Dos domínios oníricos


A família chegou ao sítio onde, até aquele dia, costumava passar os fins de semana. Doía-lhe que as atuais circunstâncias lhe tirasse os direitos sobre a terra, mas nada podia fazer, e agora nem vinha ao caso. Os pais, descidos do carro, em pé e de braços cruzados, transbordantes de indignação e impotência mudas, observavam os estragos ao longe. O menino, despercebido ou ignorado, já correra de junto deles; correra em direção aos soldados, a fim de observar suas atividades mais de perto. 

Em grupos de cinco ou seis, os homens cavavam buracos fundos e perfeitamente cilíndricos: entradas de túneis. Então desciam por ali uns após os outros, ficando um para trás para vedar a entrada. Esse que sobrava corria para o próximo grupo e já se inseria no mesmo tipo de trabalho, talvez torcendo para que não lhe fosse designado o mesmo tipo de função. Afinal, aquilo era uma grande gincana: muitas escavações se espalhavam pelo pasto, centenas de soldados se agitavam sob expressões sérias. Logo, apenas dezenas. Logo, apenas uns quinze. Logo, apenas um. Este, suando, tapara a última abertura. Tremia. Ergueu-se, ficou ereto, olhou desconsolado ao redor. Num gesto rápido, sacou uma pistola e apontou-a para a própria cabeça. O menino não ouviu o tiro nem viu o sangue, pois, naquele exato momento, uma buzina lhe desviara a atenção: junto à porteira, um carro verde esmeralda de design cinquentista trazia um casal alegre e que acenava. A mulher usava uns óculos gatinho de lentes estreitas e bordas cor-de-rosa, o homem vestia um terno cinza. Pareciam ambos sair de algum filme hollywoodiano antigo. Atrás deles, uma fila de carros se aglomerava, todos com características semelhantes ao primeiro e passageiros alegres. À medida que iam entrando, estacionavam por cima dos buracos recém-fechados. Estacionavam e não desciam; o pasto agora parecia o pátio de um cinema drive-in. 

Depois da passeata dos veículos porteira adentro, vinha uma procissão de pessoas de branco segurando velas, a solenidade estampada em seus rostos. Vinham e se aglomeravam na área do sítio onde outrora a família passara tardes tão agradáveis.

Os pais, descruzando os braços, se juntaram aos da procissão. O menino se juntara aos pais. Então todos, ansiosos, se colocaram a olhar para o céu e a esperar pelo fim.

16 comentários:

  1. As fotografias combinaram tão bem com o texto, genial!

    http://odisseia666.blogspot.com

    ResponderExcluir
  2. Um maravilhoso que de Albert Camus. Vc já o leu?
    GK

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada, Gugu! Nunca o li, mas tenho muita vontade de conhecer alguma de suas obras...

      Abraços!

      Excluir
  3. Lari... Como vc deve ter observado, há um erro no meu comentário. Escrevi "que" quando deveria ter escrito "quê". Correção feita, e voltando ao revolucionário Camus, um dos meus três autores preferidos, recomendo-te, para começar, o mais famoso de seus livros, "O Estrangeiro", para mim uma das obras mais importantes do século XX e extremamente aludida por muitos artistas a quem respeito muito, como, por exemplo, Caetano, na sua canção homônima, Engenheiros do Hawaii, em "A Revolta dos Dândis", ou The Cure, em "Killing na Arab". Bjs, Lari!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Ah, sem problemas 😉

      Título anotado! Fiquei muito interessada na excelente indicação e lerei "O Estrangeiro" assim que possível!

      Beijos 😘

      Excluir
  4. Me parece tão profético, que não sei se fico alegre pela leitura, como sempre, ou me entristeço , porque acredito nessa possibilidade.
    Bom fim de semana.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Confesso que me parece profético também, ainda mais porque a inspiração me veio em sonho e gostamos de acreditar que os sonhos têm algo de místico...

      Um fim de semana maravilhoso para você!

      Excluir
  5. Melhor título impossível. Melhor imagem impossível. Ia questionar se você tinha realmente sonhado, mas acabei de ler a resposta aqui em cima.

    Eu nunca ia imaginar esse desfecho. Provavelmente mudei a expressão diversas vezes enquanto lia, porque é impossível não se inquietar diante dessa história. Não dá nem tempo de sentir. Tem sido como o mundo atual e seu desenrolar, quando a gente pensa que vai funcionar, tudo muda. E o luto não tem tempo de ser sequer assimilado.

    Seu texto me deixou foi pensativa.

    Parabéns sempre!

    ResponderExcluir
  6. Eu senti uma brisa inocente e agridoce. Lembrei-me de Suassuna, pois a fotografia que fiz com a cabeça me trouxe uma angústia prensada em uma infância delicada, como uma ingenuidade de ver o caos pelos olhos de menino. Forte.
    Escrevo em douglasbinda.tk (ou douglasbinda.blogspot.com). Nada tão mágico como este, mas sensível para poder te dar algum texto em troca, como presente. Obrigado por este texto.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito obrigada, Douglas!

      Aceitarei o presente de bom grado: passarei por lá e farei o que, já sei, será uma ótima leitura 😉

      Excluir
  7. Perfeito, Larissa!
    Me senti imerso numa cena de David Lynch!

    Abraço!

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Muito grata, Dave!

      Abraços e um fim de semana incrível para você!

      Excluir