Carta aberta

Venho por meio do Sr. Médium Alexandre Figueira, cidadão honesto, honrado e trabalhador, que tão prontamente se dispõe a estender a mão às almas amigas, esclarecer o que realmente aconteceu na triste quarta-feira em que morri.

Em primeiro lugar, não: eu não estava indo me encontrar com o Sr. Mauro Telheiros. Quando entrei no carro naquela triste, fatídica noite de quarta-feira, minha intenção era simplesmente visitar minha filha Eduarda. Se o carro estava num dos possíveis caminhos para a casa do Sr. Telheiros, foi por um simples equívoco já confirmado por meu então motorista, equívoco esse que certos colegas de profissão, além de um ou outro jornalista pouco sério, têm todos, numa leviandade impressionante, num mau-caratismo exacerbado, usado descaradamente contra mim.

Em segundo lugar, em momento nenhum em minha ligação ao Sr. Telheiros, anterior ao meu falecimento, pedi dinheiro a ele. A própria ligação foi uma casualidade, uma coincidência infeliz que os já mencionados “profissionais” (e eu friso bem ironicamente a palavra, pois não creio que hajam de boa fé e com responsabilidade em suas profissões) também têm usado contra mim. A menção a “alívio” na ligação se referia simplesmente ao meu estado de espírito: eu precisava de um alívio no sentido de que precisava desabafar, e o Sr. Telheiros me veio à mente como alguém que poderia, como bom amigo, me ouvir e aconselhar. Se usei a expressão “alívio de dois milhões”, “dois milhões” não se referia a dinheiro, e sim a anos. A expressão foi usada hiperbolicamente, e eu quis dizer, nada mais, nada menos, que só em dois milhões de anos eu encontraria a paz de que precisava.

Pois bem. A ligação foi curta, mas estando meu bom amigo visivelmente ocupado, e talvez com a alma tão atribulada quanto a minha — dada toda a pressão maléfica que injustamente vem sendo exercida sobre nós, e que inclusive fez com que meu coração tão precocemente parasse de funcionar —, resolvi, ainda que tivesse dito que iria encontrá-lo, ir procurar minha filha. Pensei que ela poderia me entender melhor naquele momento, e teria sido um prazer enorme conversar com ela, se não fosse o que aconteceu.

Dito isso, peço sossego aos que têm se empenhado tanto em difamar um morto. Não terei descanso enquanto minha família, que precisa de consolo e compreensão neste momento tão difícil, ainda tiver que sofrer as atribulações de uma investigação injusta.

A todos os brasileiros que confiam na veracidade das minhas palavras e acreditam num Brasil cada vez melhor, desejo uma boa noite.

Atenciosamente,
Álvaro Sardanha Filho

15 comentários:

  1. Como seria diferente a história do mundo se os mortos falassem...
    GK

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    1. Mas talvez só trouxessem mais mentiras 😶

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  2. "Alívio de dois milhões" foi ótima hahaha Se acreditam nisso com a pessoa viva, imagina com ela morta.

    Muito criativo o formato de carta do texto.

    Adorei, Lari.

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  3. Lari. Você é maravilhosa demais! Conseguir transportar a gente pra um outro universo tão facilmente é um talento nato. Enfim, eu simplesmente adorei. Fiquei me questionando a probabilidade e (utilidade) de se poder, depois de morto, escrever àqueles que ficaram. Resolveríamos muitos infortunos, como o do caso do senhor Álvaro. Imagine só? O que eu escreveria? uhehehehe. Adorei. Espero que Eduarda se recure logo. Investigações criminais são desprezíveis. Palavras de acadêmico de Direito.

    www.acessopermitido.com

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    1. Hahaha! Muito obrigada mesmo, Elcimar 💗💗

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  4. Oi Lari!
    Você tem o dom de escrever textos gostosos de se ler, textos de forma que só os brasileiros escrevem, sua escrita me lembra muito autores clássicos brasileiro.
    Gostei desta forma da escrita em carta.
    Abraço!

    http://cotidiano-alternativo.blogspot.com.br

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    1. Agradeço muito a você, Fernanda 💗

      Beijos e bom feriado!

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  5. Lari,

    De cara já lembrei das Memórias Póstumas, de Machado. Não sei se te serviu de inspiração ou ponto de partida, mas foi realmente incrível a sua maneira de se reinventar dessa forma.

    A crítica embutida no texto me deixou tão feliz por perceber o quanto você consegue expor de um jeito que, não importa o momento em que fizermos a leitura dessas palavras, elas serão sempre atuais.

    Você não deixa nunca de surpreender. E de ser assim, maravilhosa a cada novo post. Eu sempre elogio, mas é que fico besta demais ao notar tamanha maturidade para a escrita em alguém assim tão jovem. Muito orgulho!

    Um beijo.

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    1. Gratíssima pela sua gentileza sem tamanho! Muito, muito obrigada!

      Beijos, Jaya 💗

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  6. Deveras especial o jeito como escreve. Você é uma grande escritora. Falo isso com todo o carinho do meu peito.

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    1. Obrigada demais, Douglas 💗💗

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  7. suas palavras nos transportam pra um mundo único. obrigada.

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    1. Eu que agradeço (muito) a você 😊😘

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