Depois do depois


São como sussurros no ar todas as palavras que poderíamos dizer.

Mantemo-nos calados, olhos baixos,
culpas empoleiradas em ambos os nossos pares de ombros
fazendo-nos parecer bastante mais velhos.
— E então? — 
questionamos juntos.
Um sorriso fraco nos lábios de um, 
um riso sem graça na garganta do outro,
uma pequena infinidade de tempo interposta entre nós. 

Depois do silêncio, um suspiro mútuo;  
a mudez e o enfado são tudo o que nos restou.



Canções de mudez


Sua ausência se fez tão presente que,
com o tempo,
nos tornamos íntimas.

Já deixo que ela me abrace
com sua falta de braços,
deixo que me conte
casos de passado,
deixo que me cante
canções de mudez...

... até que eu durma.

(Ela, é claro, não dorme.)


Subconscientemente

Gozam de liberdade os meus sonhos:
vagando por terras sem impostos,
impondo sua vontade a deuses,
experimentando,
distorcendo,
criando...

Gozam de eternidade os meus sonhos:
eu sempre me entregarei ao sono;
fato.

Gozam de ignorância os meus sonhos:
a abençoada ignorância...
Têm tudo e não sabe quanto têm... 

A subconsciência lhes convém.

Perecedouro


Enfada-me 
saber tão pouco sobre mim 
além de que tudo o que me constitui 
é este segundo em que vivo,
ao qual me agarro,
no qual me desfaço
para converter-me em outra 
no segundo seguinte que meu coração bombear.

Pois minhas veias, minhas artérias, são isto:
galerias de tempo.

Meus ossos...
alicerces de incerteza.


Indulgências minhas

Meus versos livres abusam da própria liberdade.

Somem por dias,
sem mandar lembrança,
sem mandar notícia,
e, quando voltam,
de pés sujos,
invadem meu espaço
(a liberdade deles subjugando a minha)
e ordenam: “Transcreva-nos. Temos o que contar.” 

Sartre, Sartre...
O inferno são meus versos.

Rápida e enfadonha existência, póstuma insignificância


Nascido havia pouco, o sentimento ainda não tinha nome. Também era cedo para saber com o que se parecia — melancolia? Aflição? Arrependimento? Desespero? O sentimento, inominado e disforme, dormia muito. Mas ressonava alto, mantendo-me acordada. E quando, por sua vez, acordava, aí é que eu não dormia mesmo... E comia, como comia... Alimentava-se, vorazmente, dos meus pensamentos. Do meu tempo. De mim. Pelo bem ou pelo mal, durou pouco, o pobrezinho. Foi-se em setembro: uma rajada de vento o levou. E foi-se sem nome, foi-se sem forma. Foi-se sem rastro. Nenhuma lápide deixou para provar que um dia, de fato, existiu.


Véu


Sempre o vi através de um véu de surrealidade:
somente um vulto,
quando o olhava de viés.

Ou era em seus pés
que meus olhos pousavam
como que medindo os passos
que separavam
minha própria realidade
do que era óbvio, claro, fato
— mas que eu via opaco.

Ou não via.
Ou fingia que não via.

Inversão

Meus medos,
trêmulos,
tão indefesos...

Aninho-os em meus braços,
digo: “Ficaremos bem”

— no que me encaram
instantaneamente
perplexos
com uns olhos arregalados
que me contradizem.

Trêmula,
indefesa,
aninho-me entre meus medos.

Toca


Se sua alma tivesse coluna 
é certo que já estaria torta, 
de tanto que ela se enverga para dentro de si mesma. 
Uma vez abaixo do nível dos olhos do próprio corpo, 
que já tão pouco se abrem para deixar a luz passar, 
desconhece o que se passa lá fora, 
ignora os rostos que se aproximam, 
aliena-se por completo 
e enverga-se mais, 
e outra vez mais, 
e outra vez mais... 
Dobra-se infinitas vezes sobre ela mesma 
e se compacta tanto, mas tanto, que vira buraco negro, 
e se suga.

