Um tal de Jânio Não Sei das Quantas

É costume, em algumas cidadezinhas antigas de Minas Gerais, que as mortes sejam anunciadas na torre da igreja matriz. Assim ocorre em Nevoeiro da Serra.

Naquele dia fui despertada com o anúncio de que um tal de Jânio Não Sei das Quantas tinha batido as botas. Não me soando o nome familiar, não me atingindo a dor da perda nem o susto da notícia, voltei a pegar no sono.

Ali pela hora do almoço, entretanto, ouvi meu pai comentar com minha mãe que compareceria a um velório às duas da tarde. Ligando os fatos, perguntei:

— Pai, o senhor conhecia esse Jânio aí que morreu?

— Lógico que conhecia! — ele respondeu, com certa perplexidade na voz — E você também! Era nosso vizinho da frente!

O susto, que não viera antes, veio naquele momento. Intensamente. Em toda a minha curta vida eu jamais teria imaginado que o velhinho silencioso que morava na casa diante da nossa se chamasse Jânio. Na verdade eu jamais teria imaginado que ele pudesse ter qualquer outro nome: para mim, ele era apenas uma entidade misteriosa, tão antiga quanto os paralelepípedos da rua, tão estática quanto as árvores do bairro, tão respeitável quanto os heróis representados em estátuas na pequena Praça do Guizo. Tão respeitável, aliás, que era impossível passar diante dele sem reverenciá-lo — mesmo que ele respondesse a reverência/cumprimento com um aceno de cabeça discreto que beirava o desdém.

Depois do choque inicial, fiquei abalada. Arranjei uma desculpa qualquer para não ir ao trabalho e passei o resto da tarde recolhida em meu quarto, questionando a mim mesma porque estava agindo daquela forma. Eu não tinha nenhum laço de amizade ou carinho especial por aquele senhor. Nós nunca sequer trocáramos alguma palavra, além dos cumprimentos por educação. Exceto... Exceto por uma vez, havia muito tempo, quando eu ainda era uma criança... Uma vez, quando eu estava fechando o portão do nosso quintal, e ele me chamou da sua janela. Eu obedecera, não sem algum receio. Ao atravessar a rua e me aproximar dele, mantendo entre nós uma distância segura — mesmo sabendo que ele provavelmente não iria pular do parapeito e me decapitar com um machadinho, ou coisa assim —, ele me perguntou:

— A senhorita gostaria de ter acesso a um segredo? Gostaria de saber o que é preciso fazer para se viver 250 anos?

Lembro-me de ter ficado completamente confusa. Eu pensava: “Sim, sou uma criança, mas já tenho 10 anos. Quem esse velho acha que é para troçar com a minha cara, como se eu tivesse 5?” Dando minha confusão mental lugar a um orgulho ferido, saí dali bastante emburrada, sem dizer nada.

Poucas horas depois eu já tinha me arrependido de minha atitude: tivesse aquele homem brincado comigo ou não, eu havia sido muito grossa. Quis pedir desculpas, mas não tinha coragem para tal. Quis deixar passar, mas se passara uma semana e eu ainda pensava sobre aquilo — ironicamente não com o ceticismo inicial, mas com uma crescente e incômoda sensação de que o velho podia, afinal, ter feito a pergunta a sério.

Sei que parece estranha a confissão de que eu, “que já tinha 10 anos”, estivesse começando a crer que alguém pudesse viver 250. De qualquer modo, eu não era a única: coincidentemente ou não, naquela época começaram a chegar até mim alguns boatos sobre meu vizinho que diziam, justamente, que ele já era bicentenário. Quando perguntei para minha mãe se diziam a verdade, ela riu e respondeu: “Conversa de gente antiga e supersticiosa que a população insiste em levar adiante nas Quaresmas. No ano passado saíram com uma de que o professor de Geografia do colégio municipal era um lobisomem, e no ano anterior ouvi falar sobre um bebê que nasceu com um chifre pontudo no meio da testa, herdado do pai que era nada mais e nada menos que o... — observando minha expressão de medo, mudou o que ia dizer: — que um unicórnio.

Ainda que minha mãe fosse para mim a desmistificadora suprema de qualquer coisa que pudesse me tirar o sono, depois de crescida continuei a me recordar dos boatos e da tarde em que o alvo deles me prometeu a revelação de um segredo.

Talvez fosse por isso que a morte de Jânio me incomodasse tanto: eu sentia que tinha deixado algo fabuloso passar. Sentia que tinha perdido uma bela oportunidade de conversar com aquele homem que, sabendo viver 250 anos ou não, provavelmente sabia o suficiente da vida para me contar boas histórias.

Pouco tempo depois de sua morte, a boataria de que ele vivera muitos anos além do natural voltou com força. Uma mulher que se declarara parente distante (e, ao mesmo tempo, parente viva mais próxima) do falecido veio revistar a casa na companhia de um homem da lei mais outro homem respeitado da região. Disseram as más línguas — e também as boas, pois verdade é que todos ficaram muitíssimos interessados no caso — que essas pessoas encontraram lá dentro muitos documentos pessoais de Jânio que datavam de meados do século XVIII, além de cartas e relíquias igualmente antigas.

Quem esteve na casa não desmentiu nem confirmou a história, pelo que eu soube: quando não mudavam de assunto, contavam versões diferentes das que por acaso já tivessem contado antes. Isso lhes tirava a credibilidade.

Eu acreditava. Acreditava que de fato foram encontrados documentos muito antigos a respeito de Jânio, e que eram autênticos. Acreditava que Jânio era um velho ainda mais velho do que aparentava ser — afinal, ninguém se lembrava de tê-lo visto com cabelos que não estivessem brancos e com uma pele que não fosse frágil e enrugada. 

Minha crença não pôde ser confirmada. A casa foi fechada outra vez e assim permaneceu até que, misteriosa ou criminosamente, numa noite de março, pegasse fogo. Tudo o que ali estava — e nada foi retirado, sabe-se lá por quê — foi destruído.

O mais estranho para mim foi que, numa cidade pequena, supersticiosa, onde um acontecimento assim ficaria por meses na boca do povo, o evento passou praticamente batido. Vieram os bombeiros, foram-se os bombeiros. Ninguém quis comentar nada.