Emergindo dos devaneios

por - 1.6.12

Parando em uma esquina, olhou o relógio que ficava na mais alta torre da igreja: já eram cinco e meia. Deveria se apressar. A tarde cinzenta ainda derramava algumas gotas teimosas da chuva que cessara havia pouco. Olhou também ao seu redor: as ruas estavam um tanto quanto vazias, sem a agitação e o barulho que a perseguiram durante toda a semana. Melhor assim. O tempo era curto e ela não precisava de motivos para se distrair.
Andou mais um pouco e parou diante de uma poça d'água, fracassando logo na primeira tentativa de manter o foco. Mesmo que ainda tivesse que percorrer alguns quarteirões, permaneceu ali, mirando o próprio reflexo. Seus longos cabelos castanhos e seu sobretudo xadrez ainda estavam no devido lugar, pelo menos era o que parecia. Deparou-se também com seus olhos, um pouco assustados, e através deles perdeu a noção de tempo e espaço. Agora não estava naquela cidade habitualmente agitada e poluída: estava longe, longe... Talvez em Londres, um dos alvos de seus sonhos.
— Aconteceu alguma coisa, moça? Você parece estar desorientada.
A voz partia de um rapaz que tinha um sorriso doce estampado no rosto. Seus olhos escuros e misteriosos lhe eram familiares... Mas não podia ser possível; nunca tinha visto aquele rapaz.
— E-eu? — perguntou ela, com a voz trêmula — Ah não, não aconteceu nada. Nunca acontece...
— Desculpe, não entendi a última parte — disse ele com uma expressão confusa.
— Deixe pra lá. Minha nossa! — exclamou ela ao consultar novamente um relógio — Tenho que ir. 
— Eu a acompanho. Você realmente não me parece bem...
— Não se incomode, eu estou bem.
— Não é incômodo algum.
— Mas... mas eu nem sei seu nome!
Nesse momento, sobressaltou-se com o som de uma buzina. Ela não percebera que estava parada no meio da rua. Ainda encarava um certo par de olhos. Não aqueles que mexeram tanto com ela, numa dimensão distante e temporária, e sim novamente os seus, refletidos na água. Emergiu da poça ao emergir de seus devaneios, voltando a si. 
Estava de volta à cidade. Estava sozinha. E estava atrasada.

5 comentários

  1. Que texto lindo ^^
    Gostei da história!

    Beijos
    Diário Ciumento

    ResponderExcluir
  2. Que lindo o texto, amei!!
    Ah flor, não se esqueça de participar do concurso de um ano lá no blog, está valendo vários prêmios super legais: vaga para equipe, dois meses de destaque e mais <3 Não vai perder essa, né? http://menina-delicada.blogspot.com.br/2012/05/1-ano-de-menina-delicada.html

    ResponderExcluir
  3. @Babi Junqueira
    Muito obrigada, Babi! Não vou me esquecer não, amo seu blog de verdade...
    Beijos

    ResponderExcluir
  4. Às vezes eu me assusto e me orgulho ao mesmo tempo. Eu tenho 19 anos, 5 a mais que você, e admiro pessoas que escrevem tão bem. Me tranquiliza saber que o mundo não está tão perdido, que as crianças e os adolescentes não estão tão alienados e que existe uma nova geração como você que vai levar o dom da escrita para gerações futuras que iluminarão o mundo com esse tipo de mente brilhante e idéias inovadoras.
    Realmente adorei o texto e estou seguindo, okay?

    Beeijos.

    bookaddictedblog.blogspot.com.br

    ResponderExcluir