Residual


Este chão, ainda não varrido,
coberto com fios do meu cabelo.
Os móveis, com uma camada clara
da porção da minha pele que virou poeira.
Meu travesseiro, meu colchão,
impregnados de tudo o que meu subconsciente,
quando adormeço,
acha insensato reprimir.

A cada metro quadrado,
mil resíduos de mim.

Como é que ainda existo?
Como ainda não me desfiz?



Sagrado


Semiconsciente,
segura o cansaço nos braços,
ansioso por entregá-lo em sacrifício
àquele cujos passos ressoam, suaves,
por detrás de suas pálpebras,
parecendo próximos e, simultaneamente,
parecendo que se distanciam.
E há quanto é que espera?
Sete séculos? Seis segundos?
Tudo está tão sombrio...
Tudo está tão confuso...

E de repente...
De repente dorme.

Poema amanhecido

As palavras que escrevi antes de dormir,
(aquelas que me pareceram tão bonitas),
enquanto eu dormia,
se embebedaram, se drogaram, se acabaram.

Quando da ressaca matutina,
não havia lirismo quando reclamavam de dor,
não havia emoção em suas vozes engroladas
nem beleza, sob suas olheiras roxas.

Suspirei fundo. Paciência.
Lápis e papel:
vamos lá outra vez...

Gravidade celeste

Inclinar o pescoço para trás,
olhar bem para cima,
inebriar-me de céu.
Sentir-me cada vez mais tonta com minha própria pequenice,
perder noção de tempo, de espaço, perder sentidos,
cair para cima,
afogar-me de céu.


Absurdamente


Eu sou absurda,
eu sou completamente absurda,
você sabe quão absurda eu sou...

Eu invento as regras
que se prendem aos meus próprios tornozelos
e meus tornozelos passam a arrastar essa culpa
pelo dó que sinto de mim mesma.
Então me abraço.
Afago-me o cabelo.
Vou me levando de mansinho para o quarto
e ali me prendo por horas,
a fim de ter um tempo de mim.
Pois quem é que aguenta vitimismos?
Repreendo-me,
tenho uma conversa séria comigo mesma
e digo séria para mim mesma:
Não se esqueça de que você é seu peso neste mundo”.

Silêncio.
Percebemos, ambas, o paradoxo do sermão.
Sentamos, ambas, eu e eu, na beirada da cama.
Choramos por horas.

Rotações


O mundo gira várias vezes
e tantos sorrisos bonitos o atingem em cheio
e as coisas por fazer são muitas
e é muita a poeira que se acumula, assim,
sobre o que eu para você.

Meu rosto, aos poucos, o quê?

Lástima

Não acho que são coitados
os meus versos abortados;
tenho dó é dos que escrevo,
dos que confino ao papel,
dos que condeno a este mundo,
dos que recebem a pena eterna de,
enquanto alguém ainda os ler,
serem interpretados
julgados
destrinchados
como bem se entende.

Estes sim... coitados.

Uma história


Pobre Saudade, sem noção de tempo, passam-se séculos e não dá por si! 

Bem procurava por aquele de quem fora tão íntima... Aquele que, exceto ela, sabia-se: morrera havia muito tempo. E assim, desinformada, foi batendo de casa em casa, indagando de praça em praça. Ninguém dizia nada. Também... quem haveria de querê-la por perto? 

Continuou sua busca, distraída — porque ela, que causa tantas distrações, é a que mais as tem —, e não viu, no topo de um pequeno morro, um paralelepípedo solto. 

Tropeçou. 

Caiu. 

Rolou, rolou e rolou. 

A descida alucinada só foi parar lá embaixo, com um impacto: fora, sem querer, ao encontro da casa de quem procurava. Casa vazia, abandonada, muito velha... Fácil, desmoronou-se toda: um forte barulho, mil escombros. 

