Das dores

Os pés pequenos davam passos rápidos; caminhava determinada. No meio do corredor, contudo, parou. Abruptamente. Era a incerteza que lhe caíra como um raio: “O que é mesmo que eu ia fazer?”. Pelejou por uns momentos, tentando se lembrar do seu objetivo, e nada. Ah, a idade... a bendita idade... Ia retomar o caminho por onde viera, talvez para acomodar-se na sala e cochilar um pouco, quando a campainha tocou.

A campainha! Claro!

Voltou a caminhar com determinação, já se preparando para ralhar com o filho que saíra para andar de bicicleta havia seis horas e não voltara até então. Abriu a porta, energicamente, mas o rapaz que esperava na soleira era bem mais velho que seu filho. Encarou-o, confusa.

— A senhora é Clara Andrade das Dores?

Ela confirmou com a cabeça. (Boca aberta. Ainda confusa.)

— Ok. Assina aqui pra mim, por favor.

De tão desorientada que estava, ela pegou a prancheta que o rapaz lhe estendia e assinou, no papel, onde devia assinar, mesmo que não soubesse por quê. O rapaz, assim que pegou de volta prancheta, caneta e papel, lhe entregou um pacote, agradeceu e saiu.

Ela não fazia a menor ideia do que havia no embrulho. Ao mesmo tempo curiosa e perturbada, abriu-o ali mesmo, na soleira, diante da porta que acabara de fechar. Depois do papelão, do plástico-bolha e do papel pardo, havia um belo porta-retrato.

Lembrava-se agora.

Fizera o pedido pela internet. Escolhera, cuidadosamente, a moldura que agora ficaria na estante, contendo a fotografia do filho.

Secou com o punho o canto do olho. Por que pensara que a campainha significava o retorno do menino? Ele não faria cerimônia para entrar em casa, com os pés sujos, correndo para o quarto e ficando lá até a hora do jantar. Por que tocaria a campainha?

Mas, sessenta anos atrás, a campainha tocara. Clara atravessara o corredor com determinação, já se preparando para ralhar com o filho que saíra para andar de bicicleta havia seis horas e não voltara até então. Abrira a porta, energicamente, mas o homem que esperava na soleira era bem mais velho que seu filho. Olhava para baixo e segurava, com uma mão só, uma bicicleta pequena e toda torta.

Ora, sessenta anos... Sessenta!

Foi até a sala, abriu a gaveta da mesinha de canto, tirou uma bonita fotografia em preto e branco de dentro dela e a colocou na moldura.

Deu um sorriso triste. Foi cochilar um pouco.