Temperos e tempos


Na primeira prateleira, os temperos; na segunda, os tempos. Foi pegar umas pitadas de minuto e o pote que o continha caiu, espalhando dezenas de segundos pelo chão. Quis juntá-los, mas, na sequência, caíram os potes de hora, de dia, de mês. Deu um grito. Como aquilo fora acontecer, logo com ela que era tão cuidadosa? Ajoelhou-se, tentando agarrar todo aquele tempo com as mãos enquanto o via, aflita, escorrer entre seus dedos. Continuou tentando e tentando e tentando e o relógio na parede, que observava a cena, achava graça e sorria com prazer. 

Depois de anos sem nenhum resultado satisfatório, desistiu. O tempo estava perdido. Nada podia ser feito quanto a isso. Levantou-se, limpou o suor do rosto, alisou a saia amarrotada. Notou que suas mãos estavam enrugadas. Suspirou. Suspirou de novo. Virou-se para trás. Na prateleira dos tempos, praticamente vazia, restava um único pote: "Vida". 

Agarrou-o. Mirou-no relógio (que ainda sorria) e o jogou. 

Os cacos voaram por todos os lados.

Filhas-lembrança


Suas lembranças eram filhas. Seguiam-na pela rua, choramingando e puxando-lhe a saia. "Não nos esqueça! Não nos deixe!". Ela, desnaturada que era, fazia que não via, ouvia ou sentia. As filhas-lembrança conheciam o caminho por onde vieram; que, sozinhas, voltassem para a casa e trancassem a porta. Trancassem bem a porta. Jogassem a chave fora. Sabia que era um egoísmo e uma covardia, porque as pequeninas a esperariam ansiosas pelo resto de suas existências — e ela não pretendia voltar. O Tempo que desse um jeito. O Passado que tomasse conta das suas crias. 

Continuou andando e pensando. As filhas-lembrança, atrás.

Nuvem de chuva

Você compreende, não compreende? Compreende que não me compreende e que jamais me compreenderia. Meus sentimentos não são simples nem claros, e, quando um pouco se simplificam e clareiam, mudam. Nuvens no céu, mudando de formato com um vento mais forte... Circunstâncias ventam forte... Erros ventam forte... Descobertas ventam forte... Momentos pesam. Lembranças pesam. Sonhos pesam. Conclusões, mesmo que temporárias, pesam. Num dado instante, não mais me movo; somente chovo. E, depois que chovo, o ciclo se inicia de novo.


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