Passos... passados.

Era uma mocinha linda, linda...

Eu sempre a via descendo rápido a Rua dos Sapateiros; o vestido floral ondulando por suas canelas, o cabelo num coque apertado e a expressão de quem é atarefada demais para dar “Bom dia!” Eu não achava, contudo, que fosse esnobe... Não que alguma atitude sua, em particular, provasse o contrário; é só que, nas poucas vezes em que seu olhar encontrou o meu, parecia que em suas pupilas havia algo mais de recato e medo do que de superioridade.

Era uma mera impressão de um apaixonado, dissera um amigo meu. Ele não a conhecia, e eu, posto que também não, só lhe apresentara a figura da moça segundo o pouco do que dela via. Ele disse: “Primeiro você vê recato e medo em seus olhos, depois começa a achar que seus passos rápidos revelam algo de sublime, e depois, ainda, jura que as ondulações de seu cabelo lhe dão os ares de um anjo”. “Ela sempre usa o cabelo bem preso”, observei. E ele rebateu: “Tanto faz. Você dirá que seu cabelo preso é angelical.

Poucos dias bastaram para provar que meu amigo acertara em relação aos meus sentimentos: reconheci-me apaixonado. Descobri-me na mesma situação em que os rapazes que tanto aparecem na literatura, amando sem saber como confessá-lo à amada. Nem um simples cumprimento consegui lhe dirigir, na justificável certeza de que ela não retribuiria.

Naquele sofrimento mudo, naquela impaciência insanável, via, a cada dia, minhas esperanças irem embora com seus passos rápidos. Passos cujo som eu já conhecia: seus saltinhos contra o chão da calçada eram as batidas do meu coração e eram o tic-tac do relógio. Perseguiam-me a todo instante em meus devaneios, e por mais que eu, em contraposição, estivesse disposto a me deixar encurralar, eles nunca concluíam o que eu julgava ser seu intento.

Quando, enfim, me decidi a declarar-me para ela, a tocar-lhe o braço e pedir-lhe um tempo para lhe falar, a persegui-la, se preciso fosse, com o único intuito de lhe dizer o que eu sentia, vi-a com outro rapaz.

Aquilo me deixou estupefato.

Ao lado dele, ela andava tão devagar e tão risonha... E, na ausência da pressa, seu vestido floral não fazia a mesmas ondulações. Mas seu cabelo ondulava — estava solto! Belo e solto!

Passaram, apaixonados, e sumiram de vista.

Sorri, desanimado. Senti-me bobo. Percebi que minha paixão, ao contrário dos passos da moça, que eram rápidos e agora iam lentos, chegara lenta e, agora, apressada, ia embora. Julguei-me, então, de um coração duro e de um caráter fraco, por desistir assim tão fácil do que antes quase me pusera louco, mas não conseguia, realmente, me culpar. Antes culpei a vida, mas logo a absolvi da culpa e continuei vivendo como se nada tivesse acontecido. Afinal, de fato, nada aconteceu.