Ponto fraco

Primeiro Dia dos Namorados acompanhado e ganha um canivete com um cabo ornamentado de madeira. Não conseguiu retirá-lo da caixa, e a caixa tremia porque ele todo tremia. Tentava a custo manter o autocontrole. O suor já ia lhe empapando as axilas; sentia gotículas dele também junto à testa.

— O que foi, amor? O que tá acontecendo? Cê não gostou? Cê tá passando mal?

Foi incapaz de responder com mais do que um sorriso nervoso. Tão delicadamente quanto podia, deixou o presente no braço do sofá. Admirava-lhe que já não tivesse o atirado longe há muito... Não devia ferir os sentimentos da garota, nem demonstrar fraqueza diante dela, nem agir de forma que levantasse qualquer suspeita quanto às suas motivações.

Mas a suspeita, é claro, foi levantada de qualquer maneira. Evitando a conversa, sorriu um sorriso vacilante, deu-lhe um beijo rápido na testa, saiu de casa e correu para o carro. Acelerou antes que ela lhe alcançasse com questionamentos e preocupações inconvenientes.

Passou a noite num hotel já seu velho conhecido, com camas de metal, piso de cerâmica e nenhum móvel nos quartos além de uma prateleira de MDF razoavelmente inofensiva — a qual, ainda assim, ele cobria com uma jaqueta logo que se hospedava ali. Mandou uma mensagem para a namorada se desculpando pelos modos e dizendo que precisava de um tempo sozinho; que não, não estava em casa, mas que estava bem e, assim que ficasse ainda melhor, tentaria lhe explicar tudo. 

No pouco que conseguiu dormir naquela noite, teve um pesadelo que o fez gritar. Passado o susto inicial — e a posterior vergonha por alguém talvez tê-lo ouvido —, levantou-se outra vez, vestiu-se e saiu para dar uma volta.

Eram cinco e meia da manhã. Uma luz baça iluminava os arredores do hotel silencioso, deixando visíveis as gotinhas de orvalho na grama do jardim. Olhou para a estrada pela qual viera e sentiu-se tentado a segui-la adiante, para bem longe das perguntas da companheira...

Respirou fundo. Mãos nos bolsos, resolveu andar pelos arredores da construção.

Passou primeiro pelo estacionamento que ficava à direita, no qual se encontravam apenas dois carros cobertos por uma camada de umidade. Nos fundos, três grandes latas de lixo e uma espécie de varal com dois panos de chão bastante encardidos pendurados. Para além, uma cerca de tela de arame. Ainda mais além, árvores; muitas delas, o começo de uma floresta até então convenientemente despercebida que subia cobrindo a serra.

Sentiu um embrulho no estômago e suor por debaixo dos braços. Cenas do pesadelo recente lhe vieram à cabeça: a namorada sorridente e com olhos cheios de expectativa e um pequeno pacote. Quando ele o abria, o canivete revelado transformava-se, lenta e repulsivamente, num homúnculo de aparência grotesca que lhe apontava lâminas prateadas.

Bastante enjoado, voltou ao hotel, pegou sem nenhum cuidado os pertences no quarto e deixou as chaves no balcão. Entrou no carro e rumou de volta à cidade.

Encontrou-se com a companheira em um restaurante ali pela hora do almoço. Antes que abrisse a boca para dizer mesmo um “oi”, ela chegou lhe abraçando e lhe enchendo de beijos. Dizia coisas que soavam como “me desculpe” e “tadinho”, e a cena durou uma eternidade... Ele já sentia olhares sobre os dois e, um pouco constrangido, afastou-a delicadamente, dizendo:

— Amor... Paloma, o que você tá fazendo? É eu que tô te devendo desculpas, né?

— Não, meu bem! Não! — ela disse sorrindo. Um leve tom de vermelho coloriu suas bochechas e, olhando primeiro para baixo, prosseguiu: — Eu... Eu me dei a liberdade de ligar pra Tainá. Não me leva a mal, tá? Eu sei que o que aconteceu ontem dizia respeito só a nós dois, e que ontem nem era dia de ligar pra minha psicóloga, ainda mais pra falar de alguém que nem era eu. Só que... O que aconteceu me afetou, sabe? Eu fiquei preocupada, e a Tainá além de minha psicóloga é minha amiga. Eu... Eu contei pra ela o que aconteceu.

