Dia da caça, dia do caçador

No breu da noite, dentre árvores que mal via e com a espingarda posicionada à altura do ombro, pôs-se à espera.

Era bem culpa da velha que estivesse ali. A impressão que ela lhe causara... Talvez tivesse sido efeito da bebida ou da prosa fiada dos amigos à mesa, é verdade... Reavivavam, então, uma lenda antiga na cidade, associando-a ao desaparecimento recente de três homens.

— Eu sempre me caguei um pouco de caçar à noite e agora vocês veem bem por quê. Esse que desapareceu aí, o Inácio Caneca; adorava uma caçada noturna, e ia sozinho ainda, no mais das vez. Tava velho já e continuava. Aí, sumiu. Vai ver já tá é até morto. Eu, se visse o diabo do anão arruivado na minha frente, caía duro na mesma hora!

— E os outros dois que sumiu, eles caçava também?

— Os outros dois acho que vieram de fora. Vieram pra trabalhar na pedreira.

— Então o que é que o diabo queria com eles?

— A pedreira tá abrindo um rombo na Serra dos Afonso, né? Acabando com a floresta. Eu lembro da minha vó, quando eu era menino, falar que o Curupira não gosta disso, não... Não gosta nem de quem derruba árvore, nem de quem mata bicho por divertimento.

— Então nós tá é tudo morto, compadre!

Uma gargalhada crescera no grupo. Mesmo ele, que mantivera certo distanciamento da conversa até ali, juntara-se ao riso e brindara a nova rodada de cerveja com os amigos.

Fora nesse momento que cruzara o olhar com a velha.

A mulher bebia de um corote de pinga num canto quieto e obscuro do bar. Desgrenhada, macilenta, um xale marrom e puído nos ombros. Encarava-o gelidamente. De um modo bizarro, ela lhe lembrara sua mãe. De um modo mais bizarro ainda, aquilo fizera com que seu corpo de repente parecesse mais pesado, com que um gosto amargo lhe subisse à boca e com que um mal-estar insuportável lhe tomasse.

— Ô! Tô falando com ocê, homem!

— Quê? — perguntara, tentando voltar a si e dirigindo-se àquele que o chamava.

— Teu pai, ele sumiu na mata também, num foi?

Fizera que sim com a cabeça, sanando a curiosidade dos companheiros que o encaravam. Saíra de brusco em seguida, sem dar satisfações a ninguém.

No casebre solitário que chamava de lar, tomara um banho demorado e depois fora para a cama. Alimentara alguma esperança de dormir e acordar na manhã seguinte sem nenhuma memória da sensação que o tinha atormentado. Obviamente, não conseguira; sua cabeça insistia em levá-lo a anos, anos atrás...

Aquela que o parira e criara possuía o ritual de, todo final de tarde, rumar para a mata na serra atrás da casa onde moravam. Para essas caminhadas, levava uma sacola com fumo ou... um corote de pinga. Seria por isso que a associara à velha do bar? Bom, o fato era que, depois de uns quarenta minutos, ela voltava com uns olhos meio vermelhos de choro. Não raro, apontava para ele — que contava com uns catorze anos no começo daquela maluquice — um dedo repreensor, dizendo:

— Cê devia é me acompanhar, ir aprendendo. Quando eu morrer, vai sobrar só ocê pra continuar tentando resgatar teu pai! 

— Então meu pai tá fudido. Nem na bala que eu vou desperdiçar manguaça com essas crendice tua! — ele respondia, num tom de piada no qual ela não via a menor graça.

O caso é que sentia, sim, falta do pai. Só não partilhava com a mãe a certeza de que fora o Curupira quem dera sumiço nele naquela noite em que saíra para caçar. Mesmo garoto, achava mais plausível que o homem tivesse se perdido por conta própria. A mata, apesar de estreita e rala no começo do morro, alargava-se a adensava-se depois por quilômetros. Talvez ele tivesse acabado nos buchos de uma onça. Talvez, de bêbado, tivesse dado um jeito de se afogar num dos riachos pouco fundos que desciam a serra. Talvez tivesse caído numa vala, quebrado uma perna e agonizado por dias, até morrer de febre ou sede.

