Temperos e tempos


Na primeira prateleira, os temperos; na segunda, os tempos. Foi pegar umas pitadas de minuto e o pote que o continha caiu, espalhando dezenas de segundos pelo chão. Quis juntá-los, mas, na sequência, caíram os potes de hora, de dia, de mês. Deu um grito. Como aquilo fora acontecer, logo com ela que era tão cuidadosa? Ajoelhou-se, tentando agarrar todo aquele tempo com as mãos enquanto o via, aflita, escorrer entre seus dedos. Continuou tentando e tentando e tentando e o relógio na parede, que observava a cena, achava graça e sorria com prazer.

Depois de anos sem nenhum resultado satisfatório, desistiu. O tempo estava perdido. Nada podia ser feito quanto a isso. Levantou-se, limpou o suor do rosto, alisou a saia amarrotada. Notou que suas mãos estavam enrugadas. Suspirou. Suspirou de novo. Virou-se para trás. Na prateleira dos tempos, praticamente vazia, restava um único pote: "Vida".

Agarrou-o. Mirou-no relógio (que ainda sorria) e o jogou.

Os cacos voaram por todos os lados.