Uma pausa. Não ouvindo nenhum protesto ou presenciando nenhum tipo de reação, continuou:

— A Tainá disse que... Disse que sua reação pode ter sido fruto de um trauma de infância. — O outro aguardava fingindo paciência, mas a ansiedade lhe tomava as entranhas. — Ela disse que... Lâminas. Facas, canivetes... Pode ser que essas coisas podem trazer à tona lembranças ruins pra você.

Ele deu um sorriso triste. “Não é bem isso...”

A garota continuava o encarando. De repente, seus olhos se arregalaram um pouco; uma ideia acabara de lhe atingir. Verbalizou-a:

— Mas... Mas, amor, a gente já fez o jantar junto várias vezes lá em casa. E você se barbeia sempre, certo? O problema não é as lâminas, é? Ou é? Ou foi só o canivete ou... ou outra coisa?

Ele permaneceu em silêncio.

— Fui eu, Breno?

— É claro que não, Paloma! É claro que não! Eu te amo! Você nunca me fez mal algum, é só que... É só que...

— O quê, Breno?

As palavras eram um nó na sua garganta.

O quê, Breno?

Sentia-se acuado. Sentia vontade de chorar. Era um menino outra vez.

Arrastou a cadeira de brusco e saiu a passos largos. Ouviu-a gritar:

— POXA, VOCÊ VAI FUGIR OUTRA VEZ? É ASSIM?! 

Nem olhou para trás, posto que sua mente já fazia isso por ele. Olhava para um passado distante...

Lembrava-se bem do forte que vinha construindo com gravetos e tocos semipodres no bosque atrás da casa da avó. Lembrava-se bem de como sua pequena construção rústica lhe tomava as horas das tardes depois das aulas. Lembrava-se muito bem de quando, ao pegar um pedaço de madeira junto às raízes de uma paineira, ele começara primeiro a vibrar de forma engraçada em sua mão, depois a mexer o que em um relance alucinado pareceram braços e pernas, e então a se contorcer violentamente dentre seus dedos, que se abriram jogando aquela coisa para longe. A criatura, recuperando-se da queda, correra uns dez metros e, antes de se esconder atrás de arbustos, virara-lhe a cara horrenda e lhe lançara um silvo repugnante.

Ele, por sua vez, correra aos berros na direção oposta. A avó aparecera na horta de olhos arregalados e mão no coração. Quando ele lhe contara aos atropelos o que vira, a velha resmungara até não poder mais... 

“Ai, menino! Ai! Eu achando que era coisa séria! Que era cobra, ou gente ruim querendo pegar ocê! Cê quase me mata do coração! Um menino do teu tamanho ficar imaginando coisa... Isso é culpa daqueles filme feio que cê assiste! Já falei pra tua mãe não deixar... Vamo. Vamo lá pra dentro que eu vou preparar um chá. Pro cê e pra mim!”

Depois do chá vieram os risos e as chacotas dos parentes que passaram a saber da história. Depois, quando perceberam que o pavor que tomara de madeira se prolongara a ponto de torná-lo nervoso e recluso, vieram os psicólogos. O máximo que estes conseguiram foi avaliá-lo como portador de uma fobia, sem fazer nada de efetivo em relação a isso. Como seu medo persistia, a mãe, que quase não ia à igreja e nem era tão firme em suas crenças, acabou mesmo por levá-lo a um padre. O religioso conversou amigavelmente com ele e depois acalmou a mulher, dizendo que não acreditava se tratar de demônios: eram coisas de criança, que orações e os anos acabariam por curar.

Tinha agora vinte e oito, com um resto de infância e uma adolescência horríveis nas costas. Com o tempo, de fato, as coisas ficaram relativamente mais fáceis. Tornara-se um pouco mais tolerante com os objetos de madeira, ainda que preferisse evitá-los. Tinha horror a árvores, mas conseguia disfarçá-lo. Mudara-se para uma cidade grande, ansioso por uma vida entre pedras e concreto, conseguira um bom emprego, conseguira uma namorada.

Mas agora aquilo voltava. Voltava com força.

Respirou fundo. Respirou fundo outra vez. 

Como eram pesados os destroços daquele forte inacabado!