Talvez. O corpo nunca fora achado nem seria. Preferia conviver com isso a, como a mãe, esticar as esperanças com as pontas da imaginação. Gastar parte do escasso dinheiro que tinham com oferendas para o demônio das florestas, acreditando que, assim, ele lhe devolveria o pai.

Vivera sem nenhuma culpa até então. Algo sempre o incomodara intimamente, mas não... não era culpa. Não podia ser culpa. Culpa de quê?

Mas agora se culpava... Os olhos da velha, que eram, de algum modo, os olhos da mãe havia muito falecida, o culpavam. Por que ele não fora com o pai na noite da caça? Por que, posteriormente, não o procurara com mais afinco? Por que nunca acompanhara a mãe em suas oferendas, ainda que fosse apenas para agradá-la e tranquilizá-la? Para impedir que, antes de chegar aos trinta e oito, ela caísse doente? E, sem se descobrir de qual doença, morresse?

Morrera de desgosto... Sim... Não poderia ter sido de outra coisa.

E ele agora se culpava... Ele e os olhos da velha. Era culpado. Culpado!

Fora para aliviar essa certeza tão avassaladora que acabara por sair da cama no meio da madrugada, pegar o carro e rumar para a Serra dos Afonsos. Era seu intuito se embrenhar pela floresta que lá ficava, atrás da casa onde morara na infância e que, como a própria infância, já não existia havia tempos. Assim como já não existia o pai, a mãe ou a mulher com que fora casado no início da juventude — e da qual mal se lembrava dos traços.

Só existia ele e sua culpa. Ele o olhar inquisidor da velha. Ele e a noite, o volante, a espingarda ansiosa no banco de trás.

Deixara o carro no pé da serra. Pegara a arma e percebera que tinha se esquecido da lanterna. Não voltaria para buscá-la... Se o fizesse, poderia perder a determinação que o levara até ali.

Tirara o celular do bolso, um modelo antigo que não possuía uma câmera boa, acesso à internet ou cores em seu visor. Possuía, contudo, uma pequena lanterna embutida em seu topo. A luz emitida era fraca e logo daria cabo da bateria do aparelho, esvaindo-se também, em consequência. Bastaria, entretanto, por mais ou menos meia hora. Tinha que bastar.

Assim, com uma iluminação fraca, uma espingarda às costas e a cabeça num turbilhão de imagens do passado, subira a estrada de acesso à mata. Uma vez dentro desta, penetrara cada vez mais fundo através de uma trilha que quase não enxergava.

Sentia, então, algo que se sobrepunha à culpa, mas que ainda não era medo. Não sentia medo. O que sentia era uma espécie de fixação por uma ideia mal definida, um instinto primitivo de buscar, encontrar, exterminar. Mas o quê?

O quê... Não, não podia mentir para si mesmo... Sabia o que caçava. A garrafa de aguardente pendurada na cintura era uma isca inconfundível. Sabia o que procurava. Sentia que encontraria o que procurava.

Adentrara mais e mais na floresta. As botinas esmagando folhas e gravetos secos no chão; o canto dos grilos; o bater de asas de algum pássaro noturno que, assustado com sua aproximação, levantava voo; eram sons que cortavam a noite. Ele mal os ouvia. Apenas continuava.

Já tinha subido boa parte do morro quando a bateria do celular dera-se por acabada. Resolvera, então, parar. Não estava totalmente escuro; a luz da lua deixava mais ou menos visíveis as silhuetas das árvores. Debaixo de uma delas, ele tinha deixado a garrafa aberta — não sem antes tomar um bom gole da cachaça. Afastara-se uns sete metros dali, encostara-se num tronco semiescondido pela copa de outra árvore e preparara a arma.

Agora esperava. Esperava no breu da noite, dentre árvores que mal via e com a espingarda posicionada à altura do ombro. Esperava e pensava no olhar da velha. Esperava e lembrava.

Vinte minutos depois de ter chegado, viu um rápido clarão de fogo com o canto do olho direito. Virou-se rápido nessa direção, dedo pronto no gatilho, coração já disparado. Nada. Segundos depois, novo vislumbre de fogo — dessa vez, pelo canto do olho esquerdo. Virou-se de novo. De novo, nada.

Passaram-se dois minutos em suspense. Retornou, então, à posição original, com as costas encostadas no tronco. Olhou para a árvore sob a qual tinha deixado o aguardente...

E notou que a garrafa tinha sumido.

