Lamas de Mariana

Não há peito que aguente barrar tanta sujeira...

Minhas feridas mal fechadas
com lama mal coagulada
denunciam o dia em que minha pele cedeu.
Minha dor,
livre e rápida,
densa e ávida,
de vingativa, me encobriu.
E de ver meu corpo tão sujo,
de ver minhas memórias tão sujas,
de ver minha história tão suja,
eu quis chorar meus peixes pútridos
dentre minhas lágrimas tóxicas.

Não houve alívio em lavar com lama
minha alma de tantas almas sujas de lama.

Não houve alívio,
bem o sabem minhas feridas mal fechadas,
minhas almas mal lavadas.

12 comentários:

  1. Que, ao que urge o que nos unta
    Urgir que junta e em nós viceja
    Do que nos sua e suja surja
    Da vida um vir que sol nos seja
    GK

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    1. Obrigada pela visita, Gugu! Abraços!

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  2. Há tempos não lia um poema tão bem escrito em termos de conteúdo e de estética. ♥ Lembrou-me o poeta Augusto dos Anjos que, assim como você, transformava a putrefação em arte.
    Gostei bastante do que li e da intensidade que as suas palavras me provocaram.

    Beijos,

    Algumas Observações

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    1. Muito obrigada mesmo pelo que disse, Fernanda!

      Beijos e uma ótima semana para você!

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  3. Amei a tua escrita nesses versos <3
    Que sejas lavada, pelas águas do Espírito Santo ♡

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  4. Dores que fazem você se desdobrar em poesia pura <3

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  5. Oie Lari. ♥. Eu li seu poema no mesmo dia em que tinha postado, mas estava na academia se não me engano e acabei esquecendo de deixar meus pensamentos pra você. Mas cá estou eu. Simplesmente brilhante. Essa semana na minha universidade tivemos uma semana de palestra do "II Seminário do Rio Doce", pra justamente tratar o desastre da Samarco, seus dois anos e a repercussão jurídica disto. Vieram professores de universidades de todo o país, e inclusive um lá do Texas. O evento foi excelente. E ainda por cima, minha Companhia de Teatro foi convidada pra fazer uma apresentação. Não sei se você sabe, mas faço teatro. E desde o ano passado, minha Companhia desenvolveu um espetáculo chamado "Na Proa da Canoa", onde falamos sobre a história da nossa cidade, uma das principais afetadas pelo desastre aqui em Minas, e falamos também... do desastre, é claro! Enfim, gostei muito do seu poema, e queria lhe contar essas coisas! uahushaus.

    www.acessopermitido.com

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    1. Muito obrigada mesmo por me contar, gosto tanto quando compartilham experiências comigo! E achei lindo isso de sua companhia de teatro performar sobre as consequência do desastre — afinal, é preciso relembrar, é preciso relembrar sempre; a dimensão disso tudo não pode se espremer para caber no esquecimento, ainda que tenha conseguido caber na impunidade.

      Sua presença por aqui é sempre maravilhosa, Elcimar! Obrigadíssima 💗

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  6. Oi Lari, gostei muito deste poema, mas me pareceu meio triste, espero que se eu estiver correta, e este for um poema triste, que ele faça parte da sua realidade!
    Abraço!

    https://cotidiano-alternativo.blogspot.com.br

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    1. É um poema que faz referência ao desastre que ocorreu há dois anos em Mariana, então... sim, é triste.

      Obrigada, Fernanda!

      Abraços!

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