Talvez e só talvez


A alma sob minha pele
Às vezes me foge um pouco pelos poros
E vai vagar por um não sei onde...
Talvez, de íris em íris,
De pétala em pétala,
De acaso a acaso,
Passe de sonho em sonho
E volte a mim até mais alma

Mas só talvez.

Desobediência


De que adiantam os alertas do meu juízo? Embrenham-se meus pensamentos por passagens que pouco conhecem — escuras, tortuosas, perigosas — e, num curto espaço de tempo, já se veem perdidos. No desespero, gritam. Gritam , gritam, gritam...! Em vão tapo os ouvidos. Dói-me a cabeça. Apelo ao sono, esperando, ardentemente, que meu subconsciente resgate os tais pensamentos (e que eles virem, de castigo, apenas sonhos vagos).

Vã tentativa


Deu cabo de uma lembrança, mas não conseguiu fazê-lo sem sujar de sangue as paredes do quarto. Manchas de sangue não saem fácil, e aquelas, para sua desgraça, não saíram de jeito nenhum. Ficaram ali, fazendo com que ela se lembrasse da lembrança. Duas vezes lembrança. Mil fracassos.

Arame farpado


Queria porque queria passar uma temporada na Lua. Já viajara para lá milhares de vezes no decorrer de sua vida, mas nunca permanecera no local tanto tempo quanto gostaria: as obrigações — infelizes! — sempre acabavam por arrastá-la de volta num piscar de olhos. Mas agora era diferente... Agora ela estava de férias! Iria para a Lua, o Maravilhoso Mundo da Lua, e ali encontraria novos amores, ali dançaria através da eterna madrugada, ali faria uma visita aos sonhos que não revia há tantos anos... 

Queria porque queria passar uma temporada na Lua, mas o dólar estava alto, o almoço tinha que ser feito e as crianças também estavam de férias, requerendo atenção. A Realidade, sentada à mesa, consolava: "Talvez no ano que vem, querida... Talvez no ano que vem..."

Luzes natalinas

Minha alma caminhando dentre as luzes natalinas... Dezembro, ? Desconfio que mentiram quando me disseram que o ano dura um ano. Os anos nem existem! E Papai Noel? Ah, esse existe... Neste Natal, eu soube, vem deslizando seu trenó numa avalanche de lama. De que importa que as casas não tenham chaminé? Elas também não têm telhado. Nem gente. Nem os rios têm peixe. Demos graças ao deus Dinheiro. Depois da oração, os presentes.


Temperos e tempos


Na primeira prateleira, os temperos; na segunda, os tempos. Foi pegar umas pitadas de minuto e o pote que o continha caiu, espalhando dezenas de segundos pelo chão. Quis juntá-los, mas, na sequência, caíram os potes de hora, de dia, de mês. Deu um grito. Como aquilo fora acontecer, logo com ela que era tão cuidadosa? Ajoelhou-se, tentando agarrar todo aquele tempo com as mãos enquanto o via, aflita, escorrer entre seus dedos. Continuou tentando e tentando e tentando e o relógio na parede, que observava a cena, achava graça e sorria com prazer. 

Depois de anos sem nenhum resultado satisfatório, desistiu. O tempo estava perdido. Nada podia ser feito quanto a isso. Levantou-se, limpou o suor do rosto, alisou a saia amarrotada. Notou que suas mãos estavam enrugadas. Suspirou. Suspirou de novo. Virou-se para trás. Na prateleira dos tempos, praticamente vazia, restava um único pote: "Vida". 

Agarrou-o. Mirou-no relógio (que ainda sorria) e o jogou. 

Os cacos voaram por todos os lados.

Filhas-lembrança


Suas lembranças eram filhas. Seguiam-na pela rua, choramingando e puxando-lhe a saia. "Não nos esqueça! Não nos deixe!". Ela, desnaturada que era, fazia que não via, ouvia ou sentia. As filhas-lembrança conheciam o caminho por onde vieram; que, sozinhas, voltassem para a casa e trancassem a porta. Trancassem bem a porta. Jogassem a chave fora. Sabia que era um egoísmo e uma covardia, porque as pequeninas a esperariam ansiosas pelo resto de suas existências — e ela não pretendia voltar. O Tempo que desse um jeito. O Passado que tomasse conta das suas crias. 

Continuou andando e pensando. As filhas-lembrança, atrás.

Nuvem de chuva

Você compreende, não compreende? Compreende que não me compreende e que jamais me compreenderia. Meus sentimentos não são simples nem claros, e, quando um pouco se simplificam e clareiam, mudam. Nuvens no céu, mudando de formato com um vento mais forte... Circunstâncias ventam forte... Erros ventam forte... Descobertas ventam forte... Momentos pesam. Lembranças pesam. Sonhos pesam. Conclusões, mesmo que temporárias, pesam. Num dado instante, não mais me movo; somente chovo. E, depois que chovo, o ciclo se inicia de novo.


