O Travestido Louco

Muito alto, muito magro, muito pálido. Era um sujeito envelhecido, menos pelo tempo do que pelo próprio rancor que tinha do mundo. Julgava-se injustiçado por não ter nascido rico ou belo, e nunca conseguira, ainda que por vezes tivesse tentado com afinco, fingir simpatia. Natural que não tivesse amigos ou amores; com os poucos parentes vivos, não fazia questão de manter contato.

Sobrevivia de uma pequena aposentadoria precoce, adquirida depois de um acidente de trabalho que o deixou sem o polegar e o indicador da mão direita. O dinheiro bastava para o aluguel e o básico da alimentação mensal, além de um vinho barato que bebia moderadamente.

Posto que não gostasse de pessoas e que, por outro lado, se sentia aflito quando passava longos períodos sem sair de casa, gostava de caminhar de madrugada. A madrugada era amiga... Beijava-lhe as faces com sua brisa gélida assim que ele saía para a rua, protegia-o com seu manto escuro, ouvia-lhe os segredos sem que fosse preciso falar. A madrugada era cúmplice.

Numa dessas ocasiões, entretanto, uma senhora que por acaso estava na janela o avistou ao longe e, sendo ruim da vista, supersticiosa e esbaforida, julgou logo que fosse um fantasma. Ela gritou o mais alto que pôde (“Um fantasma! Um fantasma!”), e não demorou para que as luzes de várias outras casas fossem se acendendo e que novos gritos confusos se juntassem ao coro. O pobre homem, percebendo, assustado, que era o motivo do alvoroço, virou a esquina e fugiu. Correu com suas pernas compridas, dobrou mais esquinas escuras, percorreu quarteirões e mais quarteirões....

Acabou parando, enfim, num terreno vazio. Ali, com uma mão no joelho e a outra no coração, olhos esbugalhados, ele tomou fôlego. Depois... começou a rir. Primeiro de nervoso, depois de divertimento. Ria insanamente, ria como nunca rira a vida inteira. Descobriu que havia adorado o que acabara de acontecer. Ele tinha perturbado a paz dos pacatos e hipócritas cidadãos de Teixeira Prado e, ao mesmo tempo, sentido uma adrenalina maravilhosa...

Precisava repetir o feito.

Na madrugada seguinte, achou conveniente assumir para si uma indumentária que o fizesse ainda mais temido. Optou por usar um camisolão velho que estava amarelando no armário desde tempos imemoráveis. Em seguida, encontrou na gaveta um batom vermelho que achara na rua certa vez — e que guardara consigo sabe-se lá por qual motivo. Passou-o ultrapassando os limite dos lábios, quase com raiva, e rebocando-o mesmo nas bochechas. Para finalizar a personagem, adotou um olhar permanentemente arregalado.

E foi. E foi descalço. E foi cantarolando baixinho uma canção inventada numa língua inventada. E, à medida que ia passando diante das casas, arranhava as janelas de metal.

O primeiro indivíduo que o avistou deu o aviso: “Acordem! Acordem! O maldito voltou!” Um senhor que teve o azar de abrir a janela e dar de cara com o suposto fantasma teve um mal súbito, caindo convulso no chão. Mais duas mulheres e uma criança o relancearam, paralisadas de pânico. “Basta por hoje”, ele pensou, escondendo-se atrás de um poste e, dali, dando um jeito de se esgueirar pela esquina e sumir de vez.

Tomara conhecimento, pela manhã, através da conversa alta de dois homens próximos à sua porta, que sete pessoas foram parar no hospital com vômitos, tontura e falta de apetite. Segundo o que diziam, todas relataram a mesma coisa: começaram a passar mal depois que fenômenos estranhos, tais como paredes que apareciam arranhadas, espelhos que se quebravam sozinhos e uma cantoria sinistra e desconhecida que adentrava os cômodos começaram a ocorrer. E esses fenômenos, é claro, eram associados ao Fantasma do Travestido Louco. Era assim que chamavam a aparição da noite anterior, o excomungado que carregara consigo a alma do Seu Costa.

Resolvera não sair naquela madrugada. Soubera, no decorrer do dia, que mais doze pessoas tinham sido internadas com os sintomas causados pela “energia negativa que rondava a cidade”, pela “maldição do Travestido Louco”, ou pela, como mais sensatamente tinha chamado o doutor Rodrigo Pasto, “histeria coletiva que tomou os bons cidadão de Teixeira Prado”. Ele sabia que, se saísse fantasiado de fantasma, seria caçado. Não queria ser caçado. Não queria ser morto. Não! Só queria brincar um pouco...

Malditos os “bons cidadãos de Teixeira Prado”! Quem poderia ter esperado aquela reação?

