Santa espera


Com o pescoço jogado para trás, apoiado no encosto da cadeira, olhava para o teto. Nada de especial lá em cima, o problema era que a desesperava olhar para os lados e ver tanta gente doente, e, se fechasse os olhos, temia acabar dormindo e perdendo seu lugar na fila. 

Doía-lhe a cabeça, doía-lhe as articulações, doía-lhe até a alma. Queimava e sentia frio. Ouvia gemidos, ouvia choros e ouviu um grito. Ouviu uma atendente chamar um nome qualquer que, por um insano instante, jurara que era o seu. Trocaria de nome, de corpo e de doença se isso fizesse com que fosse atendida mais rapidamente. Mas o tempo não passava, nem a dor, e uma espécie de delírio fazia com que as lamentações dos enfermos ao redor soassem como um cântico de entrada para outro mundo, e com que a luzes que encarava se apresentassem como suas guias de viagem.

Quase pegou no sono. Depois de piscar algumas vezes, tentando retomar o controle sobre si mesma, ouviu, distante, a morte gritar: “Aguarde sua vez! Aguarde sua vez!

9 comentários:

  1. Seus textos são sempre tão intensos. Gostei muito deste, a forma
    como você conduz o leitor através dos acontecimentos. Mas pensando
    aqui com meus botões, se a morte pediu que ela aguardasse, então, há mais esperança nesse texto do que uma primeira leitura superficial pode apontar.

    Você escreve muito bem, parabéns!

    Beijos, Larissa.

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  2. ESTOU SEM PALAVRAS <3
    Cara que texto maravilhoso. O final me deixou boquiaberta. Eu nem sei como traduzir em palavras o que senti.
    http://viagem-a-terra-do-nunca.blogspot.com/

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  3. Se passa no Brasil, não?
    GK

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    1. Com toda a certeza. É lamentável!

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  4. Ah Lari, acho que sempre que eu voltar aqui vou dizer que é um prazer voltar aqui. Quanto as suas palavras, são afiadas como sempre, e esse cenário tão comum e real dão um gosto de prazer pelo seu dom de descrever e dor por imaginar tal sensação agoniante.

    Fico por aqui.
    Passe bem, querida <3

    xoxo

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  5. Sei lá, fiquei meio chateada. Sou a bobona que quer finais felizes pra todo mundo. Inclusive gente que não existe. Mas que nesse caso, existe sim, nem que seja de uma forma mais literarizada - se é que existe essa palavra. Quantos não se vão da mesma forma? Quantos não estão agora sofrendo num leito sobre o jugo de médicos que olham-os com desdém? É realidade. E ela dói algumas vezes.

    Tá rolando uma pesquisa de público lá no Quinta Gaveta! Sua opinião é muito importante.
    Beijo, Selma Barbosa | Quinta Gaveta

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  6. E até as cenas mais horrendas do cotidianos você consegue pintar com esse olhar poético. Incrível!

    Já passei por uma situação parecida, onde esse ambiente me deixou desesperada e angustiada.

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  7. Nunca passei por isso, por motivos de:
    Raramente fico doente. E, graças a meu pai, temos condições de arcar consultas particulares (o que me faz agradecer por nunca ficar doente).
    Detesto hospitais, e sou do tipo que faz MUITA birra pra ir, só em último caso. Não só por causa do cenário caótico que você descreveu, mas também porque não tenho boas lembranças desse maldito lugar.

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