nervosismo, e outra coisa que não sabia definir. Seria... culpa? Mas por que deveria se sentir culpado?

Mais uma pancada. As mãos afrouxaram no volante e o velocímetro, de 120Km/h, foi caindo para 110, 100... 80, 70... Não. Não iria ceder outra vez. Não iria parar. Tinha que chegar a Teixeira Prado antes que amanhecesse. Tornou a acelerar, beirou os 160km/h. “Droga!” Ele não podia correr assim, aquelas carretas surgiam do nada com seus grandes e ameaçadores olhos iluminados. Por que arriscaria sua vida?

Mas o que tinha a perder?

200km/h. Corria, fugia do seu passado, do futuro incerto, das hesitações. Não podia parar...

De dentro do porta-malas, uma, duas, três, quatro, cinco, seis pancadas. Sete. Oito. Estavam ficando frequentes... Nove. Estavam deixando-o louco! Dez, onze, doze. Treze... Foi tirando o pé do acelerador... Quatorze, quinze. Guiou o carro para o acostamento... Dezesseis, dezessete, dezoito... Freou.

Dezenove, vinte, vinte e um...

As pancadas eram constantes e infernais. Pegando a pistola debaixo do banco, abriu a porta e contornou o carro até a parte traseira. Ali passou os dedos devagar, quase carinhosamente, sobre a pintura azul-marinho do porta-malas. Apontando, então, a pistola na direção dele, abriu-o de uma só vez.

Certificou-se do mesmo que já se certificara outras vezes naquela mesma noite: o porta-malas estava vazio.

— Mas que merda! — gritou enquanto o fechava com força.

Ficou um tempo olhando o céu sem estrelas, tentando esvaziar seus pensamentos também. Não dava... Por mais que tentasse, não dava. Voltou para dentro do carro e fechou a porta, agradecido porque pelo menos as pancadas pararam. Apoiando a cabeça nas costas das mãos, que por sua vez estavam agarradas ao volante, chorou. Chorou por uns dez minutos talvez, até se lembrar de que tinha um compromisso e não podia perder tempo. Ao erguer a cabeça outra vez, percebeu uma claridade que vinha da direita. Olhou para o lado: sobre o banco do passageiro seu celular piscava, anunciando uma nova mensagem. Era de Noêmi, e dizia: “Esquece o que aconteceu. Eu te desculpo. Você me desculpa? Sinto sua falta.

Deu um sorriso débil. Aquilo deveria consolá-lo?