Saiu à tarde no dia seguinte, vestido normalmente, e descobriu na rua que já eram vinte e sete no hospital “doentes da histeria”. Ouviu ainda vários, vários relatos paranormais que as pessoas — desde as que usavam chinelos e carregavam cestas de hortaliças na cabeça até as que tinham relógios de ouro e contas gordas no banco — comentavam entre si. Viu sal grosso nos arredores de várias casas, viu muitas pessoas na igreja, mesmo que não fosse horário de missa, viu mães consolando filhos amedrontados. E, por incrível que pareça, sentiu medo. Medo de si mesmo. Não sabia bem o porquê, mas temia-se com todas as suas forças.

Correu para a casa, fechou as janelas, trancou as portas. Deitou-se, enrolou-se nos cobertores e passou a repetir incessantemente: “Não, não! Eu não quero ser caçado. Eu não quero ser morto. Não. Não! Malditos! Malditos! Eu não quero ser caçado! Não...

Logo ouviu alguém ao seu lado repetindo as mesmas palavras que ele. Era a voz do Travestido Louco. Gritou, correu, trancou-se no banheiro. Quando deu as costas olhou diretamente o espelho, e deu de cara com o Travestido Louco. Reabriu a porta, reabriu várias portas, correu para a rua gritando.

Não demorou a ser agarrado. Berrava: “Me soltem! Vocês estão enganados! Eu não sou o Travestido Louco! Eu, eu acabei de ver o Travestido Louco lá em casa! Não sou eu! Me soltem!” Ninguém entendia nada.

Levaram-no para o hospital. Era a trigésima segunda vítima da histeria coletiva que tomou a cidade.

21 comentários:

  1. Eu simplesmente AMO como seus contos se montam perfeitamente na minha imaginação. Tu nos transporta diretamente pra sua história, Lari.
    Acho que até mesmo senti um pouco de medo da assombração. Vou me assegurar de trancar bem as fechaduras essa noite.

    um beijo,
    acid-baby.blogspot.com

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    1. Fico muito, muito contente por saber disso 💕

      p.s.: tranque mesmo 😆

      Beijos, Ana!

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  2. Tu põe tanta alma nos teus personagens, que o conto até me parece real.
    Saudações e uma boa semana.

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    1. Haha! Obrigada 😉

      Uma semana excelente para você, Carlos!

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  3. Você precisa publicar Lari, mesmo!
    Só o jeito de você começar teus textos já cativa a gente, já chama pra continuar lendo e não é só nesse, mas em todos!

    Abraço!

    cotidiano-alternativo.blogspot.com.br

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    1. Obrigadíssima, Fernanda! Esse apoio é tão importante para mim! Se algum dia eu resolver publicar algum livro, lembrarei de você 😊

      Abraços 😘

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  4. Lari, que isssssooooo? MEO DEEEEOOOS!
    Eu preciso lhe repetir, você é uma das minhas maiores inspirações. Eu terminei esse conto com um arrepio, e dizendo (alto), com a mão da cabeça "VELHOOOO QUE ISSSOOO". Só pra constar estou em um local público! Kkkkkkkkkkkkk. MUITO BOM. OBRIGADO POR ESSE CONTO!

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    1. Aaaaaah, OBRIGADA POR ESSE COMENTÁRIO, haha 😍

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  5. que conto maravilhoso guria! continue escrevendo, tua escrita inspira e traz uma sensação linda dentro de quem lê

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  6. Larissa eu amei seu conto! Pela maneira como interpretei ele não é apenas um mero conto de horror, pode sim causar uma reflexão acerca de como nós podemos ser vítimas de nossas próprias loucuras, até o mais simplório dos homens.
    Todos nós temos o nosso próprio Travestido louco, todos nós somos culpados.
    notas-poeticas.blogspot.com

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    1. Comentário maravilhoso, Lua de Carmim! Muito obrigada por ele 💕

      Abraços! Ótimo feriado para você 😘

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  7. a sua capacidade de escrever algo intenso é absurdamente linda!

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  8. Vou comentar de novo porque merece. AAAAAAAAAAAAA isso é mágico.

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    1. Haha, muuuuuuuito obrigada, Douglas 💙

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  9. Maravilhoso, querida!
    Algumas vezes, nós mesmos nos transformamos em nossos piores inimigos.

    Beijão!
    Blog: *** Caos ***

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    1. Pois é, Helena 😐

      Muito obrigada,viu? 💕

      Beijos!

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  10. Hahaha Muito bom e criativo, Lari. Uma bela sátira sobre como nascem superstições e medos exagerados.

    Parabéns, adorei!

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    1. Muito obrigada mesmo, Vitor!

      Abraços e bom fim de semana para você!

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