Julho

Minhas férias, tão ansiosamente aguardadas, acabaram por se revelar um verdadeiro martírio. Pobre de mim, que vislumbrara julho como um espaço-tempo no qual minhas mágoas todas seriam esquecidas...

Dois ou três dias de passeio e os vinte e tantos restantes passados quase que completamente dentre as paredes do apartamento. Talvez meu intuito fosse enlouquecer — um bom plano para ignorar a realidade. Talvez eu tenha chegado perto disso, pois o fato é que eu me sentia algo desencarnado a flutuar numa tarde melancólica e infinita.

Essa impressão se contradizia apenas pelos comprimidos diários da cartela que, pouco a pouco, se esvaziava. E eu acordara certa noite — pois, ainda que eu não tivesse consciência das noites, é natural que elas continuassem a existir — justamente com o intuito de tomar um comprimido esquecido.

Não me lembro de ter acendido a luz para procurar por meus chinelos, tampouco me lembro de ter sentido, contra meus pés, o gelado do piso. Só me lembro de, repentinamente, me dar conta de que estava na cozinha entrevada, parada diante à pia, havia muito perdida em pensamentos mais abstratos do que o normal. Um, no entanto, fez sentido: eu me esquecera de pegar o remédio de cima do criado-mudo.

Voltei ao quarto e divisei, no escuro pouco iluminado pela claridade que entrava pela janela, uma forma feminina sobre minha cama. Num relance, o cabelo em cascata sobre o travesseiro, as pernas pálidas e compridas jogadas cada uma para um lado, a respiração compassada, tranquila, que fazia costas descerem e subirem. 

O susto veio forte, mas não veio a mim, parada junto à porta. Veio à mulher deitada, cujos olhos arregalados de súbito, eram, também de súbito, os meus. 

Da cama, eu olhava para a porta.

Ninguém.

Depois de alguns minutos paralisada, criei coragem e me levantei. Lembrara-me de meu comprimido. Era preciso buscar água para tomá-lo.  

25 comentários:

  1. A felicidade que foi ler esse conto! Desde que eu voltei pra blogosfera, a coisa que eu mais pensava em ler de novo era seus contos. Por um momento, quando comecei a ler pensei que era um texto pessoal - mas talvez até tenha um pouco, porque eu já estou louca por julho também -, mas depois que vi o desenrolar eu fiquei encantada, eu estou encantada. Me transportou pra uns três anos atrás, quando eu chegava a passar horas no seu blog lendo vários contos seguidos - e saiba que a maioria deles eu nem cheguei a comentar nada, mesmo tendo raivinha de leitores fantasmas, haha. Eu não sei o que comentar, eu só sei sentir. Eu queria saber fazer isso que você faz com as palavras.

    Desde o momento em que a personagem se viu na cama o coração já deu uma acelerada, mas o "mover de câmera" que se desenrolou na minha cabeça quando ela mesma se viu na porta foi lindo (e aterrorizante) demais. Eu quero mais disso Lari! Será que você não consegue arranjar um tempinho no meio dessa correria pra voltar com suas webséries?

    Com carinho,
    Conto Paulistano.

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    1. A felicidade que foi ler seu comentário e ver o compartilhamento no Conto Paulistano ♥ ♥ ♥

      Muito obrigada mesmo! E, aqui: você sabe. Como sabe! Seus textos são simplesmente excelentes. Amo muito!

      Ironicamente, tenho escrito vários contos. A maioria não trago para o blog porque ainda precisa ser aperfeiçoada e porque tenho para ela outros planos, mas juro que quero organizar melhor minha rotina de escrita para atualizar isto aqui mais vezes. Com contos também, claro. E uma web, por que não? É uma ideia ótima. Vou ver se me surge um tema legal, porque o tempo a gente dá um jeitinho de arranjar :)

      Obrigada, mais uma vez. Tenha uma boa noite, Sel!

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    1. Larissa, tu sabe como eu posso tirar esse B laranja do meu nome?
      Grato.

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    2. Vou tentar, Ney! Obrigada pelo incentivo!

      Penso que só é possível tirá-lo fazendo o upload de uma nova fotografia de perfil. Pelo Google Plus, é só clicar em "editar perfil" e, em seguida, no ícone da câmera sobre o lugar da foto. Daí você faz o upload da foto nova e pronto. Já pelo painel do Blogger, é só ir até o canto superior direito e clicar naquele círculo onde geralmente fica a foto de perfil. Um retângulo vai ser aberto e lá vai ter a opção de alterar a foto também :)

      Não sei ajudei. Qualquer coisa, pode falar :)

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    3. Obrigado, vou tentar.
      Peço desculpas pela inconveniência, quando me dei conta já era tarde.

