Julho

Minhas férias, tão ansiosamente aguardadas, acabaram por se revelar um verdadeiro martírio. Pobre de mim, que vislumbrara julho como um espaço-tempo no qual minhas mágoas todas seriam esquecidas...

Dois ou três dias de passeio e os vinte e tantos restantes passados quase que completamente dentre as paredes do apartamento. Talvez meu intuito fosse enlouquecer — um bom plano para ignorar a realidade. Talvez eu tenha chegado perto disso, pois o fato é que eu me sentia algo desencarnado a flutuar numa tarde melancólica e infinita.

Essa impressão se contradizia apenas pelos comprimidos diários da cartela que, pouco a pouco, se esvaziava. E eu acordara certa noite — pois, ainda que eu não tivesse consciência das noites, é natural que elas continuassem a existir — justamente com o intuito de tomar um comprimido esquecido.

Não me lembro de ter acendido a luz para procurar por meus chinelos, tampouco me lembro de ter sentido, contra meus pés, o gelado do piso. Só me lembro de, repentinamente, me dar conta de que estava na cozinha entrevada, parada diante à pia, havia muito perdida em pensamentos mais abstratos do que o normal. Um, no entanto, fez sentido: eu me esquecera de pegar o remédio de cima do criado-mudo.

Voltei ao quarto e divisei, no escuro pouco iluminado pela claridade que entrava pela janela, uma forma feminina sobre minha cama. Num relance, o cabelo em cascata sobre o travesseiro, as pernas pálidas e compridas jogadas cada uma para um lado, a respiração compassada, tranquila, que fazia costas descerem e subirem. 

O susto veio forte, mas não veio a mim, parada junto à porta. Veio à mulher deitada, cujos olhos arregalados de súbito, eram, também de súbito, os meus. 

Da cama, eu olhava para a porta.

Ninguém.

Depois de alguns minutos paralisada, criei coragem e me levantei. Lembrara-me de meu comprimido. Era preciso buscar água para tomá-lo.