Sobressalto


O velho sentimento fora dado como morto às 13:45h, numa fria e nublada quarta-feira. Ela não chorou sua ida; na verdade, deu-se por aliviada. Não mais depositaria nele esperanças inúteis, nem perderia tempo com quaisquer devaneios bobos e sonhadores que o envolvessem. Passaria a enxergar a si, apenas a si, unicamente a si. Sorriu com as possibilidades que a oportunidade lhe descortinava. Aprumou o corpo e saiu, satisfeitíssima.

Três passos para fora da casa, contudo, e a surpresa: vinha-lhe, ressuscitado, o sentimento que enterrara havia pouco; vinha nos olhos do rapaz. Com o susto recuou os três passos que dera, o coração parecendo querer saltar por sua boca e ver de perto o fantasma que a assustava.

O rapaz não entendeu nada. Ela, menos ainda, tornando a entrar em casa e trancando a porta. Desejou que a chave pudesse dar quatro ou cinco voltas, ao invés de duas só. Sentia os próprios olhos arregalados e o estômago meio que entranhado para dentro de si mesmo. Se antes sorria, agora sofria. Sofria porque, mais uma vez, sentia.