14 comentários:

  1. Que saudade de ler as coisas que você escreve! *o*
    Me identifiquei muito com o Breno, porque assim como ele também carrego alguns traumas de infância e isso é uma coisa bem chatinha. :/ É incrível como essas coisas sempre encontram um jeito de voltar pra gente, fico impressionado. haha (rindo de nervoso) Mesmo quando você acredita ter superado tudo, algo vem pra te dizer que talvez não seja bem assim.
    Texto incrível, como sempre! Um pouco angustiante (de um jeito bom, é claro) e muito real.

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    1. E eu estava com saudades da sua presença por aqui! Tão bom que você tenha voltado à blogosfera 😍

      Algumas coisas não se superam mesmo... Na verdade, tornam-se parte de nós.

      Muitíssimo obrigada, viu?

      Abraços!

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  2. Caraca, você escreve muito bem, Larissa! (É o nome da minha irmã, hihi)
    Pude sentir a angústia do Breno facilmente. Esses traumas de infância, que ficam para sempre, afetam nossa vida de diversas formas. Coitado dele. Me pergunto o que a Paloma ficou pensando, e o que eles conversaram mais para frente.
    Ótimo texto, moça. Parabéns ♥

    Um beijo, Toca do Coelho

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    1. Obrigada mesmo, Laura, demais 💕

      Beijos e boa quarta-feira para você!

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  3. Fui até o fim numa grande expectativa .. tu deveria fazer roteiros pra cinema. Tu é muito, muito talentosa.
    Saudações!

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    1. Agradeço muito a você pelo que disse!

      Obrigada, e saudações 😊

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  4. Adorei conhecer o teu blog! E texto está muito bom!

    Bjxxx
    Ontem é só Memória | Facebook | Instagram

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  5. Sou apaixonada pelos teus contos!
    Ler um conto teu é algo similar a curiar uma caixa repleta de coisinhas encantadoras, e quanto mais se vasculha mais interessante fica, até que no fim tem-se um desfecho surpreendente.

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    1. Muito obrigada por esse comentário maravilhoso e inspirador (e pela visita sempre tão bem-vinda) 💕

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  6. Fiquei ansiosa e angustiada para chegar ao final e descobrir o que tanto aterroriza o personagem.

    É triste que muitas vezes falta empatia nas pessoas para entender o que está acontecendo com o próximo, o que ele sente, e não simplesmente ficar dizendo que não é grande coisa.

    Como sempre, adoro tudo que você escreve.

    Abraços,
    antique faerie

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    1. Obrigada, Bia linda!

      Abraços e ótima semana para você 😘

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  7. Rolando minha lista de leitura no Blogger, demorei a encontrar atualização daqui. Saí de um post do Cotidiano Alternativo da Fê Salles, vi seu comentário e resolvi vir por mim mesma sem ficar esperando o feed me mostrar as moscas. Foi entrar na página inicial e ver esse texto longo que já esbocei um sorriso de canto antes mesmo de iniciar a leitura. Eu não preciso mais te dizer o quanto eu amo seus contos, não é?

    Como os outros comentários já te disseram em parte, a angústia e a ansiedade que seus contos provocam são viciantes ao mesmo tempo que agonizantes. Eu senti os traumas de Breno, os temores que a mente lhe prega na vida real. Eu também senti a incompreensão de Paloma ao mesmo tempo que notei sua real preocupação com o namorado. Tantos sentimentos em poucas linhas...

    Eu não me canso de agradecer. Por você escrever, por você me inspirar. Por me inspirar a sempre escrever. Obrigada por mais um deleite à alma, Lari!

    PS.: Agora há pouco, estava eu conversando com um amigo, que tem acompanhado parte desse meu desenvolvimento gradativo na escrita e apresentei a ele seu blog, dizendo aquilo (quase) de sempre "Mais do que qualquer pessoa ou autor, a dona dele que me despertou a vontade de escrever" logo depois de copiar o link daqui. Sinta-se responsável por boa parte desse sonho. :)

    Com carinho,
    Conto Paulistano

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    1. Ah, Sel... É sempre um prazer tão grande para mim ler seus comentários! Sua presença por aqui me faz muito feliz 😊

      Obrigada pela gentileza sem tamanho em me dizer tudo o que disse, obrigada por ter mostrado o blog ao seu amigo e obrigada por me considerar uma inspiração. E inspiração não é mais do que só uma ajudinha: o talento mesmo está dentro de você, e é grande, é enorme, e é promissor. Todo o sucesso do mundo a você nesse seu percurso de escritora, viu?

      Abraços!

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