"Pluviophile"

Amo o vidro meio embaçado de chuva enquanto as rodas do carro fazem barulho ao passarem pela enxurrada. Amo as luzes dos postes que se embaçam no vidro (já meio embaçado), e as rodas em movimento, e o carro indo, e a chuva caindo... A chuva caindo molhando a vida e a vida seguindo. O carro seguindo. E eu sigo amando. Vivendo. Sentindo.


Meia poesia

Lugares desconexos
Num deserto sem fim

Cadeiras soltas
Bolos de caneca
Fantasias carnavalescas
E sentido nenhum

Eis o caos da minha cabeça quando, por um capricho,
Reviro a bagunça dos meus próprios pensamentos
À procura de um poema qualquer
E só encontro (e por acaso) uma rima abandonada
Fazendo com ela um par com um pé de meia

A rima e a meia
Meia poesia
Uma poesia meio... nada a ver

Primeiras vistas

Então olhei pelo vidro da janela do carro,
perplexa com os trechos de azul que eu conseguia visualizar
nos intervalos entre as casas
Um azul profundo, brilhante e que espumava
na dança sem ritmo das ondas

Eu, agora, mais do que perplexa — hipnotizada
Pois as casas que me escoltavam à esquerda da rua
rarearam
deixando maiores os intervalos
entre
uma
e outra
Assim meus vislumbres também aumentaram
junto a meu tempo de contemplação
quando o semáforo fechou e o carro parou:
as ondas dançavam,
as espumas acompanhavam,
o Sol refulgia...

Era meio-dia e o sinal abriu.

Deixei para trás a eternidade daqueles segundos finitos, contraditórios
minha permanência limitada no asfalto
entrelaçada à infinidade do além-mar...

Preces de uma noite de insônia

Que os sons da rua abafem as confissões que faço ao travesseiro. Que o travesseiro aconchegue minha cabeça tão cheia de sonhos. Que os sonhos, que tanto me consumiram durante o dia, sejam pegos pelo meu subconsciente e transformados nos delírios imprecisos que alimentam a noite. Que a noite aproveite de sua escuridão temporária para fazer minha cegueira perante aos problemas que me tiram o sono. Que o sono recaia pesadamente sobre meu corpo, esmagando meus receios sem que me seja tirado o ar da respiração. Que minha respiração, agora lenta, ensine o ritmo ideal de trabalho aos ponteiros do relógio. Que o relógio não me desperte antes que meus pés sosseguem sob os cobertores. Que os cobertores aqueçam meu coração até que este se dilate para grandes amores. 

(Mas que nenhum grande amor torne a ser responsável pelas olheiras das minhas longas insônias.)


Conclusões

As moscas na minha janela já estão tontas
De tanto baterem no vidro esperando atravessá-lo
As toscas conclusões humanas nunca ficam prontas
De tanto atravessarem o tempo sem poder pará-lo


Por uma vida em que é doce viver

As sombras espessas
Cruzam às pressas
A brecha da porta da casa sem dono
Mais negras que o escuro
Cobrindo o futuro
Manchando de medo o resto de sono

O menino mendigo
Encolhe-se ao abrigo
Que lhe apareceu em meio à tempestade
A falta de sorte
Afeita à morte
Dando-lhe exemplo de rara bondade

Mas o teto geme
E o menino teme
Que as telhas desabem num instante fugaz
Tirando do fundo
De seu corpo imundo
A alma carente de um pouco de paz

Mas a casa resiste
E o menino insiste
Em esconder da fome a vontade do pão
Ele apela à droga
Que logo o afoga
Num entorpecimento de mera ilusão

A chuva cessa
Com as sombras sem pressa
Cedendo espaço ao amanhecer
O menino desperta
Na rotina incerta
Querendo uma vida em que é doce viver

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