Um arrepio subiu-lhe a espinha. Simultaneamente, ouviu gritos. E passos. Passos muito depressa — algo correndo em sua direção. O coração quase lhe estourava o peito, o medo lhe comia as entranhas, o dedo tremia sobre o gatilho, mas ele não conseguia atirar. Uma parte ínfima da sua consciência insistia para que não o fizesse; afinal, a voz que gritava era familiar.

Num átimo, uma sombra agitada surgiu em seu campo de visão. Ao se aproximar, apesar da escuridão, tornou-se perfeitamente visível; era como se emitisse uma luz própria. Agarrou-lhe o braço e, com os olhos esbugalhados olhando de um lado para o outro, exclamou, numa voz urgente:

— Filho! Filho, cê tem que sair daqui... Agora! Ele vai pegar ocê, vai pegar ocê! Cê tem que sair e...

— Pai...?

— ... correr. Ele vai pegar ocê! Ele...

— Pai! Pai! Pai, o senhor não tava...

— Morto? Morto, sim... Morto. Foi quando saí pra caçar o maldito que matou meus companheiro de caça — dizia enquanto ofegava. — Eu tinha dito pro cê e pra tua mãe que só ia caçar uns bichinho à toa, mas... — chacoalhou a cabeça, num gesto rápido — O Tião da Cuia, cê lembra dele? E o Marconde, e o Márcio Pereira? Foi o Curupira! Foi o diabo do Curupira que pegou eles! Um mês depois eu resolvi vir atrás do demônio, mas...

Interrompeu-se. Começou a se transfigurar. Reduziu-se à metade do tamanho, como se a cor de fogo que de repente tomou seu cabelo o derretesse. A criatura que surgiu onde, um segundo antes, estava seu pai, abriu um sorriso gigantesco e deu uma estridente risada de menino, tão alta que parecia, contraditória e simultaneamente, desumana.

Percebendo que o próprio Curupira se encontrava à sua frente, pôs-se em fuga.

Correu, correu tanto quanto suas pernas podiam correr, sem saber como conseguia não bater em nenhuma árvore ou tropeçar em nenhuma raiz.

Quando não podia mais, parou, apoiando as mãos nos joelhos e respirando sofregamente.

Enquanto se recuperava, deu-se conta do que fizera: fugira. Fugira daquele que caçava. Transformara-se na caça.

Os olhos da velha lhe vieram à mente. Agora não apenas o culpavam; também o desprezavam. Eram os olhos da velha, mas eram também os olhos da mãe. Em seu delírio, ela levantou um dedo acusador em sua direção: “Covarde!” Atrás dela, uma moça de rosto embaçado — que ele identificava, contudo, como aquela que um dia fora sua esposa — fazia coro: “Covarde! Covarde! Covarde!”

Ambas sumiram, então, para dar lugar à imagem do pai.

À imagem do corpo do pai.

Era demais.

Tinha que reencontrar coragem e reverter a situação. Caminhou na direção pela qual viera, atento e cauteloso, mão firme na arma. Num trecho mais iluminado do caminho, vislumbrou algumas pegadas no chão. Pegadas de pés descalços, e recentes.

Apesar da pouca luminosidade e dos pedaços em que as folhas cobriam o solo por completo, seguiu os vestígios o melhor que pôde. Andava com cautela, temendo ser surpreendido pelo desgraçado do menino-demônio. Se antes não prestava atenção nos sons, agora se sobressaltava com o menor deles.

Após o que pareceu um século, estancou de súbito. Aconteceu que, em meio a lembranças da mãe, recordou-se dela dizendo que era marca do Curupira ter os pés voltados para trás.

Como, como fora ignorar isso?

Detestava a ideia de que a criatura não estivesse à frente, mas atrás dele.

Frustrado, tentou retornar, seguindo a direção contrária à que as pegadas indicavam. Mas sentia-se tão, tão cansado...

A meio caminho de onde viera, parou para retomar um pouco do fôlego e das energias.

Passou a mão pela testa suada. Tinha muita sede, e deu-se conta de que, além da lanterna, também se esquecera de trazer água. Coisas tão básicas! A afobação que o trouxera ali fizera com que agisse como um caçador sem experiência. Ao menos se lembrara da espingarda. Ao menos isso...

