A rifa

O alto, da pele morena e rosto arredondado, era Simão e tinha catorze anos. Tomas, louro e rechonchudo, quase a mesma idade. Caminhavam da escola para a casa, vagarosamente, quando ao longe avistaram a frentista que despertava as fantasias de ambos havia algum tempo.

Três segundos de silêncio mortal; em seguida, uma troca de olhares cúmplices. Tomado por uma súbita inspiração, Simão perguntou:

— Duvida que hoje eu consigo o nome e telefone dela?

Com uma gargalhada de escárnio, o outro respondeu:

— Mas é claro que duvido! DUVIDO!

Simão sorriu com o canto da boca, mostrando que aceitava o desafio que ele mesmo propusera. Em seguida, passou a mão pelos cabelos meio molhados de suor e disse:

— Espera aqui.

Saiu caminhando como se fosse o rei do mundo, sem olhar para trás nem para os lados, mal ouvindo uma buzina que indicava que atravessara a rua na frente de um carro.

Ao alcançar a calçada oposta, contudo, sentiu uma coisa descendo-lhe pelo estômago como um raio. Não agia sem um plano — sabia exatamente o que fazer —, mas, ainda assim, não contara com a própria insegurança. Ele, que com suas piadas era a diversão da turma e o horror dos professores, ele, que sempre falava o que desse na telha e a qualquer um, com o intuito de provocar o riso, ele, sempre tão espontâneo... Agora, sentindo-se encolher diante da possibilidade de dirigir um mero olhar aos olhos da frentista.

A bem da verdade, nunca se dirigira seriamente à garota nenhuma. Entrara na puberdade havia pouco, colecionava vídeos pornográficos no celular, contava vantagem para os amigos, lançava uma cantada aqui e outra ali... mas, efetivamente, nada. Nunca fizera real progresso em termos de relacionamento amoroso.

Enquanto pensava sobre isso, chegara, sem perceber, ao chão de cimento do posto. A frentista — de calça justa e camiseta polo amarela, o cabelo preto e alisado amarrado num rabo de cavalo alto, os olhos azuis encimados por cílios longos e carregados de rímel — abastecia um carro vermelho enquanto conversava com o motorista, sujeito bem apessoado que devia ter uns trinta e poucos anos. Ambos sorriam. Devia ser apenas um diálogo casual, mas o garoto não pôde deixar de se sentir patético, por um momento, ao pensar que era apenas um marmanjo sem nenhum fio de barba no rosto e ela, uma deusa que já estava por volta de seus vinte anos.

Paralisado por esse pensamento cruel, sentiu um suor frio por debaixo do braço e o coração dar uma disparada rápida quando o carro foi embora e a moça o notou.

Notou-o e sorriu. Podia ser apenas por educação, mas aquilo o encorajou.

Aproximou-se, os pensamentos todos atabalhoados na cabeça, o coração batendo forte outra vez. Estava mudo, a moça esperava que ele dissesse alguma coisa, ele não tinha mais nenhum passo para dar, e tinha que dizer alguma coisa, e era tudo tão rápido, e...

— Quer comprar? É dois reais — o jato de palavras, despejado para o chão.

— Oi? — a moça franziu as sobrancelhas, indicando-lhe que não compreendera.

Ele percebeu que soara completamente incoerente. Balançou a cabeça para os lados, como que inconformado consigo próprio, ao mesmo tempo em que apalpava os bolsos de um jeito frenético. Encontrou o que queria: segurava, numa mão trêmula, um bloquinho de rifas.

Respirou fundo, tentando se acalmar, e tomou coragem para olhar a frentista nos olhos:

— É que... lá na escola... a gente tá vendendo umas rifas pra... pra formatura. É dois reais.

Sua voz, na tentativa de esconder as emoções, era quase robótica.

— Mas cês estão rifando o quê? — a moça perguntou com o mesmo sorriso gentil.

Ele corou, sentindo-se outra vez patético — dessa vez, pelo simples fato de ter omitido a informação principal da rifa, que era a premiação.

Sou otário. Sou muito otário...

— Chocolate. Quer dizer, uma cesta de chocolate, que vai vir cheia de... chocolate.

Não diga? Otário, otário, otário...

— Hmmmm, que delícia... Vou ficar com uma.

Ela estendeu a mão esquerda para pegar o bloquinho de rifas, enquanto que com a direita pegava uma caneta de cima da bomba de gasolina. Quando ele também estendeu a mão, e sentiu sua pele roçar de leve nas unhas compridas e pintadas dela, sentiu nova camada de suor cobrir-lhe o corpo.

Numa questão de segundos, ela já havia preenchido a primeira página do bloco, destacado seu número e devolvido os papeis restantes a ele, com uma nota de dois reais que tirara do bolso da camiseta.

— Brigado — ele conseguiu dizer.

— Imagina! — ela respondeu, com um último sorriso antes de se virar para abastecer outro carro que chegara.

Ele saiu quase que correndo do posto, radiante. Perto da esquina, lembrou-se de um detalhe importantíssimo: o amigo não poderia conhecer os meios pelos quais ele conseguira o nome da moça. Ele tinha que parecer natural, como se só tivesse chegado lá com um “E aí, minha linda!” e, depois de um papo certeiro, conseguido o que queria. Encolheu-se perto de um muro, pegou o celular, digitou rapidamente os dados que se encontravam na primeira das rifas e voltou a andar, confiante outra vez.

— E aí, cara? Conseguiu? — perguntou Tomas, assim que ele se aproximou.

— Mas é claro, meu jovem! — Simão sorriu, bonachão, enquanto entregava ao amigo o próprio celular, cuja tela mostrava o contato que acabara de salvar.

O outro agarrou, ávido, o objeto. Quando lançou os olhos na tela, contudo, seu rosto foi adquirindo uma expressão confusa.

— “Geraldo”? — perguntou, enfim.

Oi? — perguntou Simão, igualmente confuso.

— O nome da menina... “Geraldo”?

— Claro que não, cara. Cê é burro?

Tomou o celular de volta. De fato, na tela vinha escrito: “Geraldo”. “Deve ser "Geralda"... na pressa, eu devo ter escrito errado”, pensou. Entrou no Whatsapp. Estampando o mais novo contato, “Geraldo”, estava a foto de um rapaz.

Num impulso, enfiou a mão no bolso e tirou dali o bloquinho de rifas. Na primeira página, em caligrafia feminina... “Geraldo”.

Como não percebera?

Tomas, por sua vez, compreendeu tudo num segundo. Explodiu numa gargalhada esganiçada, enquanto berrava:

— Otário! Otário! Mas é muito otário mesmo, viu... “Geraldo”... Ai, caramba... “Geraldo”... Ela escreveu o número do namorado dela!

Simão não conseguia acompanhar a risada. Sentia o rosto queimando, sentia-se completamente sem-graça. Numa inútil tentativa de defesa, disse:

— Às vezes não é o namorado, uai...

— Então é o pai dela? O irmão? Dá tudo na mesma bosta, trouxão!

Não havia nada mais a ser feito: Simão caiu na gargalhada também. Sabia que no dia seguinte a turma toda já estaria sabendo do fato, sabia que seria zoado pelo resto da vida... não havia nada a ser feito.

Enquanto ria, veio-lhe à mente a imagem da frentista.

E pensou, como se se dirigisse ao amigo: “Mas eu tenho o sorriso dela... trouxão”.