O bom filho

Antes que o carro parasse já tinha uma das alças da mochila no ombro. Sentiu a mão da mãe no pescoço, prestes a puxar-lhe para um beijo, mas foi mais ágil. Num átimo abrira a porta e pulara para o meio-fio.

Os pés eram grandes demais. Pés enormes. Por isso era preciso olhar bem para eles, vigiar-lhes o ritmo e o rumo para que não o derrubassem. Só assim é que sabia andar: como se fugisse de algo e, ao mesmo tempo, cuidando para não cair. Se caísse na frente de todo mundo, aí sim, nunca mais voltava.

... Por que voltava?

Porque a mãe o trazia. Porque não se largavam os estudos assim. Porque era preciso ser alguém.

Mas essas eram coisas que o forçavam... Queria saber o porquê ─ por que não contrariava a mãe, as leis, as expectativas... Por que voltava?

Era bom em ciências, muito bom. Teria preferido ser bom nos esportes ou com garotas, mas calhou de só conseguir se destacar no que fazia dele um nerd. Isso e os óculos estranhos, os gostos estranhos, o jeito estranho. O estereótipo perfeito.

Para além das aulas no laboratório, havia Sacha. Sacha não era bonita nem feia, nem especialmente interessante, mas foi gentil com ele algumas vezes e isso a tornou especial. Gostava de pensar nela. Gostava de pensar que poderia gostar dela.

A justificativa era outra, contudo. Não se baseava em preferências acadêmicas ou sentimentalismos bestas. O grande porquê se enterrava numa camada bem mais profunda do seu ser, como um instinto, como algo primitivo gravado em seus genes. Como um sonho que não foi de fato sonhado, e que intriga tanto que, para desvendá-lo, lembranças absurdas são reviradas. Lembranças que não são nem lembranças. E com elas vêm os vermes. Brancos. Enormes.

Aquilo... Sonhara ou não sonhara? Acontecera mesmo? Mas por que parecia um sonho? Mas por que, se fora um sonho, parecia verdadeiro?

Sonho não... Pesadelo. Lembranças e não-lembranças. Vermes brancos. Enormes.

Brancos e enormes eram os tênis que os olhos voltaram a focalizar. Um deles tinha a ponta suja; andara chutando a terra enquanto se perdia em pensamentos. Nem percebera que parara. Nem percebera que chutara a terra. Que cavara, com o pé, uma cova do seu tamanho. E ninguém ao redor. Ninguém. Ninguém. Ninguém.

A mãe já fora embora e não viria buscá-lo. Nada de beijos na bochecha. Nada de ciências e de Sacha.

Noite fechada, escola deserta. Por que voltara? Por que sempre voltava?

Nenhum comentário:

Postar um comentário