Filhas-lembrança


Suas lembranças eram filhas. Seguiam-na pela rua, choramingando e puxando-lhe a saia. "Não nos esqueça! Não nos deixe!". Ela, desnaturada que era, fazia que não via, ouvia ou sentia. As filhas-lembrança conheciam o caminho por onde vieram; que, sozinhas, voltassem para a casa e trancassem a porta. Trancassem bem a porta. Jogassem a chave fora. Sabia que era um egoísmo e uma covardia, porque as pequeninas a esperariam ansiosas pelo resto de suas existências — e ela não pretendia voltar. O Tempo que desse um jeito. O Passado que tomasse conta das suas crias.

Continuou andando e pensando. As filhas-lembrança, atrás.

8 comentários:

  1. Novamente BRAVO! Concordo completamente com a mensagem que quis passar, acredito que existem lembranças que para sempre estarão conosco, mesmo que não as queiramos.

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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  2. Sou apaixonada pelos seus textos e fiquei apaixonada por esse! Quero que minhas filhas-lembrança nunca partam. Arrasou (como sempre)! <3
    http://viagem-a-terra-do-nunca.blogspot.com/

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  3. Anônimo24/11/15

    Tu me deixa melancólico quando impacta meus sentidos, tu me dividi entre olhos e voz. Não sei se vejo ou se leio, me sinto no meio e só.

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  4. Nem sempre comento, mas estou sempre a ler seus textos e os amo. Concordo demais com o que foi escrito, existem lembranças que não nos deixam e àquelas que mais parecem calos. Gostei demais do texto!

    isxbelly.blogspot.com

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  5. Às vezes o passado é como algemas nos tornozelos.
    GK

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  6. interessantíssimo o modo como você descreveu de como as lembranças nos atormentam
    muito bom
    bju

    http://karinapinheiro.com.br/palavras-do-brasil-ii-historias-que-queremos-contar/

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  7. Excelentes metáforas, Lari. Como comentaram certa vez aqui, seus textos têm personalidade e o esmero com que escreve me remete ao cuidado de uma mãe com suas filhas-palavras.

    Beijos

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  8. Muito boa a relação que você fez. As vezes nos perdemos nas memórias e/ou somos assombradas por elas, as filhas-lembranças.

    Beeijo
    Resenhando Sonhos

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