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    4. Que isso, não é inconveniente nenhum 😊

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  3. Ser o poço ou a apoteose é apenas questão de dose.
    GK

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    1. Difícil é acertar a dose, inconstante que o ser humano é...

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  4. ai, meu deus, que intenso! Fui transportada para o local!

    bruna-morgan.blogspot.com

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    1. Haha' fico feliz que meu conto tenha atingido esse efeito :)

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  5. De uma profundidade imensa, todo mundo tem seus momentos de inconstância e profunda confusão que talvez não seja confusão, ou talvez seja, mas as vezes essa confusão seja mesmo o nosso próprio encontro consigo mesmo...

    Acho que ficou confuso... hahaha

    Amei o texto como sempre

    Beijinhos Bi

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    1. Eu consegui entender, Bianca, até demais (porque rolou identificação, haha')!

      Obrigada <3

      Beijos!

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  6. Quando li o título, pensei se tratar de um texto antigo seu hahaha Depois pensei que fosse um relato pessoal, porém da metade para o fim percebi que era um conto, e que conto! Amo histórias psicológicas que abordam a complexidade da mente humana, elas se encaixam perfeitamente na liberdade criativa que a escrita proporciona, mas seria um esforço enfadonho e confuso se o escritor não manipulasse as palavras de forma orgânica. Você possui esse dom, Lari! Parabéns! Por mais contos assim aqui no blog Rsrs Beijos

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    1. Muito obrigada mesmo, Vitor! Ótimo receber elogios de um contista do seu nível :)

      Pode deixar; trarei mais contos!

      Beijos

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  7. Lari. O que dizer de suas palavras? Eu sem dúvidas leria até suas mais obscuras anotações! ♥

    Adorei este conto! Me fez lembrar uma cena de "A Menina que Não Sabia Ler" de John Harding, não sei se conhece! O livro é fantástico. Já te indico. E sem dúvidas, eu viajei nesse conto! Não sei porque, mas imaginei a cozinha nesse "tempo", mas o quarto como se de um século passado. Com uma vela sobre o criado-mudo! E tanto a garota da cama quanto sua replica sonambula de camisola branca! ♥ Adorei! ♥ Sérioooo! B R A V O.

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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    1. Ah, obrigada, Elcimar ♥

      Não conheço o livro, mas super aceito a indicação ;)

      Hahaha' adorei sua construção do cenário! Originalíssima.

      Obrigada mais uma vez <3

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  8. Que louco... insano e realista, porque de tanto nos isolarmos acabamos por adquirir fantasmas de nós mesmos como companhias.
    Acho que nunca li algo que tivesse a essência humana tão forte quanto neste teu conto, Lari! Foi maravilhoso lê-lo, como se eu o tivesse vivido...

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    1. Gostei tanto de ler sua percepção sobre o conto!

      Muito obrigada mesmo, Katarine <3

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  9. Na real que lendo lendo e me deixando levar, só não imaginei que fosse algo pessoal como também tive uma certa identificação com parte dos sentimentos. Acredito que muitos tiveram e terão, afinal, férias, feriados, tudo isso cria uma louca expectativa e no fim, ao menos eu, custosamente, passo esses dias apenas divagando comigo mesmo e cultivando a falta de vontade para com a vida... ao menos textos e desenhos saem disso tudo rs.

    Sempre na dose certa, obg pelo conto lari <3 é sempre um prazer passar por aqui.
    xoxo

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    1. Hahaha' muita gente mesmo achou que esse texto iria para o lado pessoal... Ao contrário da protagonista, em geral consigo aproveitar bastante meus dias de folga. Claro que às vezes rola uns sentimentos de ansiedade ou desânimo ou mesmo tédio, mas eu consigo lidar com isso melhor do que ela.

      Seus textos e desenhos são simplesmente incríveis <3

      Eu é que agradeço pelo comentário e pela sua presença!

      Beijos

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  10. Larissa, seus contos são tão reais que às vezes parece que estou lá, no cantinho da cena, observando tudo.
    Adoro isso.

    Beijos

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  11. Alguém chame um padre pra orar nesse apartamento.
    Ou ele precisa trocar de remédio.

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