Santa espera


Com o pescoço jogado para trás, apoiado no encosto da cadeira, olhava para o teto. Nada de especial lá em cima, o problema era que a desesperava olhar para os lados e ver tanta gente doente, e, se fechasse os olhos, temia acabar dormindo e perdendo seu lugar na fila. 

Doía-lhe a cabeça, doía-lhe as articulações, doía-lhe até a alma. Queimava e sentia frio. Ouvia gemidos, ouvia choros e ouviu um grito. Ouviu uma atendente chamar um nome qualquer que, por um insano instante, jurara que era o seu. Trocaria de nome, de corpo e de doença se isso fizesse com que fosse atendida mais rapidamente. Mas o tempo não passava, nem a dor, e uma espécie de delírio fazia com que as lamentações dos enfermos ao redor soassem como um cântico de entrada para outro mundo, e com que a luzes que encarava se apresentassem como suas guias de viagem.

Quase pegou no sono. Depois de piscar algumas vezes, tentando retomar o controle sobre si mesma, ouviu, distante, a morte gritar: “Aguarde sua vez! Aguarde sua vez!