Inútil faxina


Mandaram-na varrer aquelas ideias da cabeça.

Apesar de alguma relutância inicial, não demorou muito para que acreditasse que era mesmo o certo a se fazer. Obedeceu. Pôs-se a varrer as ideias, com força, produzindo um som rascante a cada movimento com a vassoura, um ritmo desvairado, varrendo, varrendo...

Quando já estava à porta, pronta para empurrá-las para fora, um vento soprou contrário e mandou as ideias recém-varridas de volta para dentro. Isso aconteceu mais quatro vezes. Depois da quinta tentativa, ela trancou a porta barrando o vento, feliz pelo que julgava ser uma bela defesa mas, ao mesmo tempo, plenamente ciente de que o problema não fora resolvido. Tomada por um súbito cansaço, juntou as ideias com a vassoura novamente; agora, entretanto, levando-as para debaixo do sofá. Não era uma atitude louvável: ela sabia que sempre estariam ali e, mesmo que por um milagre as esquecesse, iria reencontrá-las algum dia. Como, então, seria?