José dos Sonhos, MG

José Bonifácio Fernandes e Silva. Quase meia idade, casado, dois filhos também casados e uma filha moça, ilegítima e órfã de mãe que, contrariando as expectativas, era o luxo da sua mulher.

Era médico e botânico, bastante respeitado na região. Curava doenças misteriosas com remédios misteriosos. Cinquenta anos antes, um curandeiro fizera o mesmo e morrera na forca, acusado de bruxaria. Mas Dr. Bonifácio não corria esse risco: Ele é estudado, o povo dizia, Muito, muito bem educado...

Uma manhã saiu em excursão com um criado, lá pelos lados da Montanha Santa. Ouvira falar de uma erva que nascia no pé da montanha, junto à Trilha dos Escravos. Erva boa pra dor de músculo..., disseram-lhe. E estava mesmo com muitas delas, depois de quatro dias frios no lombo de um cavalo. Há quem diga que o desconforto era tanto que, assim que encontrou algumas plantas que obedeciam à descrição que lhe fora dada, preparou-as de qualquer jeito, tomou o chá e foi dormir. Pretendia estudá-las, de fato, no dia seguinte.

Mas, chegado o dia seguinte, o criado o encontrara no cimo de uma grande pedra, admirando a extensão do vale. Quando se aproximou, seu senhor disse:

— Uma beleza, não é? Tanta casa, tanta gente... Ara... Como é que não reparamos ontem? Tenho certeza que, numa vila desse tamanho, alguém já ouviu falar sobre mim e teria me oferecido pouso.

O criado não pôde dizer nada porque não via nada. Pelo menos, nada além de um campo meio ressequido aqui e ali pelo inverno, uns pedregulhos, umas árvores. Cadê casa? Cadê gente?

— E, rapaz... — prosseguiu o médico — Aqui é um lugar bem bom de morar, viu? Pelo tanto de horta e plantação que eu vejo daqui, dá pra notar que a terra é boa... O clima também me agrada. Não te agrada, Osias?

O criado assentiu educadamente com a cabeça, mas... Cadê horta?? Cadê plantação???

— Senhor, acho que nós devia é ir pra casa. A senhora sua esposa não gosta de ficar sozinha lá — disse o criado, compreendendo que o patrão delirava e desejando tirá-lo dali o mais rápido possível.

— Ara, homem... Que sozinha, o quê? Você não é meu único criado. Tem criados lá com ela, e meus filhos.

O pobre homem insistiu em vão com seu senhor por mais um bom tempo, enquanto ele continuava a enumerar as vantagens de passarem pelo menos uma semana ali.

— Não tamo bem abastecidos, senhor — explicava Osias.

— Então seu medo é morrer inanido, seu besta? Pois não te preocupe com isso não. Aquele tamanho daquela torre de igreja lá na frente deixa claro que o povo daqui é cristão, e um bom cristão não vai negar pão pra dois viajantes, sendo um deles um médico respeitado.

— Mas, senhor...

— Volta então você, Osias, se essa é tua vontade. Eu não arredo o pé daqui.

E não arredou mesmo. Dadas as circunstâncias, Osias achou que era melhor abandonar seu senhor por um período, a fim de buscar ajuda. Deixou as provisões com o doutor e tomou um cavalo. O caminho que percorreram em quatro dias, na ida, na volta correra em dois. Estava morto de fome e de cansaço quando chegou à fazenda dos Bonifácio, mas, antes de atender a qualquer necessidade pessoal, correu para junto de sua senhora:

— O patrão endoideceu.

Explicou três vezes seguidas a situação à Elvira Bonifácio, uma mais pausada e detalhada do que a outra. Ela, por seu turno, explicou o caso mais tantas vezes para os filhos. 

Convencionou-se entre eles que iriam atrás do pai. Dona Elvira iria junto. A moça, Neuzinha, também.

Levando com eles comida que bastasse e vários criados, chegaram ao vale junto à Montanha Santa depois de três dias de viagem (pois que, como Osias fizera antes, ninguém parara para dormir). Encontraram o doutor Bonifácio no topo da Montanha Santa, sentado em uma cadeira — onde encontrara a cadeira, ninguém sabia dizer —, olhando para o nada. Parecia encantado.

— Olha, mas vocês vieram! — disse ao notar a aproximação da família. — Eu sabia que quando o Osias narrasse pra vocês a beleza dessa cidade, vocês todos iam ficar loucos pra vir pra cá.

Entre filhos, mulher e criados, trocaram-se olhares preocupados. Ninguém via cidade nenhuma.

— E eu tô vendo um terreninho daqui que olha... Uma maravilha! Bem na praça, bem perto da igreja, do mercado, de tudo... Tenho pra mim que, se negociar bem com o dono, ele me vende facinho, facinho...

Mais olhares preocupados.

A mulher, enfim, disse:

— Larga de desajuízo, Zé! Olha o papel de tonto que você tá fazendo! Olha a cara dos teus filhos, olha! Tudo preocupado... Vê se larga mão desse desatino de cidade e vamos logo para casa!

— Não vou.

— O quê?

— Vim pra estudar a planta e vou estudar a planta!

— Que negócio é esse agora de planta?

A planta que eu vim estudar, ué! Que cura dor no corpo!

— Dolorida tô eu, de viajar três dias sem parar e agora ficar aqui, em pé que nem palhaça e vendo você falar mudagem!

O marido a encarou por um instante. Em seguida, inesperadamente, saiu da cadeira em que se encontrava e a ofereceu à mulher. Então, sob o olhar curioso de todos, tirou da bolsa umas ervas, colocou-as com água numa panela também tirada do saco de viagem, fez fogo e pôs aquilo tudo para ferver. O silêncio era tal que parecia que se tratava de um espetáculo. Estando, pois, o chá pronto, deu-o numa xícara à mulher.

Ela confiava no médico: bebeu.

Todos continuaram num silêncio de expectativa, como se esperassem que ela virasse uma capivara.

Mas ela apenas adormeceu. Uma vez que o cansaço era geral e a noite ia caindo, os outros, desapontados pelo clímax chocho, resolveram fazer o mesmo.

No dia seguinte, acordaram com a visão do casal Bonifácio olhando o horizonte. Os dois sentados em cadeiras. (Ninguém sabia de onde estavam vindo as cadeiras.)

A mulher não reclamava mais de dores, mas agora, como o marido, enumerava as belezas da cidade adiante. Também como ele, não queria saber de voltar.

Os filhos não abandonariam seus velhos na loucura, e outras gentes, que ainda tinham o Dr. Bonifácio por ótimo médico, vinham das redondezas à sua procura e acabavam por se estabelecer ali.

A cidade de José dos Sonhos nasceu assim.

2 comentários:

  1. E que cidade linda! Com base nesse conto que me alegra e conforta, enquanto me deixa conforme contigo fazendo estórias nessa vida.
    Mágico!
    Grato mais um dia.

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    1. Gratíssima pelo comentário inspirador ♡

      Abraços, Ney! E uma boa semana pra ti!

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