Leonam

Era a madrugada que virava o dia 24 para o 25 de dezembro.

Um tilintar suave adentrou os ouvidos de Leonam. Guizos. O som estava distante, muito distante de sua consciência que, preguiçosa, deslizava em corredores de sono e sonho. Mas então foi aumentando... Aumentando... Aumentando até puxá-la de volta de maneira incômoda, fazendo com que o garoto, sem abrir os olhos, exclamasse zangado:

— Se ocê não parar com essa bosta, juro que levanto daqui e te pego, Josias!

Josias era o irmão mais novo de Leonam. Este tinha 15 enquanto aquele tinha 6. Ambos: olhos caramelo, pele morena, cabelo escuro, curto e liso. Josias era mais rechonchudo... Não gordo, só rechonchudo. Já Leonam, bem magro... Culpa do estirão. E do trabalho na olaria. Do futebol costumeiro, da geladeira vazia. (Se sobravam uns trocados para comprar algo mais que o pão parco de cada manhã, comprava um doce para o irmão. Agradava-lhe agradar a Josias porque Josias era quem ele mais amava na vida.)

Em vez de cessar, o tilintar aumentou.

— EU JÁ PEDI PRO CÊ PARAR COM...

Nesse momento, Leonam abriu os olhos, e no que os abriu notou que seu irmão dormia o sétimo sono. 

Nova chacoalhada do guizo; quem quer que o bradava estava perto... Perto demais.

Saltando da cama, foi até a janela e deu uma boa olhada na rua. O poste com defeito, à frente, apagava e tornava a se reacender com frequência, como se quisesse imitar os pisca-piscas coloridos que enfeitavam casas sem cor. Numa esquina, um carro baixo estacionado, na outra, alguns garotos compartilhando um cigarro como se partilhassem a ceia. Mais adiante, a porta estreita do bar projetava uma faixa iluminada no chão e deixava passar o som de pandeiros, violas e vozes alegradas.

Leonam olhou também a cidade, lá embaixo. As luzes que vinham de lá eram maiores em tamanho e quantidade, e uma árvore de Natal gigantesca se projetava, com sua exuberante artificialidade, dentre a floresta de edifícios.

O que o garoto não via era de onde vinha o ruído dos guizos, e, quando estes badalaram mais alto, Josias acordou num suspiro eufórico e falou num sussurro bem audível:

— É o Papai Noel! É o Papai Noel!

Como ainda estava diante à janela e sua expressão não podia ser vista, Leonam fechou os olhos com força e os lábios também. Como explicaria ao caçula que o trenó do Papai Noel não se daria o trabalho de pousar ali, naquele morro feio onde moravam?

— Não, Josias, não é não. Vê se sossega. Volta a dormir.

— É sim, Leo, eu ouvi! Ele tá na porta! A gente tem que ir lá abrir pra ele entrar porque aqui não tem chaminé. A gente tem que ir rápido!

Quando Josias acabou de falar, os dois ouviram o rangido distinto da porta da frente se abrindo e tornando a se fechar. Leonam deu as costas para a janela e lançou o olhar, instintivamente, para a porta do quarto. Esta continuava intacta. Olhou então para Josias que, sustendo o corpo inclinado, parecia prestes a pular da cama e retribuía-lhe um olhar cheio de expectativa inocente.

— É só a mamãe — disse ao caçula. — Eu vou lá ver se ela precisa de alguma coisa. Fica aqui, tá bom?

— Mas a mamãe não tá trabalhando à noite?

— Tá, mas vai ver ela voltou mais cedo por causa de ser Natal. Eu vou lá ver ela.

— Eu também vou!

— NÃO VAI NÃO!

Josias o olhou assustado. Leonam, então, justificou o grito:

— Ela não vai gostar de saber que cê não tá na cama, daí cê sabe que vai sobrar pra mim. Vê se volta a deitar e fica quietinho, cara... Faz essa pra mim.

Josias continuou olhando-o, obrigando-o a completar:

— Faz essa pra mim que amanhã eu te levo pra jogar bola.

— Com você e o Matias?

— Comigo, com o Matias e com os moleque tudo — confirmou Leonam. (Ele sabia que mais tarde se arrependeria da promessa, mas, no momento, ela fora necessária.)

O garotinho abriu um sorriso e concordou. Naquela agitação, dormir não dormiria, mas pelo menos iria se manter comportado. Mais tranquilo em relação a isso, Leonam correu para o criado-mudo, pegou algo na última gaveta e, em seguida, dirigiu-se à porta do quarto. Ali, com a mão na maçaneta, respirava fundo numa tentativa de acalmar o coração. A casa era pequena e não havia corredores entre os cômodos. Abrindo a porta, daria de cara com o escuro da sala e sabe-se lá mais o que dentro dela.

Torceu a maçaneta de mansinho. Puxou-a, saiu como um gato na penumbra e tornou a fechar, sem ruído, a porta atrás de si.