Poesia banal

Há um gato no beiral da janela 
E um cachorro ao pé da porta 
Ambos sonolentos no abandono da vida 
E da casa abandonada 
A tarde em igual modorra 
Sobre o telhado de poucas telhas 
Sobre a cidade de pouca gente 

Talvez chova. Talvez não. 
Eu trouxe a sombrinha; 
Sigo a pé.

O silêncio é sábio

Poupa-me das fofocas descabidas, dos comentários maldosos, dos julgamentos hipócritas, da vaidade, do senso comum. Falemos sobre livros, filmes, hobbies, sobre os encantos da natureza e a complexidade do ser humano... Narremos nossas lembranças, nossos planos, nossos sonhos! Somemos conhecimentos, percepções, experiências... Saibamos acrescentar; do contrário, fiquemos quietos: o silêncio é sábio e, ao contrário do que às vezes se supõe, preenche qualquer vazio.


A abstração da casa e o concreto da loucura


Com o passar dos anos minha loucura foi ficando cada vez mais espessa... Cada vez mais densa... Camada sobre camada de pensamentos insanos fizeram com que ela começasse a ocupar lugar no espaço e, assim, deixasse sua habitual abstração para virar matéria. Meus delírios estão concretos e eu digo ― digo para todo mundo! ―, mas todos estão assustados demais... E o pior: hoje eu descobri que a área que a abstração concreta da minha loucura já ocupou é tão grande, mas tão grande, que virou barreira ao meu redor. Eles não podem mais se aproximar. Eles não entendem e estão impedidos de tentar me entender. Estou sozinha, minha loucura aumentando, as paredes rachando, o teto desabando...! Sob a abstração da casa, sob o concreto da loucura, estou sufocando.

Sobre estes parênteses

(Estes parênteses não contêm as respostas que você me cobrou nem a explicação para as atitudes que eu não tomei. Estes parênteses estão, simplesmente, protegendo minhas palavras do lado de fora. O lado de fora me deixa preocupada... Já aqui dentro é tão seguro! Não há expectativas nem desilusões: há apenas um sentimento bom quando minha alma, nas pontas dos pés, olha por estas janelas molhadas que são meus olhos e se certifica de que você ainda está aí. Eu preciso que você esteja aí. Sua presença alimenta meus sonhos e meus sonhos sustentam este abrigo. Então, por favor: perdoe meu egoísmo e tenha paciência comigo. Não me deixe abandonada sob os escombros da minha loucura quando estas paredes desabarem. Mais cedo ou mais tarde, elas irão desabar...)



A pergunta e a resposta

Os seus olhos contra os meus
Indagando o que é que há
(“O que é que há?”)
Os meus, por sua vez, desviam
Como que envergonhados pela falta de respostas
Como que intimidados pelo excesso de perguntas
na sua única pergunta:
"O que é que há?"

Ah...
Meus olhos não têm resposta
Mas, no que desviam,
respondem.

Na harmonia de um quase tédio

Eu ouço os ponteiros do relógio
E ouço a vida lá fora
Eu vejo uma folha em branco
E experimento mil pensamentos...

O tempo.
A vida.
O vazio da folha.
O tumulto em mim.

Na perfeita harmonia de um quase tédio
Minha angústia vai crescendo...
Crescendo...
Até se metamorfosear em loucura 
E eu vejo o tempo
E respiro a vida
Eu ouço o silêncio da folha
E sinto o tumulto em mim

Eu fico no meio de tudo
Ignorante do começo,
Ansiando pelo fim.

Meu mistério e minha poesia

Então é isso. Gosto de fazer mistério sobre meus sentimentos pura e simplesmente para disfarçar a falta de mistério que há neles. A verdade é que eu venho amando apenas esses amores banais, dos quais a poesia extraída não tem profundidade. É poesia sem poesia. É mistério sem mistério. Sou eu. Só eu.


O que me prende a você

A intensidade do meu amor varia com a inconstância dos meus humores e com o desfecho dos nossos encontros. Qualquer sinal daquelas paixões avassaladoras de que tanto me falam não dura mais do que poucos segundos — segundos estes em que se concentram meus desejos mais ávidos —, para, em seguida, esvair-se como mera ilusão. Então eu caio de novo num sentimento meio morno, meio letárgico, perguntando-me o que me prende a você... E descubro ser justamente isto: a dúvida. É a dúvida que me prende a você. 



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