“Talvez seja tudo uma ilusão”

A ideia veio aleatória enquanto enxaguava os pratos do almoço: “Talvez seja tudo uma ilusão”. Não veio com o sentido corriqueiro, como a frase na boca dos apaixonados ou a desculpa no cerne dos temerosos; veio como uma conclusão, ainda que o “talvez” pouco tenha de conclusivo.

Sem terminar de secar a pia, foi até o banheiro. Fechou-se. Não havia mais ninguém na casa e, se trancou a porta, também não foi pela força do hábito ─ era uma questão de segurança. Ele tinha um entendimento em mente que mudaria tudo, e isso o colocava em um perigo extraordinário. Ainda que os fatos lhe estivessem pouco claros, ele sabia o que significava ser tudo uma ilusão... E eles não poderiam saber que ele sabia.

Não que também soubesse quem eram eles. Temia-os, de qualquer modo. Salas escuras, salas cirúrgicas, salas de tortura. Os flashbacks vinham à sua cabeça. Admitia que talvez não fossem flashbacks; poderiam ser apenas cenas de filmes de suspense e ficção científica que vinham à tona por associação. Mas... qual fora a associação primordial? A sentença “Talvez seja tudo uma ilusão” viera-lhe pura e fatalista. Não tinha certeza sobre o que estava pensando antes daquele momento ─ se nos boletos a pagar, se no bolor acumulado na parede acima da pia, se na conversa melada dos namorados no apartamento de cima ─, mas não era nada existencial.

Olhou-se no espelho. Os olhos verdes, o cabelo curto e crespo louro arruivado, as bochechas proeminentes. O mesmo cara com seus mesmos 25 anos. E tudo uma ilusão.

Piscou algumas vezes, passou a mão no rosto, lavou-o. A água gelada não surtiu o efeito animador que ele esperava. Fechada a torneira, o que ecoou pelo apartamento foi apenas a risada da garota do apartamento de cima. Ela e seu namorado... Ilusões. O banheiro... Ilusão... O prédio inteiro... Ilusão.

Sentia que não podia pensar nisso tão fixamente; se assim o fizesse, eles descobririam.

E se descobrissem? Iriam tirá-lo dali? Iriam levá-lo para as salas escuras, cirúrgicas ou de tortura (se é que não eram todas uma só) que vira em seus pensamentos?

Saiu do banheiro ilusório, pegou suas chaves ilusórias com seu tinir ilusório e foi para a rua ilusória com seu corpo ilusório.

Caminhou rápido, cansando as pernas mas também o cérebro ao tentar pensar em qualquer outra coisa. Não podia. Não conseguia. 

Olhou ao redor, a grande mentira que era o redor. 

Como pudera se deixar enganar por tanto tempo? Como, como, como, como...?

Agarrou a cabeça com força e fechou os olhos do mesmo modo. Quando os abriu, disparou a correr.

Correu pelo passeio, correu pela rua, correu dentre os carros. Correu dentre buzinas. Tantas buzinas. O som era infernal, mas ele sabia que não passava de mais uma das artimanhas deles. Queriam desorientá-lo, estavam brincando com ele, brincando...

De todas as ilusões, uma buzina alta e prolongada foi a última que o atormentou.

14 comentários:

  1. Belíssimo e instigante! Adoro esse teu estilo!
    GK

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    1. Muito obrigada mesmo 😊 Sempre ótimo ler elogios seus!

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  2. Que sinestésico! Senti-me atormentada junto com o protagonista. Você é foda, Lari!

    um beijo,
    acid-baby.blogspot.com

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    1. Valeu demais, Ana 😆💗

      Beijos!

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  3. Aaah Lari. Nem sei o que dizer. VOCÊ É FODAAAAA. AAAAAAAAAAAAAAA!
    Perfeito. Isso daria um Espetáculo! ♥

    www.acessopermitido.com ♥

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    1. Obrigadíssima, Elcimar! Sempre gentil 💗

      Beijos e uma semana bem bonita para você!

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  4. Me senti o personagem, só não morri por o meu instinto me fez pular antes ... Tu é uma magia.

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    1. Muito obrigada, Carlos! Mesmo 😊

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  5. Por favor, alguém transforma isso num filme!

    Larissa, dá pra imaginar cada imagem, empolgante.

    Como sempre, adorei.

    Abração e até já.

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    1. Ah, muito obrigada por esse comentário 😍

      Abraços! E um fim de semana maravilhoso para você!

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  6. Instigante e muito bem escrito. Um dos seus melhores textos! Incrível! Me senti desnorteado e angustiado como o protagonista!

    Beijos, Lari!

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    1. Valeu muito, muito mesmo, Vitor 😊💗

      Beijos!

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