Perdido

— Nó, cara, cê tinha que ver! Hoje minha mãe achou um trem mó esquisito lá no quintal de casa...
— Esquisito como?
— Ah, sei lá... Um negócio preto, bem preto mesmo, parece um cubo e nó, pesa pra caralho! E o engraçado é que quando cê passa a mão nele, sente tipo um chiadinho, sabe? Um formigamento, mó estranho... Tipo quando cê desliga a TV e põe a mão na tela em seguida?
— Eletricidade estática, o nome.
— Tipo isso. Só que contínuo. O negócio parece que tem uma energia própria...
— E o que que cês fizeram com ele?
— Tá lá. Minha mãe tinha achado no quintal de casa quando tava pendurando a roupa e levou no quarto pra mim ver, acho que deve tá na minha escrivaninha ainda...

[...]

— Ô, mãããe! Cadê aquele negócio que cê me mostrou hoje de manhã? Cê pegou ele?
— Uai, ficou com você. Não mexi com isso não.
— Mas não tô achando no meu quarto!
— Não tá na tua mesa?
— Não. Não tá em lugar nenhum.
— Uai. Então não sei...

[...]

— Cara, cê lembra aquele negócio que eu te falei ontem? Do negócio lá que minha mãe tinha achado no quintal?
— Sei.
— Então. Sumiu!
— Sumiu? Como assim?
— Sumiu. Tava no meu quarto mas agora não tá em lugar nenhum!
— Caralho, mano!

[...]

— Cê achou?
— Achou o quê?
— Uai, o que cê tava procurando hoje de manhã.
— Ah, não. Achei ainda não, mãe.
— Tem certeza que não tá no teu quarto?
— Tenho.
— Hmm... Ah! Outra coisa que eu queria te falar: vieram te procurar aqui hoje.
— Me procurar? Quem?
— Um menino novinho. Ele falou o nome dele mas eu esqueci. Acho que é lá da tua escola.
Menino novinho...? Como assim? Da minha idade?
— Não, mais novo. Devia ter uns 11 anos. Perguntou se ocê tava, eu disse que não, daí ele virou as costas e foi embora.
— Uai, mãe! E cê não perguntou o que ele queria?
— Ah, Marcelo, eu tava ocupada! Arroz no fogo, celular tocando... Achei que cê soubesse.
— Uai, e eu vou saber!? Nem conheço nenhum "menino novinho"! Cê lembra como ele parece, pelo menos?
— ... Ué... Que engraçado! Agora que cê me perguntou me deu um branco... Esqueci completamente como é que ele era!

[...]

— E aquele negócio lá que tua mãe tinha achado e depois cê perdeu? Cê achou ele?
— Pior que não, mano.
— Tá louco! Eu ia ficar me cagando de medo!
— Nem me fala. Essa noite eu acordei com uma claridade na minha cara, mas quando abri o olho não tinha nada. Pior que depois disso eu custei a pegar no sono, e fiquei um tempão ouvindo um barulho bem baixinho, tipo um chiado. Teve uma hora que eu até acendi a luz pra ver o que era, mas tava tudo de boa no quarto.
— Credo, mano. Se benze! Mas e depois? Cê fez o quê?
— Apaguei a luz, voltei pra cama e dormi.

[...]

— Oi! Oi, desculpa te incomodar, mas cê é amigo do meu filho, não é? Do Marcelo?
— Sou sim! Aconteceu alguma coisa?
— Não! Quer dizer... É que. Ah, Meu Deus, como é que eu vou explicar isso?

[...]

— Marcelo! Marcelo, mano! Sou eu! Lembra de mim? O Paulo, teu amigo, lembra? Da escola... Lembra? Pô, cara, que é que cê tá me olhando desse jeito? Não tá me reconhecendo não? Pô, mano, a gente conversou ontem! Lembra?

8 comentários:

  1. Teu dom para o romance salta aos olhos!
    GK

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    1. Que incentivo! Muito obrigada mesmo, Gugu 😊

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  2. As partes desse diálogo me fez imaginar mil e uma possibilidades para o que tinha acontecido.

    Adorei seu novo blog, espero que se dê muito bem por aqui!!

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    1. Gratíssima pelo comentário e por sua presença aqui, Laura!

      Abraços!

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  3. Eram os aliena apagando memórias. Um dia acordei de madrugada e tinham faixas de luz vermelhas, laranjas e amarelas sugando memórias do meu cérebro e eu Boa tudo indo, como luzes da aurora boreal...
    Adorei te ver criando de novo, cada dia mais e estilo próprio.
    Saudações!

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    1. Bem sinistro 😶

      Muito obrigada! Saudações e um domingo maravilhoso para você!

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  4. MEDOOOOOOOO. AUSHUHU. MAS EU AMEI!

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