No meio do caminho

Há um episódio da minha adolescência que, por mais que os anos passem — e já se passaram muitos —, nunca será esquecido. 

Eu era uma garota gentil e bem-educada. Não de todo bonita, mas, dona de uns olhos grandes e verdes, de uns fios arruivados e de covinhas que se mostravam com frequência (posto que eu vivia sorrindo), acabava por conquistar a estima dos rapazes. Os mais tímidos eram os mais vulneráveis: penso que minhas brincadeiras desafetadas os faziam se sentir mais autoconfiantes, e, conversa após conversa, não demorava muito para que logo estivessem numa tentativa de se declararem a mim. 

Pois bem. Um dia, voltando da escola para casa debaixo de um sol que me tostava as bochechas e me fazia suar sob a cabeleira solta, deparei-me com um garoto que parecia um tanto quanto perdido. Olhava para um lado, olhava para o outro, olhava até para cima. Sua figura me era tão peculiar que, quando me dei conta, já ia diminuindo os passos para contemplá-la com mais atenção. 

Dei um sorriso à guisa de cumprimento assim que fui notada, mas ele não sorriu de volta. Permaneceu, contudo, encarando-me com a expressão abobalhada. Tinha uma face comprida que acabava num queixo estreito e meio pontudo, a boca pequena, olhos verde musgo e um cabelo ralo e fino cor de palha. Nem agradável nem desagradável à vista, mas não era alguém que eu pretendia ficar mirando pelo resto da vida. Bastante sem-graça, virei o rosto e prossegui andando. 

Três ou quatro quarteirões à frente, vejo, a pouca distância e parado no meio da rua, o mesmo garoto que me intrigara lá atrás. Achei estranho que ele tivesse me ultrapassado sem que eu o percebesse, mas imaginei que ele percorrera o caminho até ali pela rua debaixo ou de cima. De qualquer modo, ainda não parecia muito correto quanto à sua localização: continuava a virar o pescoço para todas as direções. Acabou por outra vez pousar o olhar em mim, e outra vez o manteve fixo. A boca se abriu um pouco — o mesmo ar meio parvo. Aquilo me incomodou; de alguma forma, expunha-me. Cruzei os braços em torno dos seios, senti meus ombros se arcarem e minhas sobrancelhas se franzirem. Tratei de apressar o passo. 

Até onde eu morava, eram mais um quilômetro e pouco. Em geral, eu cobria esse espaço com os pensamentos voltados para um bom banho, um bom prato de comida e um bom cochilo depois do almoço. Naquela tarde, entretanto, eu pensava era no garoto. Não se tratava do início de uma paixão, tampouco da boba curiosidade inicial a respeito dele. O que tornava minha mente tão obsessiva era um sentimento de profundo desconforto. Eu sentia mesmo uma expressão de asco estampada em meu rosto, embora não entendesse o porquê. 

Eu ainda não caminhara o bastante para enxergar o portão de minha casa, mas já era possível perceber alguém diante dele. A princípio pensei que se tratasse de um fruto da minha mente, uma impressão, mas logo confirmei que a pessoa, de fato, era o garoto. O bendito garoto

Freei de brusco. Ele me encarava, o que me deu o ímpeto de dar as costas e tomar o caminho contrário. Mas para onde eu iria? 

Mordi o lábio, suspirei fundo, andei a passos rápidos rumo à minha casa e ao indivíduo inconveniente diante dela. Parando frente a frente a este, indaguei: 

— Você tá precisando de alguma coisa? 

Sem me dar resposta, ele permaneceu com os olhos fixos em mim. Ficamos naquele jogo sério por uns dez segundos. Irritada, vencida, deixei-o ali. Não olhei para trás. 

Cerca de uma semana depois, quando desci para o café da manhã, deparei-me com vários recortes na mesa da cozinha. Obra de minha irmã mais nova, fosse para um trabalho da escola ou para alguma de suas próprias colagens. Inclinei-me para lhe dar um beijo no rosto e indaguei o que é que a artista estava fazendo. Mal ouvi a resposta: minha atenção fora absorvida para uma fotografia junto a um pequeno parágrafo. Naquela, o garoto que eu encontrara três vezes em meu trajeto na terça-feira anterior; neste, palavras que continham seu nome, revelavam sua idade e anunciavam sua morte por atropelamento. 

Catei o recorte, sob os protestos da caçula, e tornei a subir as escadas correndo. Sentia meu coração disparado e, na garganta, aquele peso que antecede o choro. 

