Amplidão


Fui tomada por uma convicção. 

Subi, subi rumo ao mais alto mirante da minha razão, determinada a, lá de cima, vislumbrar minha essência. Eu desejava entender a forma como meu passado me moldava... Enxergar meus caminhos como num mapa: ver onde é que os retos se entortavam e os tortos se endireitavam, ver como os estreitos se desembocavam nos de espaço amplo e como estes, de repente, se subdividiam em duas ou três outras passagens. Observar o fluxo dos rios salgados por lágrimas vãs, as árvores frutíferas dos meus esforços, as montanhas de momentos bons que recebi e fui guardando com carinho. Estudar-me com afinco, entender-me por completo; só assim eu nunca mais erraria em relação a mim mesma. 

Esqueci-me, contudo, de que a amplidão do ser não se esquadrinha racionalmente, de modo que, uma vez no mais alto mirante da minha razão, só vi névoa, névoa e névoa...

No desespero, atirei-me no abismo que não via. Enquanto eu ia caindo, a névoa ia sumindo.