Não saiu do batente: o quarto não tinha chave e Leonam não podia deixá-lo desprotegido, não com Josias lá dentro. Com as batidas cardíacas ainda mais vigorosas e com os dedos trêmulos, abriu o canivete que trouxera consigo e perguntou-se com o que teria que lidar... Detestava a hipótese de que fosse com algum viciado, maior do que ele e metido a valentão, tentando roubar a casa. Já tinham levado coisas algumas vezes... Mas não quando tinha gente dentro.

O garoto se afastou um pouco do limiar para esticar o braço até o interruptor de luz ao lado. Mal o tinha alcançado, porém, viu uma grande silhueta parada junto à porta da cozinha.

Não pôde conter um grito.

Apreensivo, o irmão, no outro cômodo, gritou de volta:

— QUE É QUE FOI, LEO? QUE É QUE FOI? 

Sem tirar os olhos da silhueta imóvel, Leonam engoliu em seco. Precisava responder algo para tranquilizar Josias e, dessa forma, impedir que ele tentasse chegar à sala, mas ao mesmo tempo precisava confrontar o invasor e chamar a polícia e acender logo a droga da luz e...

Antes que decidisse o que era de maior urgência, viu o contorno de um braço erguendo alguma coisa. Soube, então, o que fazer:

— NÃO ATIRA! NÃO ATIRA! POR FAVOR, NÃO ATIRA! 

Mas o vulto apenas balançou um objeto cintilante. Em meio a um tilintar alto — o mesmo tilintar que se fizera ouvir até então —, exclamou:

— Ho! Ho! Ho! Meu camarada!

Leonam tornou a gritar.

— Ah, moleque, tenha dó! — disse o sujeito — Seu irmão de seis anos não faria tanto escarcéu!

— Meu irmão...! — Olhou de súbito a porta atrás de si, e ao mesmo tempo se deu conta de quão estranho era que Josias tivesse se calado.

O intruso o encarou com curiosidade; a expressão e a persistência daqueles olhos nos de Leonam fizeram com que o garoto caísse em si.

— Meu irmão...

Morto — declarou o homem, um pouco impaciente com a demora de raciocínio de Leonam. — Morto já faz um mês.

Um aperto forte no peito, um engasgo-choro na garganta. O garoto sabia que a declaração, por pior e mais dolorida que fosse, era verdadeira. Só não conseguia compreender como, havia cinco minutos, tinha falado com Josias. 

Abriu, trêmulo, a porta do quarto. A cama do caçula estava arrumada; a colcha desbotada do Homem-Aranha, visível na penumbra. Mas não havia ninguém no quarto. Ninguém.

— Antes foi apenas um sonho. Ainda é um sonho — disse o invasor.

Leonam olhou-o, piscando bobamente.

— Acenda a luz, garoto. Precisamos conversar.

Obedeceu sem questionar. Assim, quase que de repente, se viu na sala iluminada e vislumbrou aquele com quem falava: um homem alto, gordo, suando sob um terno preto. A pasta de couro que trazia consigo deveria fazer com que parecesse mais sério, mas sua camisa branca já tinha o colarinho desabotoado e a gravata frouxa. Naquele momento, para completar, retirava os sapatos. Parecia muito à vontade enquanto falava com uma voz meio rascante e num tom totalmente indiferente:

— O seu irmão... Você gostava muito dele, não é? E o menino tinha o quê, uns seis ou sete anos? Uma pena... Não que eu particularmente ligue muito, confesso... Mas é complicado este paisinho de vocês, heim? Não bastasse o calor e os pernilongos, ainda tem as balas perdidas. Também não entendo por que vocês fazem casas nuns morros desgraçados assim, afinal, além das balas perdidas, tem os deslizamentos, os...

— O QUE VOCÊ QUER, PORRA?! — Leonam não se conteve. Tinha o rosto já meio molhado de lágrimas e a expressão contorcida de raiva. Na mão direita, um canivete segurado com força. O intruso lhe lançou um olhar arregalado, e ordenou:

— Larga isso.

Como o garoto não lhe deu ouvidos, fez um gesto com a mão e o canivete caiu, facilmente, da mão do outro. Incrédulo, Leonam tentou pegá-lo de volta. O objeto, contudo, parecia colado ao chão.

— O que que cê... O que que cê fez?

— Tirei a arma da mão da criança burra, claro — respondeu com grande naturalidade enquanto, deixando marcas de meias suadas pelo caminho, dirigia-se até uma das poltronas desgastadas e puídas da sala.

— EU NÃO SOU...

— Criança? — sentou-se. — Talvez não... Agora que eu cheguei mais perto, consegui ver uma penugem bem clarinha nascendo logo abaixo do seu nariz. Puberdade, ãh? Está mesmo um homenzinho... Só que burro.

Leonam queria xingá-lo, ou bater-lhe, ou ambos. Conteve-se, no entanto. De má vontade, até obedeceu quando o invasor lhe indicou a outra poltrona da sala. Sentou-se, aguardou.

