Vai

Tristeza bate na porta com um sorriso acabrunhado, meio "desculpa aparecer agora", meio "posso entrar?" Não pode, Tristeza me olha. Não pode! Tristeza suspira e entra mesmo assim. Senta na beira da cama como que na beira da ilha de um mar sem fim. Senta na beira da ilha como quem se concentra e se pergunta o gelado da água. Tristeza me olha nos olhos pedindo uma opinião. Dou de ombros — Vai fundo. Tristeza ergue as sobrancelhas com os olhos mais tristes do mundo — É sério? Dou de ombros outra vez. Tristeza arca a coluna e permanece onde está. Desvio o olhar. Queria uma outra cama, queria uma outra ilha... Quero ficar sozinha, minha filha! Tristeza treme dos lábios e pálpebras, Tristeza vai chorar. Eu lá quero essa culpa? Não quero, mas sinto culpada... Beijo-lhe o rosto. Ponho-lhe uma coberta nas costas e uns trocados em sua mão. Vai, vai comprar cigarro ou uma paçoca.

2 comentários:

  1. Anônimo7/6/19

    tristeza é meio que parente, desses que chegam mansos...enfim gente boa sempre se sente culpada. Mesmo que faça poesia com uma leveza e beleza, que deixa os dias em nossa vida menos pesada.
    Grande abraço de Vênus e um ameno fim-de-semana.

    ResponderExcluir
    Respostas
    1. Obrigada pelo comentário lindo!

      Outro para você, e um excelente fim de semana ♡

      Excluir