Rios Gerais TV

Para além do som da água enchendo os copos, do tilintar dos talheres, do pote de detergente sendo espremido e do esfregar da esponja nos fundos pretejados das panelas, a vinheta do jornal. A mulher largou a louça e foi a passinhos curtos e rápidos para a sala, secando as mãos num pano de prato durante o percurso. 

Chegou e jogou o traseiro grande sobre o sofá. Ao lado, o marido mantinha os olhos fixos na TV.

A notícia que aguardavam foi a primeira a ser exibida: o avistamento de um objeto voador não identificado numa fazenda não muito longe de onde moravam. A repórter esticou o braço mostrando as pastagens sobre as quais a coisa fora vista, e, em seguida, virou-se apontando a casa do casal que a vira.

— A lá a casa do Tonho.

O homem fez um gesto impaciente com a cabeça, como que pedindo silêncio.

“Estes aqui são o Seu Antônio Xavier e a Dona Maria da Conceição Xavier, o casal que fotografou o OVNI que tem dado tanto o que falar. Seu Antônio, Dona Maria, contem pra gente: como é que surgiu essa foto, heim?”

“Bom, eu tava do lado de fora da cozinha, né, tomano um café antes de voltá pro trabalho, e quando vê aquela coisa estranha no céu. Fiquei olhano aquilo, não era avião, não era balão... Daí chamei a mulher: ‘Corre, Maria! Corre aqui e traz teu celular!’ Ela veio toda afobada e já deu com o olho direto na coisa, e aí ficou toda assustada. Eu disse: ‘Tira foto! Tira foto!’, e ela tudo tremeno apontou o celular na direção da coisa. Foi preciso várias tentativa, mas aí saiu a foto que, né, tá intrigano todo mundo que nem intrigou nóis.”

“Seu Antônio, o senhor disse que foram necessárias várias tentativas até que vocês conseguissem fotografar o OVNI; por que isso? O objeto estava mexendo muito no céu... O que aconteceu?”

“Não, o negócio tava bem paradinho lá em cima. O problema é que a gente custa pra mexê nesses celular mesmo”

“Ah, sim. E por quanto tempo o OVNI ficou no céu?”

“A tarde inteira, né, Maria? Estacionou lá em cima e ficou.”

“E vocês não chamaram ninguém pra ver?”

“A gente tava sem crédito, né, pra ligá. E a gente também tava muito admirado pra tirá o olho dali e i fazê qualquer coisa.”

“Com certeza. Dona Maria, você pode mostrar pra gente as outras fotos que tirou do OVNI?”

Na TV, a senhorinha mexia no celular tentando encontrar as fotografias requeridas. Como se enrolava um pouco e a cena ia ficando entediante, a telespectadora desviou os olhos da tela e os jogou distraidamente para a janela da sala.

Deu um pulo do sofá. Correu para o parapeito.

— Tiago! Tiago, corre aqui agora!

Logo o homem surgiu, embasbacado, ao lado dela: via o que ela via. Um grande objeto azul escuro estacionara silenciosamente ali perto.

— Pega o celular, Tiago! Vamo tirá uma foto!

— Fala baixo, mulher! — advertiu o marido num sussurro nervoso. — Nóis nem sabe o que que é esse trem!

— Por isso memo, seu tonto! A gente tira foto e depois manda pro jornal!

Posto que o homem não arredou o pé do lugar, ela mesma, com uma bufada, foi buscá-lo.

— Tá sem bateria essa merda! — gritou do outro cômodo.

Quando voltou à sala, a coisa já tinha sumido. Logo notou: o marido também.

No exato momento daquela percepção, veio da TV um chiado intenso. A mulher se virou naquela direção. Ficou uns segundos parada, um tanto desnorteada com o avistamento recente, com o recente sumiço do esposo e o mais recente ainda pifamento da TV. Voltando um pouco a si, achou sábio desligar o aparelho para poder se concentrar nos próprios pensamentos. Ia fazê-lo, mas aí a televisão também voltou aos eixos e exibiu o mais surpreendente de tudo: seu marido. Seu marido, com os olhos vermelhos de choro dando uma entrevista ao mesmo noticiário ao qual, antes da absurdidade estacionada no quintal ser notada, ambos assistiam.

Com a voz meio monótona, ele ia narrando à repórter:

“Tava eu e a Doroteia assistino o jornal, na parte que falava dos ET que uns conhecido nosso viru no céu, aí a Teia, que é meio desassossegada, foi na janela e viu aquele negócio esquisito parado no nosso quintal. Aí ela me chamou, eu fui, ela invocou que queria batê foto. Foi buscá o celular, mas depois que ela saiu da sala não ouvi mais nada. Achei estranho, a mulher gosta de falá, fala até sozinha. Esperei uns minuto e fui atrás dela, mas ela já tinha sumido.”

— Que sumido o quê, seu tonto! — a mulher exclamou consigo mesma. — Tô aqui! — Então gritou mais alto: — TÔ AQUI! TÔ AQUI! TIAGO! TIAAAAAAAAAAAAGO! TÔ AQUIIIIIIIIIIIII!

Enquanto tentava anunciar a própria presença, corria até o quintal. Ninguém ali. Nem mesmo as vacas, que costumavam deitar no curral àquela hora enquanto ruminavam, estavam ali.

Voltou à sala. Seu marido, ainda na tela. Foi então que deu por si que, não bastasse aquela entrevista estar ocorrendo em sua própria fazenda, ainda era ao vivo.

Correu outra vez lá fora. Correu circundando a casa. Correu até o curral, correu pelo pasto, correu através da plantação de abobrinhas. Correu pelas estradas. Correu o quanto podia pelas estradas.

Nada. Ninguém.

12 comentários:

  1. E assim seguimos, Objetos Voláteis Náufragos no Infinito.
    GK

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    1. Ah, adorei a ressignificação da sigla 😊

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    1. 😊

      Beijos e boa semana para você!

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  3. AAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAAA
    S O C O R R O! Genteeee, tô com dó da Téia! Alguém tira ela de lá?
    Façam contato com eles, e salvem-na! SOS. SOS. SOS. SOS.

    Lari, eu chego a te amar por esses contos!

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    1. Hahaha' e eu chego a te amar por esses comentários 💗💗

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  4. Me envolvi tanto, que depois do nada pensei:"mudou de dimensão ... SÓ PODE!"
    Mais um ótimo momento meu graças ao teu talento.
    Saudações e boa semana.

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    1. Haha' muitíssimo obrigada, Carlos 😊

      Abraços! Tenha uma semana ótima!

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  5. gente, tadinha da muié, alguém ajuda ela!

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  6. Sinto um misto insano de medo e curiosidade com esses assuntos, haha. Sensacional como sempre, Lari! <3

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    1. Muito obrigada, Natália <3 <3 <3

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