Um sapato só

Quatro da madrugada. Aproximaram-se das escadarias do teatro municipal, querendo sentar-se ali e fumar um pouco. Naquela noite, o antigo e imponente prédio cinza abrigara, num de seus grandes salões, uma festa como a cidade não via havia muito tempo... Comemorara-se os 18 anos do filho do prefeito.

— É a gente que paga essas festa de rico, com os imposto que o prefeito desvia, mas experimenta chegar a dez metro dessas escada na hora da festa... Os convidado já olha feio, achando que a gente vai roubar eles, e os segurança fica tudo esperto. A vontade que dá é de tacar o terror nessa gente mesmo, pelo menos eles ia ter razão na hora de achar que a gente é bandido...

— Fica revoltadinho não. A gente nasceu pobre, vai morrer pobre e é assim que é. Fuma calado.

Barba, o que falara primeiro, ficou quieto por pouco tempo. Algo lhe chamou a atenção próximo ao corrimão do quinto degrau; ele foi até lá e voltou com um objeto em mãos, mostrando ao amigo:

— Olha, Zeno. As coisa que os da grana usa... Vou falar, viu, meus filho tudo precisando de sapato e as madame deixando os dela na escada...

Segurava um delicado sapatinho transparente, tão transparente que parecia cristal. Zé Nogueira, o Zeno, observou-o por uns instantes antes de responder:

— Deixou na escada nada. Nem os rico desfaz das coisa assim. A dona desse aí perdeu ele. Devia tá bebassa quando foi embora...

— Será que a gente não consegue vender isso aqui não? É uma coisinha bonita... Deve dar uma grana bacana.

— Quem é que compra um pé só de sapato, jumento?

— Sei lá, só tô falando... Deve ficar bonito na decoração...

Zeno limitou-se a revirar os olhos. Barba continuou admirando o achado, e disse enquanto o fazia:

— Não te lembra aquela história lá? Acho que é “Cinderela”...

— “Cinderela”... a casa noturna onde cê conheceu a Deise? — perguntou Zeno, com um esboço de sorriso maldoso no canto da boca.

Crendeuspai, esquece isso aí... Tô falando da Cinderela, aquela história lá onde a menininha pobre fica parecendo rica por uma noite e seduz o príncipe lá, e depois tem que voltar pra casa correndo e perde um sapato tipo esse aqui na escada... Ah, cara, aquela história lá, sabe... Cê não teve infância, não?

— Não.

— Tá que não teve. Se for assim eu também não tive, e até eu conheço essa história. Todo mundo conhece.

Zeno encarou Barba séria e profundamente. Colocou uma mão em seu ombro e perguntou, com ar solene:

— E eu com isso?

O outro pareceu abalado por um momento, mas prosseguiu:

— Na história o príncipe sai procurando a dona do sapato.

— Hmm. E ele não tinha nada pra fazer, não? Umas horta pra capinar?

— Vai ver não, né. Ele queria achar a menina que ele tava a fim através do sapato.

— Faz isso também, Barba. Vai que cê reencontra tua amada, a Deise?

Naquele instante, uma moça maltrapilha se aproximou deles. Ao colocar os olhos no sapato, pôs-se a apontar e gritar:

— Ladrão! Ladrão! Devolve!

Já ia avançar sobre Barba, mas este foi mais rápido: levantou-se num pulo e ergueu o sapato fora do alcance da mulher, defendendo-se, com a outra mão, dos tapas que ela lhe dava.

— Devolver pra quê? Quem me garante que o sapato é teu?

— É meu!

— Ah, é? E cê roubou de quem?

A moça, ofegante, parou de estapeá-lo. Mais do que perplexa, parecia ofendidíssima:

— Não roubei de ninguém!

— Então me diz onde cê arranjou ele!

Ela lhe lançou um olhar superior e disse:

— Eu não te devo satisfação nenhuma, mas já que você quer saber, foi minha fada madrinha que me deu.

Ah, que bondosa... — escarneceu Barba. — E te deu um pé só por causa do quê? Por causa dessa crise de agora? E daí você faz como? Sai por aí que nem um Saci de saltinho alto ou usa ele num pé e um chinelo velho no outro?

Zeno, que assistia à cena impassível, também escarneceu, mas de Barba:

— Talvez ela use o sapato “na decoração”.

— Eu não devo satisfação pra nenhum dos dois — disse a moça —, mas já que vocês querem saber, minha fada madrinha me deu um par de sapatinho de cristal, um vestido igual o daquela loura da novela, transformou uns rato do quintal da patroa em motorista e fez uma abóbora virar um carro só pra mim poder vir na festa. Esse sapato aí é meu. Devolve! Já!

Barba e Zeno trocaram um olhar preocupado. Zeno, enfim, disse:

— Dá o sapato pra ela, Barba. Coitada. Tá mais brisada que tudo.

Barba concordou e obedeceu. A moça tomou para si o sapato, radiante, e saiu dali. Descalça, perceberam.

Barba tornou a se sentar. Jogou fora o toco do cigarro e disse, sarcasticamente:

— Fada madrinha sacana, né? Faz a menina ficar no bem bom por uma noite e depois toma tudo da coitada, deixando só um sapato pra ela ser feliz. Deve se chamar "Vida", a danada da fada. Só pode... Só pode.