Naquele dia, soterrada, morreu agonizante a Saudade. Uma pena que, dela, outra não tenha renascido — como geralmente acontece com as saudades que falecem — para contar uma história. 

Mas, afinal, quem hoje se importaria com essa história?

Dia após dia, saciemo-nos


A verdade é: as palavras que narram meu passado mal se lembram do que comeram no almoço. De que importa? No estômago tudo se mistura e o suco gástrico dá um jeito em muita coisa. O resto, tão passageiro... Minhas palavras sabem. Sabem e relevam. Sabem e preocupam-se apenas com o alimento que, mesmo que depois parcialmente esquecido, amanhã, outra vez, esperarão à mesa.


Embaraço


Nenhum creme para pentear que desse jeito. Sentimentos tão embaraçosos... Tão embaraçados...! Desciam-lhe pelas costas, acentuavam-lhe a cintura e, por vezes, enrolavam-se ao seu redor, fazendo com que o estômago se sentisse apertado. Às vezes mesmo, de espessos, a sufocavam. Às vezes, simplesmente — e como — irritavam! 

Cansada, pegou a tesoura e foi cortando um por um, assim bem na altura das orelhas. Caíram-lhe sentimentos e mais sentimentos aos pés. Cobriram o chão. 

Bobinha... Suas raízes permaneciam intactas. Mais dia menos dia, o inferno, outra vez.

Pequenina


Das mulheres que me habitam, só uma o amou: a pequenina, que abaixava os olhos e a voz quando dizia: “Ele é um cara legal”. Então corava, sentia-se boba, escondia-se, sumia por meses, por anos... Sumia e depois, crente de que enfim tinha a coragem de que precisava, voltava e se apresentava às companheiras de alma com um discurso longo e persuasivo sobre seu ponto de vista. Coitada... Uma vez centro das atenções, encolhia, fugiam-lhe os argumentos, via nos olhos das outras a razão rebatendo o que ainda nem dissera... Por fim, só dizia (e inaudivelmente): “Mas ele é um cara legal...” 

Sumia de cena outra vez.

Inútil faxina


Mandaram-na varrer aquelas ideias da cabeça. 

Apesar de alguma relutância inicial, não demorou muito para que acreditasse que era mesmo o certo a se fazer. Obedeceu. Pôs-se a varrer as ideias, com força, produzindo um som rascante a cada movimento com a vassoura, um ritmo desvairado, varrendo, varrendo... 

Quando já estava à porta, pronta para empurrá-las para fora, um vento soprou contrário e mandou as ideias recém-varridas de volta para dentro. Isso aconteceu mais quatro vezes. Depois da quinta tentativa, ela trancou a porta barrando o vento, feliz pelo que julgava ser uma bela defesa mas, ao mesmo tempo, plenamente ciente de que o problema não fora resolvido. Tomada por um súbito cansaço, juntou as ideias com a vassoura novamente; agora, entretanto, levando-as para debaixo do sofá. Não era uma atitude louvável: ela sabia que sempre estariam ali e, mesmo que por um milagre as esquecesse, iria reencontrá-las algum dia. Como, então, seria?

Espelho já sem uso


Consolou-a. Pediu-lhe que não culpasse a si própria, garantindo-lhe que muito do que desejara nunca estivera mesmo ao seu alcance. 

Abraçou-a. Agradeceu-a pelas lições que aprendera, pelos conselhos dados mesmo que imperceptivelmente. Prometeu-lhe que, dali em diante, teria mais juízo. 

Afastaram-se, cada uma dando um passo para trás. Encararam-se como se encara um espelho. Tão semelhantes nos traços, mas tão diferentes no que carregavam nos olhos...! Um par de pupilas doce, gentil; outro, carregado de ressentimento, de um quase ódio que se continha. 

