Desenho

Eu não dava nada por ele: mocinho franzino das pernas finas, da pele tão branca que apareciam veias em inúmeros lugares, dos cabelos sempre meio opacos de sujeira. Posto que não éramos próximos, também não havia como eu sentir alguma atração por sua personalidade. Nem ele mostrava interesse por mim... Não me via ou fazia que não me via. Olhava muito para baixo ou muito para cima, nunca na altura certa para vislumbrar algum rosto. Chamavam-no de esquisito; se ouvia, era impassivelmente, como se não associasse a palavra à ofensa.

Os anos se passaram. Ele continuava sendo um cara retraído e distraído, mas as mudanças físicas eram notáveis: o estirão o deixara mais alto e mais forte, ainda que continuasse magro, o cabelo recebera melhores cuidados e, por ser escuro, fazia um contraste bonito com a pele muito clara. Tinha um ar misterioso que continuava me impedindo de ter qualquer ideia sobre seus defeitos e qualidades. Assim, observando-o ao longe, eu lhe atribuía as características morais que bem entendesse e imaginava mil diálogos que, por acaso, pudéssemos vir a ter.

Eu estava apaixonada, e foi justamente quando cheguei a essa conclusão que ele, para surpresa geral, apareceu na escola de mãos dadas com uma loirinha de olhos claros. Ainda nessa ocasião, para aumentar minha perplexidade, ele começou a me notar. Lançava-me olhares demorados e curiosos, mesmo quando estava em companhia da namorada, e, como num passe de mágica, começou a se materializar nos lugares que eu frequentava. 

Certa vez, quando eu estava no lado leste do pátio e ele também, reparei que desenhava. Qual não foi meu espanto quando, ao passar por detrás dele, vi que desenhava a mim! Seu traçado, que era como o de um profissional, me retratava numa floresta absurda: as copas se amontoavam no chão, com suas ramagens em diferentes tons de azul, e as raízes se estendiam em direção ao céu crepuscular. Minha versão desenhada parecia completamente à vontade naquele cenário onírico. E ele, como se ouvisse meus pensamentos, confirmou:

─ Você está. Você está completamente, absolutamente, perfeitamente à vontade ali. É o seu lugar.

Finalizando sua fala, sinistra por si só e ainda mais sinistra naquela voz quase sussurrada, virou o pescoço em minha direção e me olhou fixamente.

Aquele olhar me deixou desnorteada... Tragou-me num átimo e, no mesmo instante ─ que me pareceu infinito ─, todo o pátio sumiu. Vi-me junto às copas azuis, sob as raízes negras do bosque invertido que, naturalmente, não podiam oscilar junto à brisa que ali soprava regularmente... Tão regularmente quanto uma respiração.

Já havia decorrido sabe-se lá quanto tempo quando despertei na enfermaria. Segundo o que me disse a enfermeira, eu havia desmaiado. A mulher ralhou comigo, dizendo que, se eu ficasse tanto tempo sem comer, algo pior poderia suceder a mim. Não entendi o que ela quis dizer, nem me esforcei muito para tal. Dali para o pátio, meu único objetivo era encontrar o garoto que, aparentemente e de alguma forma, me raptara.

Encontrei-o rápido. Estava agora junto à namorada, caminhando com ela rumo às salas de aula. Não tive coragem de abordá-lo diretamente e, por mais que eu tentasse me fazer notar, apenas a menina, enciumada, me percebeu.

Nos dias seguintes, ficou claro que ele passara a me ignorar. Mesmo. Totalmente. Mantinha distância de mim e jamais olhava em minha direção.

Na sexta-feira, ao chegar em casa, vislumbrei um papel sobre minha cama: era o desenho do bosque invertido. Minha imagem ali era tão real que parecia uma fotografia, e a paisagem era a reprodução mais vívida que alguém já concebeu de um sonho. O mais interessante era que, no canto inferior direito da folha, havia uma assinatura minha. Lancei o olhar à escrivaninha: inúmeros lápis de cor espalhados ali. Ao que tudo indicava, eu havia feito aquela obra. Ou, ao menos, era preciso que eu cresse que assim o era.

Tremendo de medo, rasguei o desenho e joguei-o fora. Como, como me arrependo dessa atitude...! Fosse aquilo uma pista ou um enigma em si mesmo, não era algo a ser dispensado como nada.

Na segunda-feira, o garoto misterioso não estava na escola. Nem na terça, nem na quarta, nem nunca mais.

Também não vi mais a menina loira, a não ser muitos anos depois, quando calhou de sermos colegas de escritório. Ficamos até amigas. Com a maior intimidade, permiti-me, um dia, perguntar o que fora feito daquele que ela namorara nos tempos da escola. Ela me encarou e encolheu os ombros como quem diz “não sei”, e foi tudo. 

E é tudo.

14 comentários:

  1. O que é viver se não um constante jogo de sedução?
    GK

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    1. Eu não saberia achar definição melhor 😊

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  2. Aaaa eu adorei ler *-* mas... então tudo foi um sonho o.O?

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    1. Talvez nem a própria narradora o saiba... Um caso estranho, não?

      Abraços, Geógia 😘

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  3. a imagem que a leitura foi criando na minha mente foi lindo demais, e um pouco creepy, mas eu adorei.
    parabéns de novo pela escrita, lari <3

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    1. Muito, muito obrigada, xará 💕

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  4. lembrei de uma frase de echoes do pink floyd: I am you and what I see is me
    que saudade de ler textos assim! não sei onde encontrar aos montes. personagens rápiods e profundos, sem nem sabermos os nomes. parecem aquelas pessoas amigas que damos bom dia e nunca mais vemos.
    quase materializei o desenho, se soubesse desenhar com detalhes, tentaria!

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    1. Adicionar uma referência ao Pink Floyd ao conto: ah, que linda 💗

      Fiquei super contente com seu comentário e vou aproveitar para convidá-la a ler outros textos da coletânea "Contos de descômodo", cujo link é este aqui: http://www.asmoscasnajanela.com/p/contos-de-descomodo.html

      Ah, e caso resolva desenhar o bosque, não deixe de me mostrar 😉

      Abraço enorme e uma ótima semana para você 😊

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  5. obrigada! vou dar uma olhada no link, pode deixar. obrigada e bom final de semana haha

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  6. Estou fazendo um tour pelo seu blog Lari, e sinceramente, estou apaixonada por tudo que li e vi aqui.

    Beijinhos <3

    letologia.blogspot.com.br

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    1. Muitíssimo obrigada pela visita e comentário lindos, Eva! Sinta-se à vontade neste cantinho 😊

      Beijos e um fim de semana bem bonito pra tu 💕

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  7. Olá Larissa,

    Que delícia acompanhar seus contos. Arrebatadores sempre. Me inspiram as múltiplas temáticas, abordagens delicadas, construções sedutoras e finais elegantes.
    "Desenho" me pegou desprevenido, passarei muito tempo imaginando paradeiros para o tal garoto e possibilidades para entender o contexto do "affair". Adorei!

    Beijos e até a próxima!

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    1. Oi, Dave! Boa-noite!

      Gratíssima pela visita e feedback, sempre MUITO incentivador ler comentários assim! A vontade que dá é de escrever outro conto agora mesmo 😊

      Beijos, até a próxima e, até lá, tudo de bom para você 💙

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