— Muito bem. Meu nome é Augusto Flamênulo e eu sou representante da Agência de Pesadelos Meio-Dia. Eu já estou vendo sua cara de “Nossa, que porra é essa de agência de pesadelos”, e eu poderia até tentar explicar da forma convencional como somos orientados, mas... — suspirou — seria um tempo perdido. O que eu quero que você entenda é o seguinte: eu sei que você tem sonhado com seu irmão todas as noites. Na maior parte das vezes, pesadelos. Paredes cheias de buracos de balas, sua mãe torcendo uma colcha infantil que não para de escorrer sangue, um tiroteio que parece não ter fim... e sempre o menino morto. Esses pesadelos já têm durado o quê? Um mês, dois meses? Desde que o menino foi baleado, não? — fez uma pausa, olhando para o rapaz em cujo rosto as lágrimas voltaram a escorrer. — Sabe, eu não aguentaria o tormento... Eu ia querer me ver livre desses pesadelos todos... E eu acho que você pensa como eu, meu caro — disse, chacoalhando o indicador na direção de Leonam. — É por isso que estou aqui. Eu quero propor a você o fim de todos esses pesadelos.

Leonam fungava. Manteve-se em silêncio, com o olhar no chão.

— Ouviu, garoto? — insistiu Flamênulo. — Nem mais uma noite de pesadelos! Nem mais uma noite! E o preço é tão baixo que...

— Quanto? Quanto é?

Augusto abriu um sorriso.

— Não é um valor financeiro, meu caro, nem nada que lhe exija esforço... O que eu quero são só seus sonhos.... Digo, seus sonhos bons, além dos sonhos ruins. Afinal, temos que reconhecer que sonhar à noite é um tanto quanto inútil...

— Só isso? É só isso que cê quer em troca, porra?

“Porra”. “Porra”. Sim, é só isso que eu quero, “porra”.

— Fechado. Agora eu faço o quê? Aperto tua mão e cê some daqui pro inferno?

— Volto pra minha agência, na verdade. Com um negócio desses fechado é capaz que eles até me retirem da minha suspensão, afinal todos erram e... Mas o que é que eu estou falando. Voltemos aos negócios, sim? Assina aqui pra mim. Isso... Muito bem!

O representante sorriu com malícia ao guardar o documento assinado na pasta. Então, como despedida, balançou mais uma vez os guizos, e num átimo Leonam acordou.

Respirava rápida e pesadamente. Como sempre, lançou os olhos à cama ao lado — vazia. O já costumeiro aperto no peito, e então uma lembrança vaga... 

Tivera um sonho estranho. Josias estava nele, é claro que Josias estava nele, mas tinha um sujeito esquisito e...

Esforçou-se. As cenas agora lhe vinham nítidas à cabeça. As cenas e...

— MERDA! MAS QUE MERDA, O QUE É QUE EU FUI FAZER?

De algum modo, acreditava na veracidade daquilo que tivera espaço em seu subconsciente. Acreditou mais ainda quando, ao se levantar da cama, ouviu o som de um papel sendo amassado.

Recolheu-o. Era uma cópia do contrato.

Leu-o, releu-o, amassou-o e o atirou longe, lágrimas de raiva e arrependimento a cobrirem-lhe o rosto. Em pensamento, rogou a Josias que o perdoasse. Prometeu-lhe que, a despeito de qualquer assinatura idiota, não mediria esforços para voltar a sonhar com ele. Naquela noite mesmo, se  ainda conseguisse dormir. Que se danasse a angústia que quase lhe sufocaria quando acordasse. Sonharia com ele, seria um sonho bom, os sonhos bons eram raros, mas aquele seria incrível e... Jogariam bola, os dois. Jogariam bola os dois, o Matias e os moleque tudo.

Caminhou até a janela. Luzinhas natalinas piscavam com a melancolia do ano que acabava. O poste, ao que parecia, queimara de vez.

12 comentários:

  1. Conto iniciado em 2014, deixado de molho, revisto e reescrito várias vezes, deixado de molho de novo e finalizado ontem. Amém.

    Sugiro que também vejam O negociante de pesadelos e o especial de Natal do ano passado, Espírito natalino.

    Um abraço imenso a todos!

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  2. Apaixonantemente louco e fascinantemente simbólico.
    GK

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  3. Uma obra de arte. Cuidado e revisto tantas vezes, como disse. Não poderia ser nada mais do que... uma obra de arte! Muito bom Lari. Fascinante. Não esperava um final assim. Acho que me arrependeria de realizar um acordo deste nível também. Pobre Leonam!

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    1. Obrigadíssima, Elcimar 💗 Abraço enorme pra ti 💗💗

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  4. Essa é a coisa mais angustiante e linda que li nos últimos dias. Parabéns, Lari

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  5. Que conto legal haha!
    Feliz ano novo Larissa! ♥

    https://www.heyimwiththeband.com.br/

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  6. Lindo, lindo. De dar nós na garganta. ♥

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    1. E feliz ano novo, Lari. Um ano cheio de realizações, conquistas e escritos tão lindos quanto esse. :)

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    2. Obrigada, Natália ♥♥♥

      Para você também! Que 2019 te seja um ano encantador!

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