Punha-se a caminho outra vez quando, a poucos passos de distância, ouviu um suave barulho de água caindo. Não se recordava de tê-lo ouvido quando passara ali pela primeira vez... Aguçou a audição: água, água mesmo, água escorrendo, não havia dúvida. E estava perto. Valia a pena procurar sua origem, talvez uma mina ou um córrego. Desviou um pouco do seu percurso para seguir a direção do ruído.

Andara cerca de um quarto de hora quando admitiu para si mesmo que a água estava, afinal, mais longe do que pensara. Todavia, de um modo estranho, a intensidade do som era a mesma de quando estava lá atrás. Arriscou mudar um pouco a direção, ir mais para a esquerda, mesmo que isso não fizesse muito sentido. Caminhou um bocado por esse lado, constatou que o ruído parecia vir dele também, caminhou mais. Nenhuma fonte encontrada, mas o som do líquido jorrando era perfeitamente claro... De onde vinha? Parou. Escutou. Concentrou-se no barulho. Questionou-se, afinal, se não se enganara e viera na direção oposta. Sentia tanta sede que achou sensato voltar atrás e seguir pela direita. Virou-se e andou, andou, andou.

À essa altura, mal se lembrava do motivo que o trouxera à Serra dos Afonsos. Seu novo objetivo era encontrar água e matar a sede. Tanto se empenhava nele que não se dava conta do óbvio: já estava completamente perdido.

Uma gargalhada macabra, já conhecida, tomou o lugar do barulho da água.

Em seguida, ambos os sons sumiram por completo.

Com um medo extremo, olhou para os lados. Não tinha noção de onde estava, não tinha noção de quanto tempo tinha transcorrido desde que entrara na mata. Deixou a espingarda em posição e esperou, tremendo e suando. Tremendo, suando e rezando.

Um vislumbre de fogo. Depois outro; depois outro.

Tentando manter a mão firme, atirou. Atirou outra vez. Errou ambas. Antes que recarregasse a arma, nova risada estridente e infantil se fez soar e ecoar por toda a extensão da mata.

E o demônio das florestas surgiu bem à sua frente.

Tentou dar-lhe uma pancada com o cabo da espingarda, mas a criatura era ligeira. Com a força colocada no golpe que não encontrara alvo, desequilibrou-se. Mal tinha se reequilibrado e já tentou novos golpes, girando em torno de si mesmo enquanto o Curupira o rodeava por todos os lados, rindo e desviando, rindo e desviando...

Aquela dança de tolos não tinha fim.

De tonto, de cansado e de vencido, caiu de joelhos. A asquerosa criança de cabelo de fogo parou também, encarando-o de perto. A boca era muito maior do que a de um menino comum, a pele era meio escamosa, o cabelo era de um vermelho que não era deste mundo. A expressão, feliz, alucinada... Sádica.

O mais perturbador, contudo, eram os olhos.

Os olhos.

Os olhos que vira no bar. Os olhos da velha que, por algum motivo, achara que eram os da mãe, mas que agora via que não tinham nada em comum com eles.

Eram os olhos do demônio das florestas. Ele caíra na armadilha. Caíra na armadilha tal como o pai provavelmente também caíra, tantos anos atrás.

Não eram, afinal, uma geração de caçadores; eram uma geração de caças... Uma medíocre geração de caças.

6 comentários:

  1. O na vida caçador sem taça é o que nunca se entendeu a caça.
    GK

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    1. Suas rimas são sempre ótimas!

      Abraços, Gugu!

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  2. Li e não reli, e tu vai me chamar de ridículo. Mas tu me fez pensar em Mark Twain, mais precisamente em Huckleberry Finn, e tu sabe que não exagero, mas que eu digo que tu é uma narradora maravilhosa e o futuro te espera. Eu nem sei o que dizer, além de que me sinto feliz contigo.
    Obrigado.

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    1. Obrigadíssima por tudo o que disse 😍

      Abraços

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  3. Você tem uma escrita maravilhosa Larissa. Gosto de como você escreve como uma escritora antiga do tipo que você lê os livros sabendo que a pessoa tem total controle sobre as palavras.
    Beijos 😘
    https://cotidiano-alternativo.blogspot.com.br/

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    1. Valeu muito mesmo, Fernanda 💙💙

      Beijos! Tudo de bom para você!

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