Até o fim


Sua coragem está que é pele e osso, velha e desgastada, não o impele a mais nada, e ele chora por saber que ela não morre, sofre e sofre mas não morre, resiste e não morre, fica, moribunda, rodeando-o, sussurrando-lhe casos quaisquer de mártires, de mães sem filhos, de guerreiros e de exilados, rindo um riso asmático e dizendo que tudo é passado, foi-se sua força heroica e ela não pode ajudá-lo, mas a inútil não morre, tosse e tosse mas não morre, resiste e não morre, assombra-o dia e noite, dia e noite, dia e noite, dia e noite...

...

— Soube que a coragem dele morreu, enfim?
— Sim. Morreu e levou-o junto. Morreram os dois.

Espetáculo

O corpo bem acomodado numa cama 
enquanto, no palco da mente, 
imagens se apresentam 
rápidas, 
coloridas, 
vívidas 
numa dança sem som nem ritmo.

Aplausos mudos. 
Um belo espetáculo. 

No fim
as imagens, 
de mãos dadas, 
agradecem, 
unidas num borrão só.

Lentamente, fecham-se as cortinas. 
(Lentamente, pega-se no sono.)

Sobressalto


O velho sentimento fora dado como morto às 13:45h, numa fria e nublada quarta-feira. Ela não chorou sua ida; na verdade, deu-se por aliviada. Não mais depositaria nele esperanças inúteis, nem perderia tempo com quaisquer devaneios bobos e sonhadores que o envolvessem. Passaria a enxergar a si, apenas a si, unicamente a si. Sorriu com as possibilidades que a oportunidade lhe descortinava. Aprumou o corpo e saiu, satisfeitíssima. 

Três passos para fora da casa, contudo, e a surpresa: vinha-lhe, ressuscitado, o sentimento que enterrara havia pouco; vinha nos olhos do rapaz. Com o susto recuou os três passos que dera, o coração parecendo querer saltar por sua boca e ver de perto o fantasma que a assustava. 

O rapaz não entendeu nada. Ela, menos ainda, tornando a entrar em casa e trancando a porta. Desejou que a chave pudesse dar quatro ou cinco voltas, ao invés de duas só. Sentia os próprios olhos arregalados e o estômago meio que entranhado para dentro de si mesmo. Se antes sorria, agora sofria. Sofria porque, mais uma vez, sentia.

Amplidão


Fui tomada por uma convicção. 

Subi, subi rumo ao mais alto mirante da minha razão, determinada a, lá de cima, vislumbrar minha essência. Eu desejava entender a forma como meu passado me moldava... Enxergar meus caminhos como num mapa: ver onde é que os retos se entortavam e os tortos se endireitavam, ver como os estreitos se desembocavam nos de espaço amplo e como estes, de repente, se subdividiam em duas ou três outras passagens. Observar o fluxo dos rios salgados por lágrimas vãs, as árvores frutíferas dos meus esforços, as montanhas de momentos bons que recebi e fui guardando com carinho. Estudar-me com afinco, entender-me por completo; só assim eu nunca mais erraria em relação a mim mesma. 

Esqueci-me, contudo, de que a amplidão do ser não se esquadrinha racionalmente, de modo que, uma vez no mais alto mirante da minha razão, só vi névoa, névoa e névoa... 

No desespero, atirei-me no abismo que não via. Enquanto eu ia caindo, a névoa ia sumindo.

Sentença

As palavras que eu não disse ficam todas fechadas num cômodo. Sentadas no chão, rentes a uma parede, observam, mudas, a parede oposta. Permanecerão assim pela eternidade. Nem reclamam: foi-se o tempo delas; não têm mesmo mais nada a fazer.



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