Autômota

Virou para um lado, depois para o outro. Puxou os cobertores para junto de si para, em seguida, sentir calor e empurrá-los de novo. Semicerrando os olhos, conferiu as horas no visor do celular. 1:45h. Respirou fundo. Tentou não pensar em nada, mas não conseguiu. Deu-se por si questionando como, mesmo estando tão profundamente cansada, não conseguia dormir. 

Virou para um lado. Virou para o outro. Conferiu novamente as horas no visor do celular: 3:05h. Dali a menos de duas horas teria que estar de pé outra vez, para então tomar meio copo de café, pegar um ônibus, atravessar parte da cidade, descer, pegar outro ônibus, percorrer mais alguns bairros e chegar às 7h à casa da patroa. Chegar às 7h, bem-disposta, à casa da patroa.

Queria chorar. Ao invés disso, depositou o celular outra vez no criado-mudo ao lado da cama e acomodou-se no colchão. Com o movimento, contudo, sentiu um puxão vindo de dentro do ouvido direito. Ergueu um pouco a cabeça: novo puxão. Espantada, levou a mão à orelha. Mais espantada ainda, constatou que um fio grosso saía dali. Lembrou-se dos negócios que o filho usava no ouvido para escutar música. Como um daqueles fora parar na cabeça dela? 

Tentou tirá-lo; estava preso. Puxou mais forte; doeu.

Levantou-se em pânico e acendeu a luz. No espelho da porta do guarda-roupa, constatou não apenas o corpo moreno e robusto que sempre teve ou as olheiras previsíveis: um cabo cinza saía de dentro de sua orelha e se estendia para além da entrada do quarto.

Saiu, acendeu a luz da sala contígua. O cabo percorria todo o chão e dali se esgueirava por debaixo da porta da rua. Horrorizada, levou a mão outra vez ao ouvido. Fez novas tentativas de arrancar o fio intruso, aumentando, gradualmente, a força dos puxões. Na puxada mais forte, quase gritou de dor. O fio permanecia intacto. Voltou até o quarto, frustrada, colocou uma calça de moletom e um casaquinho fino por cima da camisa de pijama e, trocando as pantufas por chinelos de borracha, apagou as luzes, destrancou a porta e saiu.

Com um dos poucos postes que iluminavam a rua estragado, era difícil enxergar até aonde o cabo ia. Teve um momento de hesitação; sair sozinha de madrugada, e ainda por cima sendo mulher... Mas o que podia fazer? O mais assustador de tudo era aquele fio. Se um desavisado o puxasse, se um carro passasse por cima dele e, enroscando-se de alguma forma, saísse o arrastando... não gostava nem de imaginar.

Foi andando em passinhos curtos e rápidos enquanto ia enrolando o cabo num braço. Esperava, do fundo da alma, que aquilo tivesse um fim rápido... Logo seriam 4h da manhã e pelo menos meia hora de sono ela tinha que ter. 

Caminhou alguns quarteirões na rua deserta, enrolando o fio, ouvindo apenas o som de gatos acasalando em algum quintal. Mais uns trezentos metros adiante, pensou ter ouvido a batida de uma música longínqua e algumas risadas. Vinham de outras vizinhanças. Naquela pela qual caminhava, por bem ou por mal, nem sinal de gente.

Já ia se fatigando quando atingiu o final da rua, que dava para a subida de um morro sem casas. O braço ia bastante adornado com o fio já recolhido, mas este ainda não tinha acabado; prosseguia, virando a esquina. Ela virou também.

Desceu mais uns duzentos metros. Em outra esquina, virou à direita — retornando, pela rua debaixo, à mesma direção pela qual viera. Aqui e ali no percurso, cachorros invisíveis latiam para ela.

Depois de um bom pedaço, virou uma esquina à direita, outra vez, e deu por si subindo a rua que levava até sua própria casa. Trazia enrolados mais de mil metros de cabo que, contudo, não pareciam fazer tanto peso ou volume.

Quase à porta da casa, vislumbrou seu término (antes, por algum motivo, ignorado); acabava em uma tomada. Recolheu-a, exausta. Tão exausta que não estranhava mais nada. Apenas destrancou a porta, entrou, deixou o rolo de fio num canto e, sem saber como ou por quê, plugou a tomada. Tudo tão automático como num sonho. Ou como na vida.

Deitou-se e dormiu.