As moscas

As moscas na minha janela já estão todas tontas
De tanto baterem no vidro esperando atravessá-lo
As toscas conclusões humanas nunca estarão prontas
De tanto atravessarem o tempo sem poder pará-lo
[versão de Conclusões, 29/05/14]


Tensos os ombros. O lápis, monotonamente batendo no tampo da escrivaninha. Coluna torta, a cabeça pendente, olhos vidrados e as palavras que não vinham. Vinte minutos naquela situação.

De repente, um zumbido. Primeiro fraco, longínquo... Foi se aproximando, chegou bem perto, fez uma ou duas curvas próximas ao seu ouvido para enfim, em linha reta, ir se chocar contra o vidro da janela. Incomodou por uns instantes, mas logo deixou de ser percebido porque as palavras... Era preciso esforço para que elas viessem.

Elas não vinham. Outro zumbido, contudo, entrou no quarto sem cerimônia. Fez alguns malabarismos pelo ar e foi se juntar ao primeiro, agora notado outra vez. Chocavam-se ambos contra a janela fechada, continuamente, continuamente...

Mais quinze minutos. Das palavras, nem sinal.

Os ombros tensos, o lápis inquieto, coluna e cabeça tortas. E o zumbido aumentara; era agora insuportável. Palavras se debatendo umas contra as outras, palavras insistentes, incômodas, palavras procurando luz, mas impedidas por uma barreira transparentemente tão intransponível...

Bem que poderia deixá-las morrer. Não poderia?

Arrastou a cadeira de maneira brusca. Levantou-se e caminhou com determinação rumo à janela. Meia dúzia de moscas se aglomeravam ali, desesperadas e tontas. 

Abriu os vidros, arreganhou-os, permitiu-se uma lufada de ar enquanto os malditos insetos ganhavam a liberdade.

Ficou uns cinco minutos ali. Então voltou à escrivaninha, sentou-se e pôs-se a escrever.