Bati com força na porta do quarto da minha mãe, que a abriu assustada, e despejei todo o meu pesar. Contei a ela, entre soluços, que eu tinha culpa na morte do garoto. Que eu o tinha visto, que tinha percebido que ele estava desorientado, que tinha até perguntado se estava precisando de alguma coisa, mas que minha pergunta fora mais uma afronta do que um real oferecimento de ajuda. Que, estando sempre parado no meio do caminho daquele jeito, era natural que acabasse por sofrer um acidente, mesmo em ruas com um trânsito mais tranquilo. Que, ainda que eu estivesse com um pouco de raiva por ele ficar me encarando de maneira tão esquisita, se eu tivesse perguntado outra vez... 

“De que garoto você tá falando?”, lembro-me de minha mãe questionar depois de pedir que eu me acalmasse. 

Mostrei a ela a fotografia com a nota de falecimento. 

— Você pegou isso com a sua irmã? 

Balancei a cabeça em confirmação. 

— Tem certeza que é esse o menino que você viu semana passada? 

Assenti. Ela então respirou fundo, mantendo o olhar em mim por alguns segundos antes de responder: 

— Esses jornais que eu dei pra sua irmã recortar... Eles são velhos. Eles têm pelo menos uns dez anos.

20 comentários:

  1. Li este teu belíssimo texto com a deliciosa dúvida quanto a tratar-se de algo fictício ou que de fato um dia se passou na tua vida. Ademais, ler-te é cada vez mais uma verdadeira aula de língua portuguesa. Meus aplausos!
    GK

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    1. Não se passou na minha vida; de qualquer forma, sempre gosto de escrever como se estivesse realmente na pele de meus personagens 😊

      Muito, muito obrigada mesmo 💙

      Abraços!

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  2. Tu é genial! Adoro os teus contos, tu prende minha atenção o tempo todo, me sinto criança na expectativa do final.
    Saudações

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    1. Ah, muito obrigada 💛😃

      Saudações e boa noite para você!

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  3. Que prazeroso foi ler esse texto tão bem feito e lindamente escrito, gostaria de ler um livro teu e tenho certeza que já escreveu algum *U*

    Queria que tivesse uma continuação, mas acho que um final aberto assim já é o suficiente, vou ficar apenas imaginando...

    Abraços,
    Bia

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    1. Obrigadíssima, Bia!

      Eu bem que queria ter escrito... Esse livro não sai nunca 😳 Mas ainda pretendo publicar uma coletânea de contos, nem que seja só no Wattpad 😉

      Confesso ter um fraco por finais abertos. Gosto das hipóteses.

      Abraços! Boa noite para você!

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  4. Que delícia de texto. Parabéns!
    A expectativa é grande para desvendarmos o mistério...

    Beijos!
    Blog: *** Caos ***

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    1. Muito obrigada, Helena!

      Beijos e uma quinta bem bonita para você 😘

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  5. Preciso dizer que tô perplexada com esse texto, adorei mesmo, nem esperava enquanto lia.. mistérios aguçam uma curiosidade não é mesmo? :3
    beijoss
    Neoguedes

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    1. Muito obrigada, Bruna 💗

      Beijos! Bom fim de semana!

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  6. Sua escrita está cada dia melhor
    Saudades o/
    E parabéns lari

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    1. Apareceu como anônimo e eu fiquei curiosa, haha. Quem é?

      De qualquer modo, obrigadíssima 💗 💗 💗

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  7. Lari. Você é simplesmente fantástica! E acho que jamais cansarei de lhe dizer isso. ♥. Simplesmente um dos meus contos preferidos a partir de agora! :) BRAVO!

    ACESSO PERMITIDO. ♥
    www.acessopermitido.com

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    1. Ah, saudades dos seus comentários 😍

      Muito obrigada mesmo, Elcimar! Abraços!

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  8. Que saudades enormes que eu tava de ler você assim, Lari! É como chegar em casa morrendo de fome e encontrar seu prato preferido sendo servido. Eu devoro teus contos numa velocidade tão grande que fico chateada, porque acaba rápido.

    Sabe o que você pode fazer por mim? Escrever um livro! Aposto como isso é intenção. Só tô logo colocando mais pilha, pra adiantar esse processo.

    Eu ficaria horas aqui nessa tela lendo teus contos.

    Um beijo meu.

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    1. Ah, eu amo forte seus comentários 😍

      É intenção sim, e com um incentivo tão lindo desses não tem como eu não começar a adiantar o processo!

      Muito, muito, muito obrigada mesmo!

      Beijos e um fim de semana maravilhoso para você!

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  9. Que susto, era apenas um fantasma!rs. Ótimo! Extremamente criativo. Gostei, moça.

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    1. Muito obrigada, Fábio 😊

      Um excelente fim de semana pra ti!

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  10. AAAAAAAAAAAAAAAAA Meu coração!!!!!!!!!!!

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