Ela, a mais velha, deu as costas primeiro. Mais fácil assim. Nunca mais veria aquela que fora, aquela que acabava de deixar. 

De costas, sorriu. Encerrava-se ali um fingido compromisso consigo mesma. Sentia-se livre. Sentia-se bem.

Até o fim


Sua coragem está que é pele e osso, velha e desgastada, não o impele a mais nada, e ele chora por saber que ela não morre, sofre e sofre mas não morre, resiste e não morre, fica, moribunda, rodeando-o, sussurrando-lhe casos quaisquer de mártires, de mães sem filhos, de guerreiros e de exilados, rindo um riso asmático e dizendo que tudo é passado, foi-se sua força heroica e ela não pode ajudá-lo, mas a inútil não morre, tosse e tosse mas não morre, resiste e não morre, assombra-o dia e noite, dia e noite, dia e noite, dia e noite...

...

— Soube que a coragem dele morreu, enfim?
— Sim. Morreu e levou-o junto. Morreram os dois.

Espetáculo

O corpo bem acomodado numa cama 
enquanto, no palco da mente, 
imagens se apresentam 
rápidas, 
coloridas, 
vívidas 
numa dança sem som nem ritmo.

Aplausos mudos. 
Um belo espetáculo. 

No fim
as imagens, 
de mãos dadas, 
agradecem, 
unidas num borrão só.

Lentamente, fecham-se as cortinas. 
(Lentamente, pega-se no sono.)

Sobressalto


O velho sentimento fora dado como morto às 13:45h, numa fria e nublada quarta-feira. Ela não chorou sua ida; na verdade, deu-se por aliviada. Não mais depositaria nele esperanças inúteis, nem perderia tempo com quaisquer devaneios bobos e sonhadores que o envolvessem. Passaria a enxergar a si, apenas a si, unicamente a si. Sorriu com as possibilidades que a oportunidade lhe descortinava. Aprumou o corpo e saiu, satisfeitíssima. 

Três passos para fora da casa, contudo, e a surpresa: vinha-lhe, ressuscitado, o sentimento que enterrara havia pouco; vinha nos olhos do rapaz. Com o susto recuou os três passos que dera, o coração parecendo querer saltar por sua boca e ver de perto o fantasma que a assustava. 

O rapaz não entendeu nada. Ela, menos ainda, tornando a entrar em casa e trancando a porta. Desejou que a chave pudesse dar quatro ou cinco voltas, ao invés de duas só. Sentia os próprios olhos arregalados e o estômago meio que entranhado para dentro de si mesmo. Se antes sorria, agora sofria. Sofria porque, mais uma vez, sentia.

Amplidão


Fui tomada por uma convicção. 

Subi, subi rumo ao mais alto mirante da minha razão, determinada a, lá de cima, vislumbrar minha essência. Eu desejava entender a forma como meu passado me moldava... Enxergar meus caminhos como num mapa: ver onde é que os retos se entortavam e os tortos se endireitavam, ver como os estreitos se desembocavam nos de espaço amplo e como estes, de repente, se subdividiam em duas ou três outras passagens. Observar o fluxo dos rios salgados por lágrimas vãs, as árvores frutíferas dos meus esforços, as montanhas de momentos bons que recebi e fui guardando com carinho. Estudar-me com afinco, entender-me por completo; só assim eu nunca mais erraria em relação a mim mesma. 

Esqueci-me, contudo, de que a amplidão do ser não se esquadrinha racionalmente, de modo que, uma vez no mais alto mirante da minha razão, só vi névoa, névoa e névoa... 

No desespero, atirei-me no abismo que não via. Enquanto eu ia caindo, a névoa ia sumindo.

Sentença

As palavras que eu não disse ficam todas fechadas num cômodo. Sentadas no chão, rentes a uma parede, observam, mudas, a parede oposta. Permanecerão assim pela eternidade. Nem reclamam: foi-se o tempo delas; não têm mesmo mais nada a fazer.



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