O cão de Abraão

Mais um gole de chá e depois a xícara batendo no pires. Uma pausa para que o líquido descesse lento e quente pela garganta, e para considerar como faria aquela pergunta.

─ Mãe... E o Abraão?

A mulher mais velha parou a mão que segurava uma bolacha a meio caminho da boca. Estudou os olhos da filha, a expressão preocupada da filha... Era uma moça bonita, robusta e loura como fora o pai, falecido havia muito. O irmão, moreno e crespo, é que lhe puxara mais. Bonito também. Moços os dois, crescidos e independentes.

─ Mãe...?

─ Tá bem. O Abraão tá bem, graças a Deus. ─ respondeu sorrindo e finalmente levando o alimento à boca. Mastigando devagar, então.

─ Ele... Ele ainda tem falado do cachorro?

A outra terminou de mastigar. Engoliu.

─ Tem, minha filha. Cê sabe, nessa casa sou eu, o Abraão e o cão do Abraão.

─ Não é o caso de a senhora levar ele no médico, mãe?

─ Já foi já, minha filha. Isso aí é a idade. Quanto mais velho ele for ficando, mais lelé da cuca. Mas ultimamente não tô nem importando mais. No começo eu ficava com medo, depois fui perdendo a paciência... Mas não adianta. Hoje em dia até finjo que esse cachorro existe mesmo. Dia desses até senti ele passando no meio dos meus pé.

─ Credo, mãe!

─ Verdade, fia. Pra piorar, na hora que ele tava passando o Abraão falou “Marlo! Marlo! Volta aqui! Não incomoda a Matê que ela não gosta de cachorro!”

─ Credo... Mas, mãe, cê sabe de onde ele tirou essa história de cachorro?

─ Eu imagino que seja coisa do passado dele. Ele tem voltado muito no passado... Quando a gente começou a morar junto, eu lembro dele contar que o pai e o irmão dele caçava... Ele era novinho ainda, nove ou dez ano, mas ia junto. Daí tinha esse cachorro chamado Marlo. Eu até perguntei de onde eles tiraram esse nome esquisito pra dar pro cachorro, “Marlo”, aí ele riu e falou que era por causa do Marlon Brando. Que o pai achava bonito esse nome, achava chique.

─ Ele contou o que aconteceu com o cachorro?

─ Contou. Um dia o pai dele foi caçar meio bêbado, tava só ele e o cachorro, aí não sei o que o cachorro fez que ele irritou e “pum!”, deu um tiro bem na cabeça do bicho.

Que horror! Como é que tem coragem?!

─ É, minha fia... O povo do mais antigo era ruim que só vendo...

─ E o Abraão? Parou de beber?

─ Parou, graças a Deus. Parou tem um tempo já... Uns sete mês. Engraçado é que foi ele parar de beber pra começar a falar desse maldito cachorro. Tava nós dois na cozinha almoçando, do nada ele olha pra porta, dá um sorriso e fala “Olha quem voltou!”, aí começou a estalar os dedo e a chamar “Vem! Vem!” Cê imagina o jeito que eu fiquei...

─ Credo. Imagino. Olha eu, tô toda arrepiada...

─ No começo eu achava que era o coisa ruim, mas depois fui entendendo que é coisa da cabeça dele... E nem é só o cachorro não... Outro dia ele contou que o Odair veio perguntar de mim.

─ Até meu pai ele bota no meio dessa história?

─ Pois é. Tem ciúme dum morto.

Naquele momento, chegou à cozinha o alvo do assunto. Grande, grisalho, meio curvado. Lançou um cumprimento de cabeça à filha da companheira.

─ Bom, Abraão?

Com outro meneio, ele confirmou que estava tudo bem. Então abriu um sorriso, olhou para os pés da moça e disse:

─ Aí, tá fazendo festa pro cê.

Respondendo ao olhar confuso que lhe foi lançado, a mãe disse:

─ O Marlo, Cristina. Ele tá falando do Marlo.

A moça ficou lívida na cadeira.

─ Não precisa ter medo que ele é bonzinho. Não vai fazer nada pro cê ─ acalmou-a Abraão.

Cristina deu um sorriso trêmulo. Deu também uma desculpa para levantar e sair. Nunca ia embora sem antes lavar a própria xícara e dar um abraço na mãe, mas parecia perturbada demais para qualquer uma dessas ações.

À sua saída, Abraão sentou-se onde a enteada estivera sentada. Serviu-se de chá na mesma xícara em que a outra tomara, cortou uma fatia de rosca, deu uma mordida e jogou outro pedaço no chão. Maria Teresa já não se importava tanto mais com as baboseiras do parceiro, mas aquela mania dele de sempre jogar algo no chão para o cachorro comer a irritava profundamente. Um desperdício de comida, e era ela, depois, quem tinha de limpar a sujeira.

Dizer que não havia cachorro para comer as migalhas era comprar briga com o velho, então preferiu dizer:

─ Cachorro tem que comer é ração.

Ele a encarou, assustado.

─ De que cachorro você tá falando, mulher?

Ela respirou fundo. Já se acostumara àquilo. Afastou a cadeira, levantou-se, foi lavar a própria xícara.

12 comentários:

  1. Que conto maravilhoso, me despertou boas memórias passadas.

    Beijos,

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    1. Muito obrigada, Jean! Feliz pelo efeito que o conto causou a você 😊

      Beijos!

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  2. Só há cura se se a procura na sã loucura da parte escura.
    GK

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    1. Complexo, haha! Adorei.

      Abraços, Gugu!

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  3. Seus contos são uma mistura de humor peculiar e reflexões igualmente peculiares acerca da vida. Acho muito bom mesmo. Continue!
    notas-poeticas.blogspot.com

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    1. Muito obrigada por esse incentivo lindo 💗

      Tenha um fim de semana tão lindo quanto!

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  4. Como sempre você me surpreende! ♥. Ótima crônica, a aflição em participar da cena como expectador é companheira da leitura do início ao fim!

    www.acessopermitido.com

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  5. Anônimo3/3/18

    Essa foi para os que sofrem de demência ( alguma), tu é uma criadora de possibilidades, portanto és quântica e o cosmos e eu, te agradecemos.
    Abraço de coração e de mente ...

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    1. Agradeço muito a você também, e desejo-lhe uma semana maravilhosa!

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  6. Devo admitir que dei uma risada, mas um tanto trêmula de medo ahah Maravilhoso como sempre, Lari! Adoro muito teus contos. Lembrei-me de uma cena do filme "Ilha do Medo".

    um beijo,
    acid-baby.blogspot.com

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    1. Obrigada, Ana 💗💗 Já assisti a esse filme, é tão bom, né?

      Beijos!

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